Então, uma linha é desenhada no mapa
cujo torneio define uma zona para além da qual
a regência é a salvação
onde busca-se refúgio.
Há quem chame esta disciplina,
a que agracia os eleitos,
de soteriologia, soteropolitanos.
Outros,
de política migratória em tempos de guerra.
Custa saber a diferença quando a linha cristã exige
livret cristão,
a cidadania operária para entrar no paraíso.
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quarta-feira, 25 de novembro de 2015
domingo, 23 de novembro de 2014
Não como secularização, mas como sobrevivência: notas sobre a ruína, a morada e o fantasma da religião.
COHEN,
Bernard Jerome. Revolution in Science.
Belknap/Harvard. Londres/Cambridge. 1985.
COUSIN, Bernard;
CUBELLS, Monique; MOULINAS, René. La
pique et la croix: histoire religieuse de la Révolution
Française. Centurion.
Paris. 1989.
FRAZER,
James George. The golden bough: the magic
art (2/13 vol.). Macmillan. Londres.1990 [1913].
KOSELLECK, Reinhart. Futuro
passado: contribuição à semântica dos tempos históricos.
Rio de Janeiro. Contraponto. 2006.
1- 1879 segue
sendo um marco inescapável. O processo revolucionário que parte de um esforço
nacional para uma reforma fiscal e orçamentária (budgetaire) se
transformou em signo de ruptura no tempo ao ponto que o conceito de revolução
foi, ele mesmo, revolucionado. Aquilo que outrora enunciava a retomada do ciclo
normal própria das órbitas celestes, por exemplo em De revolutionibus orbium coelestium de Copérnico, (Koselleck,2006;
Cohen, 1985) em que a revolução se dá quando a trajetória percorrida pelos
astros e a retomada em um espaço arbitrariamente definido como Delta Zero marca
a presença de um mesmo astro em t=2, isto é, num segundo momento – com o perdão
da notação newtoniana. Começar de novo a mesma trajetória no tempo, eis o que
fora a revolução como processo e eis o mesmo processo então revolucionado por
uma outra revolução.
Esta
revolução nova parece acrescentar uma outra nota ao processo no qual não é a
regularidade indefectível da natureza quem conduz os esforços, mas a ação
humana que assume uma outra dimensão, propriamente humanista e portanto
protagonista de seu próprio meio, fazendo da retomada da ordem como a extinção
de relações postas anteriormente. Não se trata somente de uma substituição de
postos como na morte ritual – e real – do sacerdote do templo de Diana em Nemi
(Frazer, 1990), mas uma alteração dos termos de relação que fundamentam a
organização social instituindo, no caso da Revolução Francesa, a organização
social ela mesma. O processo revolucionário que pretendera ser uma correção de
rumos alterou a noção de rumo correto, o que por fim combina com a imagem de um
motim em uma enorme galera que culmina na alteração do que é um rumo correto
alterando a noção de destino – da perfeição à perfetctibilidade, por exemplo.
Dito de outra forma, trata-se da filosofia da história entendida como ato
governamental.
O que faço
nos dois parágrafos anteriores é um sumário bastante generalista. É
desnecessário ressaltar os riscos de um exercício de pesquisa que tenha como
ponto de partida algo desta natureza que, diante das requisições e cautelas de
um discurso acadêmico-científico, é bastante grosseiro. Dizer que o processo
Revolucionário francês começa como um ato governamental para, por fim mudar
aquilo que significa governar, parece ser tudo, menos preciso. A imprecisão da
idéia, ainda assim, parece tentadora. Obviamente que esta sugestão não pretende
se indispor com uma outra, a que atenta para uma dimensão sociológica dos
processos históricos que afirma que, por fim, um dado evento com as proporções
da Revolução Francesa se encontrava gestado com enorme antecedência e que a depender
da diretriz narrativa pretendida, a Revolução teria uma data de partida
diferente. Suas origens culturais não seriam, portanto, suas origens
sociológicas, alterando sua datação no caso da distinção de fato ter alguma
relevância. E talvez tenha, mas como distinção, digamos, nativa. E isto faria
de minha grosseria algo interessante porque boa parte das categorias nativas em
movimento no período pós-revolucionário ressoarão no pensamento sociológico na
forma de categorias analíticas e conceitos sociológicos. O que estou dizendo é
que após a Revolução dificilmente o pensamento sociológico poderia ser
discriminado das reformas que se inserem como postulado das políticas de
Estado. Seguramente que a sociologia pode ser relacionada a diversas outras
dimensões da história moderna, mas, repito que dificilmente poderia ser
dissociada do esforço persistente de reforma do Estado que conduziu grande
parte das políticas conduzidas pela França pós-revolucionária.
Visto de um
ponto de vista não-especializado o jogo de sucessivas reformas tem uma
aparência de mover as coisas de lugar, quando não a de tirar para então
substituir por outras cuja crônica se transforma na narrativa dos arcanos do
Estado e seus demiurgos que logo se transformam em biografias coletivas que
atendem por um nome só: Império de Napoleão, de Louis Philippe, o governo de
Thiers. Não são somente nomes masculinos, mas períodos e unidades de espaço nos
quais incidem os gestos de governo de cada uma destas personagens, nem sempre
de corpo presente, mas por via da presença da chancela e, quando não, de sua
forja. Assim, o que fazer com deposições como a da coroa que caiu guilhotina
abaixo; ou mesmo da expulsão da religião pela porta dos fundos? Expulsão? É
preciso ver mais de perto este sinal que pode ser, no mais das vezes, invertido
ou pelo menos severamente atenuado exatamente porque este mesmo sinal é
diversas vezes confundido com o sinal da cruz.
No documento
da Constituição civil do clericato de 12 de julho de 1790 a Igreja é
varrida do solo francês. O processo já duramente questionado se torna uma
fratura ainda mais agressiva e, convém lembrar, diversas vezes criminosa
durante o ano II da Revolução (1793-1794) quando as raízes do culto sofrem
golpes com vistas na sua total extirpação do seio da vida pública, período no
qual se desenham substitutos na forma de festas cívicas. Daí por diante, depois
da abolição do dízimo, da nacionalização dos bens da Igreja e da supressão das
ordens religiosas a fronteira é posta: entre a religião e o Estado há uma
fronteira na qual a França deixa de ter uma religião oficial. O culto religioso
é uma atividade, quando não ilegal, dali por diante extra-oficial. Mas quais os
demais efeitos da deposição para além da descrita? Porque é preciso destacar um
ponto importante:
“Em 1789 a Igreja ocupa, na França, o primeiro plano ao mesmo tempo político, social, intelectual e moral. O clericato é a primeira ordem do reinado, sendo a única ordem organizada em escala nacional tendo suas assembleias com relação às quais voltaremos a falar (Cousin et. al, 1989, voltarão a falar - não eu). O catolicismo é religião de Estado de forma que nenhuma outra confissão é, em princípio, tolerada após a revogação do édito de Nantes pelo édito de Fontainebleau, de 1685.” (Cousin et al.: 13).
“Em 1789 a Igreja ocupa, na França, o primeiro plano ao mesmo tempo político, social, intelectual e moral. O clericato é a primeira ordem do reinado, sendo a única ordem organizada em escala nacional tendo suas assembleias com relação às quais voltaremos a falar (Cousin et. al, 1989, voltarão a falar - não eu). O catolicismo é religião de Estado de forma que nenhuma outra confissão é, em princípio, tolerada após a revogação do édito de Nantes pelo édito de Fontainebleau, de 1685.” (Cousin et al.: 13).
Isto não
quer dizer, obviamente, que o processo Revolucionário se transformou numa festa
ecumênica em que todas as religiões puderam vir à luz, mas que se formou algo
peculiar mediante uma proibição universal do culto público religioso. Por via
desta proibição que atingia inclusive aquela que outrora fora a religião
oficial – e uma das razões de ser da crise econômica, vale lembrar -, um ato
governamental produzia um cenário em que todas as religiões indiferiam entre si
dado que equivalentes. Este gesto, nesta escala, produzia uma certa indiferença
com relação à fé, à crença e tudo aquilo o mais que os antropólogos modernos
passaram a chamar de categorias nativas que, em não poucos casos caberiam na
alcunha “teologia”. No caso, a católica.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
A felicidade desde um ponto de vista pragmático.
AUSTIN, John
Longshaw. How to do things with words.
Harvard
University Press. Cambridge. 1975 [1955]
____________________________. Sentido e percepção. Martins Fontes. São Paulo. 1993.
(leio para ver se consigo
encontrar uma forma de felicidade com a qual posso lidar.)
William James
Lectures em Harvard, em 1955.
Lecture I –
Sei ter
havido no seio da filosofia profissional sucessivas revoltas contra a história
da filosofia, nenhuma delas suficientemente bem-sucedida para que a aquisição
de um diploma não viesse às expensas de exercício do comentário filosófico,
filosofia como filologia especializada. Em parte a voga estruturalista nas
ciências da linguagem, que em parte a antropologia também se transformou, se
permitiu participar do longo parlamento em que a ordem dos sentidos se impunham
por via de alguma ordem semiológica na forma de uma legislação do sentido em
que a gramática passou a ter mais de um aspecto funcional. Não somente permitia
discernimento sobre a coordenação das partículas que fazem de uma língua a
língua em específico como permitiriam acesso a uma meta-língua, a língua que
falasse no lugar da língua em momentos específicos, como na confecção das
máquinas de traduzir, hoje acessíveis por via de um google qualquer. A língua
teria produzida a sua determinação auto-referencial carregando em si a chave de
todos os seus procedimentos numa forma de soberania impessoal – um kantismo sem
sujeito transcendental, na acusação de Paul Ricœur a Claude Lévi-Strauss.
Significativamente as palestras de John Langshaw Austin não acompanham este
movimento fazendo dele alguém tão fora do ninho deste tipo de empreendimento
quanto o fora William James na consolidação da sociologia francesa, a
pré-história desta história na qual Durkheim e Mauss dedicam um esforço
considerável em barrar a influência do pragmatismo americano no milieu francês.
Se o sentido
está dado na estrutura, se a gramática contém em si os elementos fundamentais
da significação, o que fazer com uma palavra de ordem? De algo que ao dizer,
faça e, mesmo, faça-fazer? A constatação da dimensão performática da ordem, por
exemplo, constitui o problema central das palestras de Austin em questão. Assim
como o pedreiro que pede os tijolos nas Investigações
Filosóficas de Wittgenstein, ou nos trechos em que Humpty Dumpty define o
poder de definição do sentido em Alice in
Wonderland e, por fim, nas questões de uma semiótica dos mil platôs por Deleuze e Guattari. É
neste ponto em que classificar a função das palavras descoladas de seu uso
circunstancial faz com que certas distinções soem ociosas, confusas ou
contraproducentes porque parte do sentido constituído e não da mixórdia nonsense na qual se baseia boa parte da
comunicação linguística, inclusive a filosófica.
“First
and most obviously, many “statements” were shown to be, as KANT perhaps first argued
systematically, strictly nonsense, despite an unexceptionable grammatical form:
and the continual discovery of fresh types of nonsense, unsystematic though
their classification and mysterious though their explanation is too often
allowed to remain, has done on the whole nothing but good.”(1975:02).
O nonsense tem um impacto importante em como refletir sobre as
sentenças em geral, sobre o que é aceitável como discurso especialmente quando
ele não faz sentido, isto é, quando o seu componente determinante não é
reproduzir a auto-referencialidade da linguagem como mecanismo de elucidação
daquilo que faz. Contudo, a falta de sentido não impede que ago seja dito e
que, a contrapelo, se faça compreensão – não necessariamente que o dito se faça
compreender, o que é outra coisa. O que se diz não produz sentido, ao menos não
sozinho. É aí que entra em cena o problema da performance.
“Along these lines it has by now been shown piecemeal, or at least made
to took likely, that many traditional philosophical perplexities have arisen
through a mistake – the mistake of taking as straightforward statements of fact
utterances which are EITHER (in interesting non-grammatical ways) nonsensical
OR ELSE intended as something quite different.”(1975:03).
Em português
o ciclo de conferências de Austin foi rebatizado. Quando dizer é fazer – Artes
Médicas editora. Ainda que uma violação do título original das conferências, não
deixa de traduzir muito bem o ponto de partida de Austin, dado que ele sugere
haver sentenças que não são passivas de qualquer juízo a respeito de sua
Verdade ou Falsidade dado que não descrevem qualquer coisa. São, ao serem
ditas, ações elas mesmas: eu aceito, eu concedo, eu aposto. Seguramente que
fazer as coisas por via do que se diz não implica na afirmação de uma relação
exclusiva dado que a aposta muda se faz com moedas e máquinas caça-níqueis e
casamentos com o mero ato de morar com alguém. E é exatamente este o ponto,
isto é, sua equivalência como ação.
“The
uttering of the words is, indeed, usually a, or even THE, leading incident in
the performance of the act (of betting or what not), the performance of which
is also the object of the utterance, but it is far from being usually, even if
it is ever, the SOLE thing necessary if the act is to be deemed to have been
performed.” (1975:08)
Faz-se apelo
às circunstâncias que poderia ser acusado de ser, de outra forma, uma redução
às circunstâncias, o que não creio ser, digo, uma redução exatamente por não
inferir qualquer dimensão a respeito da verdade ou da falsidade de uma
sentença. O que fazer com questões de ordem moral, com a mentira? Austin
recomenda que se preste atenção à marca de
que “acurácia e moralidade, ambas são compreendidas na frase que afirma
que our word is our bond – nossa
palavra é o nosso vínculo”. Mesmo que por via de uma promessa feita de má-fé
que é, todavia, uma promessa, uma jura. Eu juro. E daqui já se vê que é preciso
muito pouco para fazer por via das palavras – e que neste nível os critérios de
verdade e falsidade não se aplicam melhor às sentenças do que em algo como um
movimento em falso.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Who am I, Jackie Chan? IV - fazendo graça com o que não deve
ASAD, Talal.
Genealogies of religion: discipline and
reasons of power in Christianity
and Islam. Johns Hopkins Press. Baltimore and
London. 1993.
GEERTZ, Clifford. The interpretation of cultures.
Basic Books. Nova York.
1973.
4-
A discussão
a respeito da noção de agência aplicada ao problema da autoria, ou da
propriedade dos efeitos que em metafísica pode ser condicionado ao díptico
causa eficiente/design inteligente assume outras proporções quando a discussão
assume sua forma propriamente jurisdicional. Dito de outra forma, quando o que
está sob observação a mais escrupulosa é exatamente a determinação do poder
soberano, por um lado e de outro, a constituição do ato e do agente criminoso
que tomam à forma de um amplexo os extremos que ativam a identificação
codificada de agentes obsessores, por um lado que recheiam a bibliografia
produzida por Michel de Certeau, Robert Mandrou, Julio Caro Baroja, Keith
Thomas e Sarah Ferber. De outro lado delineia a forma do monopólio da
organização dos componentes psíquicos pela clínica e pelo direito cuja
historiografia de Michel Foucault, Marcel Gauchet, Ruth Harris, Jacques
Donzelot, Christian Phéline, Robert Darmon e os ensaios de Philipp Rieff e O Anti-Édipo de Deleuze e Guattari
descreveram à exaustão. Dito de outra forma, instituem de poder os agentes que
podem, os que não podem e os regimes de existência algo explorados pela
arqueologia foucaultiana e que tem um papel de destaque na composição da
modernidade histórica narrada a partir da linha da secularização. São
operadores de determinação ulterior das figuras presentes nos limites e no além
da jurisdição. É aí que a tensão entre Geertz e Asad atinge seu ápice e, penso
eu, sua maior relevância exatamente porque via Geertz nada parece existir com
maior grau de realidade dado que restrito ao terreno do simbólico – que é o que
existe no lugar de outra coisa numa forma de existência derivada próprias à
definição mais agressiva de semiótica da comunicação humana, e especificamente
humana como ele faz questão de enfatizar no ensaio sobre o impacto de conceito
de cultura no conceito de homem – segundo capítulo de The Interpretation of Culture.
De outra
forma, à maneira de Asad, o universo do discurso sempre sugere franjas e
bordas, ou um mais além da linguagem que define o empreendimento humano de
forma abrangente. Da antropologia também, como crítica e produtora de poder. A
comunicação humana reduzida a si-mesma parece ser condicionada por um projeto
de paz perpétua que acompanha esta forma mitigada de religião natural desde o
iluminismo escocês de David Hume, cuja concretude ou sua evidente falta forja a
principal razão de sua recusa e, no pacote, a recusa da ética implicada na
condução até o ponto em questão.
O itinerário
programado por Asad não é especificamente uma agenda contra-Geertz propriamente
dita, mas contra aquilo que o projeto de Geertz ironicamente representa dado
que demasiado dedicado na reprodução do confinamento e da defesa de uma
religião confinada (Asad, 1993:28), isto é, de uma atividade simbólica de
agência tutelada, o que é uma das especialidades do Estado moderno. Obviamente
que esta é uma forma grosseira de apresentar a antropologia de Clifford Geertz,
salvo se retomarmos a frase. Disse que Asad se indispõe contra aquilo que a
antropologia de Geertz representa, isto é, contrária à versão cômica dos
universais humanos que na forma de antropologia são registrados em livros,
filmes e museus e que, uma vez sumariados compõem um catálogo de traduções semióticas de textos culturais. Rigorosamente
a humanidade emerge como pura mediação com força de agência, é o objeto em
lugar de outro por excelência numa diluição homeopática da eucaristia.
Visivelmente é a contraproposta liberal para as instituições medievais que
eram, antes de mais nada, cristianismo público e não privado. E é esta
alteração que serve de evidência quanto aos limites da definição de religião
via Geertz:
“Let us, therefore, reduce our paradigm to a definition, for, although it
is notorious that definitions establish nothing, in themselves they do, If they
are carefully enough constructed, provide a useful orientation, or
reorientation, of thought, such that an extended unpacking of them can be an
effective way of developing and controlling a novel line of inquiry. They have
useful virtue of explicitness: they commit themselves in a way discursive
prose, which is this field especially, is always liable to substitute rhetoric
for argument, does not. Without further ado, then, a religion is:
(1)
a system of symbols which acts to (2) establish powerful, pervasive, and
long-lasting moods and motivations in men by (3) formulating conception of a
general order of existence and (4) clothing these conceptions with such an aura
of factuality that (5) the moods and motivations seen uniquely realistic.
a system of symbols which acts to…”(Geertz,
1973:90-91)
O
interessante é que Asad cita o elenco em tópicos sem mostrar ao seu leitor o
que é a definição de “definição” para Geertz como se os tópicos bastassem como
representativa de um universalismo qualquer sem se aproximar da postura de
Geertz como autor ou então, mais condizente com a crítica em questão, como
autoridade. Ao fazê-lo parece, contudo, perder o mais importante pois é quando
Geertz se mostra como uma espécie de comediógrafo liberal à forma de Harold
Bloom (Abaixo às verdades sagradas)
ou Richard Rorty (Contingência, ironia e
solidariedade), exímios problematizadores da definição de “definição”.
Afinal, se um símbolo é um objeto que se põe no lugar de outro, uma definição
se presta ao papel de premissa de um ato de comunicação cuja o ápice
performático é o da piada, da comédia. E deixar claras as premissas é uma
postura muito mais importante quanto a universalidade do conceito de religião
proposto do que a definição ela mesma. Até porque o religioso e o simbólico
coincidem nos termos da hermenêutica de Geertz, e Asad sabe disso. A esta altura,
ainda que motivações estejam fora da alçada do presente comentário, é mais
importante descobrir o que Asad que de Geertz mais do que o que Geertz de fato
produziu. E o que Asad demanda é disciplina.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Who am I, Jackie Chan? III - o cômico em comum e o liberal engraçadinho
-->
3-
“However, to those who have been taught to regard essentialism as the
gravest of intellectual sins it is necessary to explain that certain things are
essential to that project – as
indeed there are to “India” as a nation-state. To say this is not equivalent to
say that the project (or “India”) can
never be changed; it is to say that each historical phenomenon is determined by
the way it is constituted, that some of its constitutive elements are essential
to its historical identity and some are not. It is like saying that the
constitutive rules of a game can never be subverted or changed; it is merely to
point what determines its essential historical identity, to imply that certain
changes (though not others) will mean that the game is no longer the same game.”(Asad, 1993:18).
West and the rest. É esta a clivagem
para a qual Asad mais se dedica na contenda com Geertz. É o ponto e que
concentra sua agressão exatamente por ser esta a fronteira criada pelo
exercício da modernidade vindo a exprimir termos particulares desta relação, em
particular como se constituem os modernos o resto do mundo como o exercício de
seu negativo; os limites da extensão da contemporaneidade e o atraso evolutivo
atualizado nas formas mais variadas; o privilégio do tempo futuro da gramática
expressiva da noção de progresso. Ainda que completamente envolvida com a cisão
os temas da pesquisa antropológica moderna a obriga a se aproximar
demasiadamente da relação e seus protagonistas, esta gente que não produz e que
não tem nada a acrescentar ao projeto da modernidade. Carrega consigo o fardo
da inutilidade política, filosófica, teórica porque, enfim, toma a estranha
decisão algo epistemológica de andar com as pessoas erradas e, de alguma forma,
participar do seu jogo.
Seria este o
exercício proposto por Geertz, o de estudar
na aldeia?
Lembrando
uma querela que persiste para além dos anos 1980, os temos de Writing Culture e a predicação da
cultura via George Marcus e James Clifford vale retomar um lembrete. Antes de
mais nada, o antropólogo é um autor. A antropologia, por determinação da
condição humana ou mesmo por inspiração na Ciência
Nova, é um artifício e a cultura um complexo ficcional. Produzir as thick descriptions defendidas por Clifford Geertz é, desde o
começo a definição de uma agenda de pesquisa que Asad problematiza. A
antropologia como um código semiótico que, à forma dos demais, constituem a
base da orientação humana como uma coisa feita. É ficção. A teoria da ação
parte de um sujeito emancipado que, em Geertz não vai além de uma pragmática
engaiolada ou, segundo a sua remissão à obra de Max Weber, suspensa numa teia
de significados que é, por fim, a cultura. Ora, se a agência implica na
extensão do ato e sua posse, o que pode um sujeito que só faz ficção?
Seguramente, não muito mais do que antropologia, o que é algo como uma redução
ao cômico:
“Anthropologists
have not always been aware as they might be of this fact: that although culture
exists in the trading post, the will fort, or the sheep run, anthropology
exists in the book, the article, the lecture, the museum display, or, sometimes
nowadays, in the film. To become aware of it is to realize that the line
between mode of representation and substantive content is an undrawable in
cultural analysis as it is in painting; and the fact in turn seems to threaten
the objective status of anthropological knowledge by suggesting that its source
is not social reality but scholarly artifice.” (Geertz, 1973:16)
A redução ao
cômico é um aspecto menos idiota do que parece, ou é perfeitamente idiota num
certo sentido, digo, no sentido certo. Abre alas para a agência de um fator
decisivo do esforço etnográfico de um certo culturalismo que recusa a narcose
estética oferecida pelo ópio dos grandes modelos teóricos do tipo “the world according to me”. Franz Boas,
em 1887 publica um elogio à geografia em favor de sua atividade eminentemente
descritiva. Recuperar aqui este elogio por via de um desvio
analítico-pragmático à Gilbert Ryle faz com que, de certa forma Geertz se
alinhe com uma determinada questão ética imposta ao etnógrafo. Refunda a
relação com ela operando no regime em que a mesma determinação das cores que da
ótica passa pelos olhos de quem vê constitui o espaço de definição em que a
antropologia e a condução da reflexão é feita junto aos amigos inúteis em um
ambiente artificial, dado que ficcional. O caso é que cultura meramente
ficcional provoca um pequeno distúrbio acerca da noção de alteridade,
especialmente quando os amigos inúteis afirmam na primeira pessoa do plural que
“não somos agentes da história, nem mesmo da nossa e o que fazemos não é ficção”
recusando, por exemplo, a simetria por vezes perversa, por vezes redentora
entre antropologia e conhecimento local.
quarta-feira, 20 de março de 2013
Faiblesse de croire: moi, encore idiote.
IV-
L’idiotie : raisons d’être ce qu’on dit. (continuação, parte II)
Que não se leia aqui qualquer acusação mais violenta às
figuras de Durkheim e Mauss. Ainda que o aparte seja honesto, e que o
comportamento reticente de ambos ao flerte imediato com os dados da experiência
seja mais do que professado, ambos advogam em favor dos direitos dos povos
primitivos, ainda que postos sob a tutela vigorosa da Declaração Universal dos
Direitos do Homem cujo conteúdo convém avaliarmos mais adiante. Ainda assim,
lembrando que um curso oferecido por Émile Durkheim na Sorbonne no ano de (1805)
se deu exatamente com vistas em recusar a obra de William James pelo fato desta
carecer de sociologia – faço aqui um exame raso e demasiadamente caricatural -,
as reticências tem efeitos importantes. No caso, convém resguardar os direitos
universais do idiota. Mas um idiota é somente um idiota. É aqui que a
intervenção de Michel de Certeau merece atenção, dado que o idiota merece ser
tratado também como um brincalhão, um trickster
de um tipo bastante especial, daqueles que guardam um segredo.
“Le
secret n’est pas seulement l’état d’une chose qui échappe ou se dévoile à un
savoir. Il désigne un jeu des acteurs. Il circonscrit le terrain de relations
stratégiques entre qui le cherche et qui le cache, ou entre qui est supposé le
connaître et qui supposé l’ignorer (le « vulgaire ») . Selon une
tradition illustrée par El Héroe
(1637) de Baltasar Gracián, le secret noue, par de liens illocutoires, les
personnages qui le chassent, le gardent ou le dévoilent ; ils est le
centre de la toile d’araignée que tissent autour de lui des amoureux, des
traîtres, des jaloux, des simulateurs ou des exhibitionnistes. Le caché
organise un réseau social. » (1882 :133)
O idiota, se
portador de um segredo, joga um jogo. Obviamente que não é qualquer idiota, e
não se trata de qualquer jogo. É preciso que seja um idiota que efetivamente
guarde um segredo e é preciso que alguém possa ao menos desconfiar que tal
segredo exista, subtraindo do vulgo a percepção do que de fato está acontecendo
e pondo as cartas na mesa em um ambiente mais reservado das vistas alheias até
que alguém possa ser declarado vencedor, ou contemplado pelas benesses de um
jogo bem jogado.
Antes de
mais nada é preciso querer saber e querer esconder estabelecendo a ligação
potencial entre as duas partes da contenda que, a princípio sequer precisa
acontecer. O ato do desvelamento é posto em antecipação pelo artifício da
vontade, pelo conhecimento do objeto futuro a ser desvelado e que, neste mesmo
movimento, estará escondido até então provavelmente pela própria vontade,
porque estar escondido é de sua própria natureza. Vouloir savoir e vouloir cacher. Ainda que se trate de um
tratado sobre a ciência da mística, quando os termos são postos desta forma à
maneira de uma relação de vínculo em que o par não equivale, mas é fortemente
complementar, é difícil saber enfim quem é o idiota – assim como é difícil
saber quem, num ato de exorcismo é de fato possuído pelo diabo.
Toda a
dificuldade do exercício da mística está no reconhecimento daquilo que não pode
ser dito e que tem na sua expressão a manutenção do exercício do segredo, da
elaboração do código que não leva a lugar algum que não à contemplação do
acolhimento da manifestação do símbolo, que em muito pouco tem a ver com a
descoberta de um princípio ativo da química que não seja o estatuto do objeto
futuro, como Gaston Bachelard estabeleceu com clareza exemplar. Nisso, a
manifestação da forma dada como experiência é ela mesma a composição daquilo
que se mostrará como segredo, exatamente porque o segredo é a apresentação do
mistério, e não a simples ocorrência do mundo. Nos termos de Mircea Eliade,
cuja fórmula desconfio mas tem o mérito de ser pedagógica, é a precipitação de
heterogeneidade em meio ao espaço e tempo homogêneos – a experiência do sagrado. Contudo, é a ligação entre os dois campos,
entre as duas formas que o problema da mística se dá, é a onde a relevância da
hermenêutica cria um conjunto de regras particular, o mesmo que Bruno Latour
distingue na operação diferencial de falar sobre religião e falar
religiosamente. No caso, o idiota seria
aquele que não sabe distinguir um termo do outro. Será?
Os santos
místicos tem uma peculiaridade que Michel de Certeau faz questão de acentuar.
Sua hagiografia pertence a um universo delicado, afastado da crônica evidente
dos feitos morais que acontecem no reino deste mundo, cujos milagres operam na
forma narrativa palpável. O santo místico vem a conhecer algo mais do que a
realizar uma ação específica o que culmina na produção de uma linguagem específica,
numa forma de dizer a tradução daquilo que não pode ser dito. É algo semelhante
à tese da intradutibilidade da poesia, da obliteração da experiência imediata
da língua original, da traição do poeta-criador carregado de um misticismo tão
inconfessável quanto sugestivamente concreto. É o caminho dos Doutores
Místicos, do corpus de Dyoniso Aeropagita e a longa sequência de investigações
conduzidas de forma tão desigual como por St. Tomás de Quino e Sta. Tereza
d’Ávila. É no exercício da unificação, da experiência da comunhão e mesmo da
sugestão de haver algo específico como é a própria experiência como fonte de
conhecimento que a cisão entre formas de conhecer a mesma comunhão se dá. E é
aonde encontramos a diferença entre o idiota e o cientista; o louco e o
ficcionista.
“Dans
ces exemples, comme bien d’autres, les « voies » ou les figures de la
connaissance se modalisent selon une distribution anthropologique ou
cosmologique ; elles restent accidentelles et quasi
« adjectives » par rapport à l’Unique principe qui les innerve, les
correlle et s’y manifeste. Quelque chose d’autre arrive lorsque, parallèle à la
division sociale qui renforce et explicite, entre « litterati » et
« idiotae », entre riches et pauvres, entre villes et campagnes,
l’existence de champs culturels et de types d’expérience hétérogènes, c’est- à
dire, l’organisation de la société en espaces différents qui renvoient à des
rapports de force (politiques,
juridiques ou rhétoriques) et non plus, essentiellement, à des hiérarchisations
de status ou d’ «états », le savoir lui aussi se transforme et
s’élucide selon la double formalité d’une spatialisation et d’une
opérativité : il sera fait de régions dont la différence n’est pas
surmontable, et de méthodes spécifiques à chacune d’elles. »
(op.cit. :144)
Não é por
qualquer equívoco lógico que de Certeau aponta para uma determinada genealogia
entre a ciência mística e o desenvolver de uma determinada ciência da psique
que, destacada do mecanicismo intrínseco à fundação da psicologia pela orientação
materialista, dá vazão aos problemas da dinâmica e da identificação, delicada,
entre o cientista e o objeto cuja diferenciação revela, dentre outras coisas, o
espaço hermenêutico. É aonde o mistério se apresenta em seu primeiro grau. Atentando aos sinais de distinção, aparece o
primeiro elemento expresso pelo pedido de cautela da parte das instituições
eclesiásticas com relação à precipitação de novas palavras, produzindo um
vocabulário escorregadio como o espaço entre os corpos dos tableaux de Bosch. Pode-se dizer quase qualquer coisa com a
invenção de palavras, o que pode generalizar o estado de idiotia em que tudo
opere como impossibilidade de comunicação, da mesma forma que do contrário
parece haver um sistema de redução do campo da conversação. No final das
contas, a história não oferece alternativa suaves, e tampouco soluções
definitivas. Todavia, a demarcação de campos específicos em que se dão
distinções permite que alguém como Pierre Bayle possa ter encontrado a manifestação
prototípica do obscurantismo religioso. Vale dizer que esta acusação não
precisa ser reputada, necessariamente, a um agente externo, um cético por
excelência. A racionalização da voz e a operação da palavra em prol da ordem da
comunicação eclesiástica, ou burocracia, também impera na definição e nos
contornos da fundamentação da parole
mystique-religieuse, aquilo que o mesmo Michel de Certeau chamará mais
adiante de politique de la langue,
com relação à ocasião da reforma da língua francesa pelo esforço monumental
conduzido pelo abade Henri Gregoire a partir de 1790.
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Notas do Subsolo: Saturno tem anéis e a Terra barangou
NATHAN, Michel. Le ciel des fouriéristes: habitants des étoiles et réincarnations de l’âme. Presses Universitaires de Lyon. Lyon. 1981.
“Le ciel devient ainsi la
grande banlieue de la terre. » (1981 :10)
[chercher pour Pierre Boitard et ses Études astronomiques, Le Musée des
Familles, décembre 1838 a février 1840.]
O exercício historiográfico de Michel Nathan
reside na investigação acerca da imaginação que investiga a vida em outros
planetas segundo aquilo que se oferece como desdobramento da investigação astronômica,
isto é, a mesma investigação que se desdobra da Revolução dos corpos celestes. Este que é um termo retirado do
tratado de Nicolau Copérnico tem aqui duplo sentido, proposital, uma vez que é
sabido que a revolução científica copernicana, e de aguma forma o mesmo vale
para outras figuras científicas como as de Newton e Lavoisier, não tinham
qualquer caráter revolucionário, mesmo quando revolução se fazia respeitar como
conceito fundamental. Como no caso de Copérnico, vale dizer. Isso porque revolução,
como notam bem Koselleck e Cohen, significa a volta completaem seu próprio
eixo, uma noção cinemática de ciclo. Nisso, se é mais comum vermos a vulgata de
que a terra grirar em torno do sol é aonde encontramos a revolução copernicana,
a discussão de Alexandre Koyré sugere uma outra coisa, de que a revolução está,
não na novidade do sistema, mas e sua homogeneidade, isto é, de que para além
do céu o que se encontra é a regularidade da natureza expressa numa forma
homogênea e indiferente do espaço. A revolução dos corpos celestes figura assim
como a redenção da concepção unitária da matéria como homogeneidade e assim,
como elemento equivalente em todos os níveis do cosmos. Nisso, a regência dos
astros produzida na elaboração delicada e milenar da astronomia é desafiada,
quando este é de fato o caso, pela concepção mais terrena possível do que são
os corpos celestes : composições fisico-químicas diferentes de um mesmo
sistema que opera, mesmo que não somente, pelo movimento corpuscular da matéria
em suas diversas variações de estado. Não é por acaso que a frase de que o céu
se transformou num grande subúrbio da terra é, mais do que acertada, dotada de
um senso de humor invejável.
É disso que se trata o livro de Nathan, digo, da
correlação entre a revolução da revolução o impacto disso no pensamento utópico
de Charles Fourier e seu entorno. Mas por que ler este livro agora ?
Porque ele se tornou importante ? Exatamente por causa da notação relativa
ao problema da moral política e, mais, sobre a extensão do mundo moralmente
relevante que participa da tensão entre o perfeito (Deus) e o perféctil (a
espécie humana). Um parágrafo apenas é
suficiente para compreendermos a inclusão mais detida do arsenal fourierista
neste apanhado de notas ao mesmo tempo em que procuro entender como é que a
partir da figura de Fournier podemos perseguir dois elementos pregnantes na
discussão em torno da emergência do espiritismo e sua periculosidade : em
primeiro lugar, a dispersão da harmonia como conceito desprovido de debate em diversoso
textos, incluindo os de Kardec e os de Renouvier ; em segundo lugar, como
é que a homogeneidade do espaço se transforma num pilar importante de desafio à
escatologia cristã, especialmente no que diz respeito ao pecado original e a
relação entre direito negativo e pastoreio, ou governo das almas. Cito Nathan
para termo uma idéia mais precisa :
« L’Eglise catholique a refusé d’accepter de telles doctrines qui remettaient en cause le récit de la Genèse, la notion de péché originel, interprétaient la Révélation et la Rédempation à la lumière des grandes hérésies, refusaient la pérénnité des séjours en Enfer ou au Paradis. Les théologiens crurent devoir rappeler l’esprit et la lettre des Evangiles. Ils furent contestés de toutes parts au nom d’une tradition antérieure à l’Église romaine, usurpatrice du message de Jésus-Christ. On fit des recherches sur les Druides pour prouver que les Gaulois croyaient en la doctrine de la pluralité des existences de l’âme. On expliqua que cette doctrine était conforme auc grands textes sacrés de l’Orient et de l’Occident, au mosaïsme, au christianisme bien compris. On crut, selon l’expression d’André Pessani qu’était venue « l’heure du second avénement de l’esprit ». L’idée de pluralité des mondes fut si fortement ancrée dans les esprits qu’elle devint sous le Second Empire « idée reçue ». Madame Dambreuse croyait à la transmigration de l’âme dans les étoiles, ce qui « ne l’empêchait pas de tenir sa caisse admirablement. »(1981 :17)
« L’Eglise catholique a refusé d’accepter de telles doctrines qui remettaient en cause le récit de la Genèse, la notion de péché originel, interprétaient la Révélation et la Rédempation à la lumière des grandes hérésies, refusaient la pérénnité des séjours en Enfer ou au Paradis. Les théologiens crurent devoir rappeler l’esprit et la lettre des Evangiles. Ils furent contestés de toutes parts au nom d’une tradition antérieure à l’Église romaine, usurpatrice du message de Jésus-Christ. On fit des recherches sur les Druides pour prouver que les Gaulois croyaient en la doctrine de la pluralité des existences de l’âme. On expliqua que cette doctrine était conforme auc grands textes sacrés de l’Orient et de l’Occident, au mosaïsme, au christianisme bien compris. On crut, selon l’expression d’André Pessani qu’était venue « l’heure du second avénement de l’esprit ». L’idée de pluralité des mondes fut si fortement ancrée dans les esprits qu’elle devint sous le Second Empire « idée reçue ». Madame Dambreuse croyait à la transmigration de l’âme dans les étoiles, ce qui « ne l’empêchait pas de tenir sa caisse admirablement. »(1981 :17)
A passagem acima dá outro peso à afirmação de
Monroe que define a periculosidade do espiritismo em sua forma de atestar
aquilo que é o futuro do espírito por via de investigações
empírico-laboratoriais. O desafio que este campo de empreitadas oferece é
significativamente maior, dado que oferece um desafio real de um ponto de vista
sociológico, a saber, que dispõe um grupo maior de pessoas recombinar os
elementos de uma imaginação relativa ao futuro da alma, e com isso alterar
aquilo que lhe é próprio como definição. O incômodo causado pela presença
destas pessoas no ambiente parisiens, por exemplo, pode ser anotada desde o 12
de dezembro de 1835 no jornal L’Univers religieux e na edição de 19 de
dezembro da Gazette de France do
mesmo ano. Os artigos dizem respeito a uma intervenção pública feita por Victor
Considerant e sua claque num congresso de história ocorrido no Hôtel de Ville
de Paris. Estes são os phalansterianos.
O expediente que Nathan utiliza
para desenhar o contorno de quem ele entende ser Charles Fourier pode ser
condensada na seguinte frase : si
nous souffrons, les morts souffrent aussi. Entenda-se. O objeto de dissertação aqui é um intelectual que elege como método o « cálculo
analítico e sintético das atrações e repulsões apaixonadas », figura que
não parece dever nada, e mesmo antecipa com enorme precisão figuras outra
filosofia, como o são os parapsicólogos com relação à parapsicologia, como Alfred Jarry e a voga maquínica que assola parte do pensamento
filosófico francês - que descobri quase não existir mais na França que é mais uma vez uma invenção nossa. Isso porque Fourier se atira, seguindo Michel Nathan, no
universo do infinitamente grande e o do infinitamente pequeno e que, tecendo
relações entre coisas que não se relacionam senão num jogo de escalas que
repetem a mesma ordem apaixonada, culminando por fim em desmedida. Até porque,
no fim deve haver felicidade e prazer. Nada de ascese acética. La parodie avant la pièce. Isso porque, sigo, não há mais do que um só assunto e um só tema, e falar de homens, falar do universo é persistir no tema – o
que é algo antecipatório com relação a Gabriel Tarde, ainda que eu não queira fazer qualquer
esforço de desenhar a angústia da influência na ficção científica sociológica. Falar
do homem será falar do infinitamente grande número de coisas e da infinitamente
enorme variação de escalas do tempo. O termo para definir a sensação de viver
em tamanha multiplicidade de mundos e escalas é, então, vertigem. O movimento repete
o vórtex, o turbilhão descrito pela sabedoria cartesiana ainda que posto numa relação sensual de movimento sexy. A escala de perfeição
não segue a descrição do maior para o menor, mas associa os sinais de
maturidade com aquilo que é mais saboroso. Assim, na ordem do refinamento do cosmos
que distingue os planetas entre si a proporção que há entre os universos
púberes com relação aos impúberes é a mesma que há entre o melão e a abóbora[1].
O sabor, o odor e todas as formas de relação que produzem atração são
mobilizadas por um jargão militar que descreve o movimento de penetração e
contaminação dos corpos entre si produzindo um regime de afeção que repete,
ainda que num jargão que aponta para a fruição, o movimento corpuscular que
atende por fim a uma dimensão sensual exuberante.
Saturno é assim o protótipo daquilo
que a Terra, e os demais planetas do sistema solar deveriam ser. Mas a Terra
perdeu seu anél, « signe pubère en
l’absence duquel elle ne peut pas créer, car l’absence du signe pubère entraîne
suspension de la faculté procréatrice » - segundo Fourier, na edição
citada da Anthropos, X volume, página 335.
Assim, complementa Nathan, nosso
planeta não sendo mais atraente dado que perdeu seus anéis, perdeu quatro de
seus cinco satélites vindo a ficar somente com a Lua, múmia sem graça, chama
branda, astro inabitável que não distribui nem calor, tampouco aroma. Com a
finalidade de corrigir esta falta de cuidado, Fourier se propõe um higienista
do cosmos vindo a propor que a vida social regenere a vida cósmica voltando a
respeitar aquilo que lhe é própria, modelando a harmonia social a partir da
harmonia das esferas, agindo de acordo
com Deus que lhe incita a participar da criação.
[1] As considerações relativas à harmonia do cosmos são
retiradas prioritariamente de Le Nouveau
Monde Amoureux, pubicado postumamente.
Postado por
Refrator de Curvelo (na foto do perfilado, restos da reunião dos Menos que Um)
às
08:13
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