Mostrando postagens com marcador Morrer aos Poucos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Morrer aos Poucos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Notas do subterrâneo: matar ou morrer (ou correr).


         Tenho amigos a favor da pena de morte. Inimigos também. Em geral, religiosos, nunca da mesma denominação. Fico pensando porque eu , ainda que compreenda existir o homicídio como uma relação animal possível, seja tão serenamente contra a pena de morte. Descobri que talvez eu não seja.
        Acabo de ler sobre Lutero e a instituição da igreja luterana. De como as relações com os principados partira de um afastamento teológico completo para uma noção delicada de tolerância religiosa que visa aquilo que toda igreja monopolista almeja: o monopólio. Espalhar a Palavra a partir da ortodoxia, constituindo assim um parâmetro universal tanto para a realização da Graça por via da irmandade produzida no seio da Igreja quanto uma forma de definir o comportamento correto pautado a mesma seara da evitação e expiação dos pecados. O ascetismo e a legislação concebida por via do Evangelho parecem poder oferecer uma noção rigorosa de conduta, mas ao mesmo tempo afastada do controle governamental. Ledo engano. A Igreja produz efeitos mundanos exatamente para garantir as condições para que a Palavra seja propagada, e deve criar seus pares, germanos e rebentos de forma a serem eles mesmos propagadores seguindo o mesmo ímpeto que conduz a formação da ratio estudiorum jesuíta. É preciso conduzir. E nisto acontece aquilo que todo defensor de sua própria vida chamaria de percalços. Da excomunhão de pessoas que não saldam suas dívidas monetárias, tal como nota a história da cristandade em um de seus capítulos, a relação entre igreja e território que participam não somente da imaginação mas da própria condição para a fé na Europa dos séculos XVI e XVII demandaram não somente uma sorte de aliança entre Lutero e uma gama de principados, especialmente no caso de Wittenberg, quanto a reforma da relação entre Lei Positiva e Evangelho que o mesmo Lutero, quando novo, tanto se esforçou por querer evitar, por acreditar no Evangelho, na influência da Palavra, na força dos sentidos da Graça. Isso não sobreviveu às agruras do território de forma que a oferta moral de reformar a Igreja conduziu ao longo do tempo uma reforma da condução do Estado. Os principados que aderiram ao luteranismo no jogo agressivo do espaço moral e dos jogos de batalha introduziram as variações administrativa do inimigo potencial. Penas como a prisão perpétua e a pena de morte fizeram parte das novas determinações que, no final das contas, não são tão novas assim. A Lei Natural que estabelece a forma pela qual as sociedades humanas devem constituir o governo segue na defesa da religião do Estado conformada no modelo de Landeskirchen que mal começo a conhecer, o que não está previsto naquilo que Lutero alguma vez redigira, mas responde a alguns dos anseios e efeitos da ética protestante em sua germinação. Proteger dos pecados, proteger dos pecadores.
            Mas eu não sou fiel e sou de uma ignorância atroz no tema. Isto que redigi acima indica que, no final de contas, eu deveria me ater àquilo que eu de fato conheço e me entregar ao alcoolismo. Todavia, a pena de morte ainda me é um assunto caro, como tantos os outros que envolvem a morte, especialmente a morte alheia. Porque justificar a pena de morte a partir da variedade religiosa me parece um exercício interessante, especialmente partindo do fato de que tudo aquilo que não conheço pode ter supremacia. Como eu não sou fiel e serei acusado de falar do que não entendo repetindo a gama de acusações daqueles que sugerem só existir pensamento na primeira pessoa, é preciso dizer o que é que me incomoda.
            A religião em geral e a fundamentação dos costumes em pura religião é dos exercícios intelectuais e de dedicação mais apaixonantes que conheço. Não pratico por uma só razão que é a deficiência de formação que tenho, a mais completa falta de erudição necessária para tal. Contudo, à luz do relativismo mitigado de Marshall Sahlins, existe uma grande diferença entre refletir sobre a religião em geral e advogar pela religião em geral. E essa diferença pode ser encenada num drama recente que posso narrar em primeira pessoa. Ou quase.
            Duas semanas antes de uma viagem internacional que vim fazer, descobri que minha esposa estava grávida. Não por nenhum método divinatório ou inspiração, mas por sua própria voz. A viagem se deu, e tomamos todos os cuidados possíveis, ou seja, ou quase. O bebê quase resistiu à vida, mas veio a falecer ainda em seu ventre tendo sua condição vital revelada em uma maternidade que nos comunicou a morte em francês. Imediatamente o primeiro e o mais repetido consolo fora a de que isto é normal, que é uma forma de dizer que é uma condição geral da primeira gravidez e que nada de errado de fato aconteceu. Ou quase. Era meu primeiro filho no ventre de minha esposa e toda a regularidade do evento comparado com as outras perdas de filhos não me permite negar que se trata, por fim e ao mesmo tempo, de um momento de exceção. Era, não o filho dos outros, mas o meu. Ou quase.
            Há uma frase que ouvi da boca de alguém por quem não nutro simpatia, mas a frase é reveladora. A diferença só é importante como conceito quando é intolerável e a condução do luteranismo primitivo em Wittenberg é lúcido em mostrar que quase não há possibilidade em tomar uma decisão, em fundamentar uma ordem jurídica do ponto de vista da religião em geral, a não ser que a religião em geral possa de fato dar as caras na sua forma intolerável: a do inimigo. Assim, exercício da religião comparada e as forças do todo religioso parecem ter um freio interessante que me propõe um exercício de imaginação que gostaria de propor. Imaginemos que a pena de morte, por estar prevista e endossada pela maioria das religiões – o que eu não sei; desconheço – seja por fim razoável, e este anteparo da religião em geral é de alguma forma suficiente para estabelecer a autoridade do juízo em questão e, por conseguinte sua devida correção. Nisto, talvez uma cautela mereça atenção para que tudo isso não soe à legislação em causa própria. Quando os favoráveis à pena de morte só puderem ser julgados pelos seus adversários, especialmente em termos religiosos, mas também em termos de projeto de poder e se dispuserem a serem condenados à pena capital proferida por aquele que é, diante daquilo que determina a razão de ser das religiões monopolistas, o seu inimigo, eu penso em reconsiderar a minha posição com relação ao caso. Julgado e condenado à morte, talvez aceitasse ser condenado pelo governo, inimigo por definição.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Sparring forçado acerca da doença moral.


“Confesso que não entendo bem. Li quando era mais novo numa edição daquelas que levamos a sério porque parecem feitas no escuro, às escondidas enquanto as tropas passam na rua. Quando comprei já estava cheia de vincos.”

“Você sempre fala um negócio horroroso nessas horas.”

“É. Estou tentando lembrar como foi que eu escrevi sobre o livro. Algo do tipo: capa em vinho com um projeto gráfico apressado feito por quem queria gritar ao invés de desenhar.”

“Sério?”

“E li aquilo que parecia uma daquelas traduções de urgência, um plano secreto... com 3 mil exemplares impressos. Esse tipo de segredo posto a público.”

“Se quiser esconder um segredo, revele a verdade? É sério que estamos falando sobre isso?”

“E aí tinha aquela história sobre revelar a potência do corpo quando da doença.”

“Olha. Não acho que é a melhor hora.”

“Dá pra conversar feito gente ou vai ficar me censurando? Incrível!”

“...”

“Porque gosto da idéia. Nem me lembro de quem é o livro...”

“Nietzsche. Ecce Homo.

“Não importa. Não importa quem era. Aliás, a única coisa lúcida que este sujeito fez foi abraçar o cavalo açoitado antes de simplesmente vegetar. Mas eu acho que isso começa a fazer algum sentido pra mim, digo, só haver saúde na doença. Porque algumas coisas ficam mais urgentes quando se está aqui, sem urgência alguma. Tempo tirado da caixa d’água a golpes de colher de café. E nisso, de comer e dormir, eu fico suscetível. Desde sempre. Uma camada da pele evapora e tudo começa a transitar, não importa a distância, tudo fica mais sensível. Ficar doente sempre me transformou num pervertido moral e começo a acreditar que a perversão é a evaporação de uma camada da pele. Tudo dói mais, tudo reverbera e transborda. Ficar doente tira dois palmos de altura da borda da piscina, sabe? Não tem mais certo e errado com clareza porque entra tudo, de perto e de longe, e sai tudo. Vulnerável e insaciável podem ser postos no dicionário de sinônimos. Sempre arrisquei delirar em febre por causa de um toque a mais. Cada micro-orifício da pele é um foco de dor e uma zona erógena. É o que a evaporação de uma camada da pele faz e é ela que precisamos restabelecer quando a doença vai embora. Senão viramos doentes morais querendo tocar a tudo e a todos com tudo o que temos, exatamente como quando da doença.”

“Gênio. Você é simplesmente genial.”

“Sei que isso não é assim, diabos. Sei que não é assim e que não é real, que a pele não evapora. Mas a figura faz sentido, digo, que doente o corpo fica permeável. Fico imaginando a hora da morte, especialmente de uma morte violenta como o corpo deve ficar poderoso antes de se desfazer imediatamente. Deve ficar calcinado pelo próprio vapor que libera.”

“Vou procurar um cavalo pra você.”

“Vá se foder.”

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Com a carne moída


Tudo isso, enfim,
porque
não consigo dormir,
não consigo acordar
do sono intenso
do sonho imenso,
encruzilhada sem ponto,
sem nó,
e é só
por isso que o caso segue, assim, e eu sangro para dentro – não por dentro – deitando o sangue para todos os lados, desde que sob a capa fina da epiderme que é para evitar que vaze o caldo pardo, que entorne – transtorno líquido – sobre-efeito sístole-diastólico da pressão que demora sem explodir antes da meia-noite, fronteira meio dia, meio não.
Que seja para usar de uma faca, uma lasca de ardósia, uma caneta bico de pena, ou mesmo uma folha de papel sulfite, só para fazer sangrar o mundo afora dando a minha carne à carne que me assombra desde dentro e que em vôo solo em cada ponto-cego distrai – eu, já desatento – do mero aceno ou da mais presente memória
e que só faz seguir
a presença desencarnada
a quem então ofereço meu sangue,
sacrifício tenro de um corpo
meio-morto, meio dia
em meio à noite,
que quer acordar
e dormir,
e só. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Discurso de Morte de Matei Candea


“Hoje eu morro pela ação da forca. Estou diante de vocês, agora, sem máscara que impeça que vejam meu sofrimento derradeiro, pelo quê peço paciência. Logo mais, minha face será coberta para que não se veja que sorte de espetáculo meu rosto fará diante de vocês. Abusado, pode ofendê-los e então, antes que o momento de borrar a visagem com um capuz fedorento, peço, repito, um tempo de sua atenção. Porque não quero declarar inocência e tampouco pedir perdão, não pretendo chorar e tampouco negar, alegar falta de clareza em algum momento ou passagem do processo. Seria ocioso, desnecessário e não seria, de outra forma, honesto. Não sou inocente, ainda que não seja culpado daquilo que irá me matar, e isto quero notar. Não quero pedir perdão no momento derradeiro porque há muito troquei minha horas de sono pelas preces, pela redação das cartas em que pedi perdão sem nunca realizar o pedido de absolvição. Não tenho mais forças para chorar, o que se tornou um exercício ocioso desde então, chegando mesmo a me fazer acreditar que seria incapaz de produzir uma lágrima a mais. Não tenho mais fôlego para este último soluço. Não tenho como negar aquilo que é fato, é evidente e nunca neguei, assim como compreendo que o processo que me trouxe até aqui foi conduzido na mais profunda normalidade. E talvez, por isso, pretendo dizer minhas últimas palavras atravessando os seus olhos com os meus. São minhas últimas palavras, peço atenção. Não se trata de eu merecer ou não a pena, e nem se o mundo ficará mais leve, mais seguro com a minha ausência. A bem da verdade, essa alternativa é decididamente peculiar e não há muito a dizer quanto a ingenuidade de uma hipótese como esta. O caso é que farão comigo algo muito semelhante daquilo o que fiz, o que parece ser uma compensação adequada, no que no final das contas é de fato, uma soma, e não uma subtração. Serei mais um morto. O que quero saber, e morro sem jamais ter ouvido algo a respeito, é se estou em vias de morrer por ter sido condenado porque eu não tive forças de fazer a coisa certa na hora certa, ou se falta a vocês esta força que me faltou no derradeiro momento. Sei que agora é tarde. Nem espero que pensem sobre isso, a roda deve girar. Mas não estou seguro quanto a quem está em julgamento no ato de minha morte. Mas desconfio que aqui, amarrado a uma tábua prestes a morrer pelo pescoço, acabei me transformando num alvo fácil, e isso decididamente fere até mesmo minha condição animal. Isso não se faz.”

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Notas do subterrâneo: vejo mortos por todos os lados

Alberto Giacommetti, meu vizinho, tomando chuva na Avenue Alésia, esquina com  Hyppolite Maindron. Na verdade, não é aonde ele está, mas é como se fosse. Fotografia de Henri Cartier-Bresson. 



KSELMAN, Thomas A., Death and the afterlife in modern France. Princeton. Princeton Press. 1993.

            Vim a Paris com a mala cheia de mal-estar, preconceitos e outras virtudes. Como soem às virtudes, as que nutro pela França parisiense – e creio que todas as vezes em que eu escrever França, parece que faço alguma delação de Paris – me causaram alguns prejuízos. Felizmente, até então, nenhum de entendimento. Sendo compreender alguma coisa o meu trabalho, tenho dormido mal. Mas não por isso. Durante os meus primeiros 6 meses em que estive na Cidade Luz jamais consegui abandonar a impressão de que morava em um Museu do qual não consegui encontrar saída que não fosse as Portes que levam o transeunte a extra-muros. Seguramente, os edifícios (bâtiments) legendados não ajudam a fazer vazar essa impressão que só fez fortificar. Por todos os lados da Paris intra-muros há placas indicando alguém que fez algo digno de notificação museográfica que por ventura veio a residir no endereço, ou mesmo que um evento de proporções ainda maiores veio a se dar singularizando-o como signo da Grande História Francesa, como o caso das crianças judias que foram entregues pelas escolas em que estudavam direto para o extermínio nazista em movimento capitaneado pelo governo Vichy. Assim, como parto do egoísmo que só se justifica por ser moeda de troca, posso dar minha direction, 53 Rue du Moulin  Vert – 75014. Estou, no instante em que redijo essa nota, a pouco mais de 20 metros do bâtiment que veio a abrigar Alberto Giacommetti por toda a sua vida artística. Esta mesma casa está a pouco mais de 20 metros, por sua vez, de onde Henri Cartier-Bresson fotografou o escultor italiano encapotado até as orelhas, atravessando a rua Hyppolite Maindron, cruzamento com av. Alésia. Se atravesso em direção contrária ao caminho tomado por Giacommetti eu chego até a boulangerie aonde compre baguette todos os dias que, como todas as demais enfatizam que é possível comer pão como outrora, isto é, à la tradition. No papel de embrulho da Fermière Blonde, ou da Loira é possível encontrar uma criança emburrada com os cotovelos jogados sobre a mesa. A fotografia está do lado do slogan “ON NE TOUCHE PAS À MA... TRADITION!”.  Também não foi difícil descobrir que no hotel Brésil, ao lado do Jardim de Louxembourg, o notável Sigmund Freud gastou uns trocados para residir dois ou três meses. E eu aqui, por 6 meses, contados no relógio.
            Sei que a idéia de um mero museu soa desonesta, preconceituosa e injusta, porque tem todo um universo se fazendo ao redor, com pessoas vivendo suas vidas e criando a tudo e a todos na medida do possível. Entendo. Mas quero dizer que isso não tem nada a ver com Paris. Recebi desagravos por correspondência diretamente do Ministério da Cultura por causa do que vinha falando nestes últimos meses, enfurecendo alguns cidadãos mais articulados com a vida cultural da cidade. Fui acusado de tétrico. Vale notar que a ideia, à época, estava apenas em gestação. Não me entendam mal. Fui mal compreendido. Não é possível dizer que se trata de um museu a céu aberto se não incorporarmos a dimensão de que se trata, no limite, de um cemitério perfeitamente cercado no qual a honra e a glória da França se manifesta pela referencia lapidar do culto aos mortos. Por todos os lados. Os heróis, os justos, os injustos, os anônimos e mesmo, os desconhecidos e os inventados.
            A nota 55 do capítulo 4 de Thomas A. Kselman é incrivelmente didático com relação a isto.

            “The political and social implications of the cult of the dead as developed over the part three centuries are treated in a number of the essays in the recent collections edited by Pierre Nora. Although the work of Nora and his collaborators is scholarly in its design and presentation, it can also  be seen as the latest manifestation of the cult of the dead that it examines. See Mona Ozouf, “Le Panthéon – l’École normale de morts », in Pierre Nora, ed. Les Lieux de Mémoire, vol. 1, La République (Paris: Gallimard, 1984), 139-166; Jean-Claude Bonnet, “Les Morts illustres – Oraison funèbre , éloge académiques, nécrologie”, in Pierre Nora, ed. Les Lieux de Mémoire, vol. 2, pt. 3, La Nation (Paris, Gallimard, 1986), 217-241; June Hargrove, “Les Statues de Paris”, in ibid., 243-282. For an overview of the political uses of funerals from the revolution through the Third Republic see Ben-Amos, Molding th National Memory. For the revolution see also Albert Soboul, “Sentiment religieux et cultes populaires pendant la revolution: Saintes, patriots et martyres de la liberté”, Archives de Sociologie des Religions 1 (1956), 73-87”.

            Resta saber um coisa, digo, com relação a quem cada monumento faz relação. O leão da Place Denfert-Rocherau é o símbolo do esmagamento da revolução de 1871, conflito que culmina no maior óbito civil do século XIX francês. Deste símbolo monumental e ainda mais solitário do que o da Place de la Bastille advém o frenesi das linhas perfeitas, a longa linhagem do urbanismo produzido pela Reforma. Digo, a reforma Haussmann, nome que é somente o bico do seio, a ponta do iceberg tal como meu amigo Mathias Schelp insiste em me lembrar. Republicana ou não, a França gótica enterra seus mortos com alarde.

O túmulo do Barão Haussmann, localizado em qualquer interseção ou boulevard. Fotografia de Refrator de Curvelo Guarani Kayowá.