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domingo, 9 de agosto de 2015
THERE IS
Do your best
and so you will live
the life of the rest
of your efforts
that lacked
to be
(or)
as if
it would be called
someone else's
someone
else.
sábado, 31 de janeiro de 2015
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
A fé à pé
Caso perguntem se creio
digo que pago à vista
a forma ligeira
de não ser digno de respeito.
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Refrator de Curvelo (na foto do perfilado, restos da reunião dos Menos que Um)
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terça-feira, 8 de outubro de 2013
A felicidade desde um ponto de vista pragmático.
AUSTIN, John
Longshaw. How to do things with words.
Harvard
University Press. Cambridge. 1975 [1955]
____________________________. Sentido e percepção. Martins Fontes. São Paulo. 1993.
(leio para ver se consigo
encontrar uma forma de felicidade com a qual posso lidar.)
William James
Lectures em Harvard, em 1955.
Lecture I –
Sei ter
havido no seio da filosofia profissional sucessivas revoltas contra a história
da filosofia, nenhuma delas suficientemente bem-sucedida para que a aquisição
de um diploma não viesse às expensas de exercício do comentário filosófico,
filosofia como filologia especializada. Em parte a voga estruturalista nas
ciências da linguagem, que em parte a antropologia também se transformou, se
permitiu participar do longo parlamento em que a ordem dos sentidos se impunham
por via de alguma ordem semiológica na forma de uma legislação do sentido em
que a gramática passou a ter mais de um aspecto funcional. Não somente permitia
discernimento sobre a coordenação das partículas que fazem de uma língua a
língua em específico como permitiriam acesso a uma meta-língua, a língua que
falasse no lugar da língua em momentos específicos, como na confecção das
máquinas de traduzir, hoje acessíveis por via de um google qualquer. A língua
teria produzida a sua determinação auto-referencial carregando em si a chave de
todos os seus procedimentos numa forma de soberania impessoal – um kantismo sem
sujeito transcendental, na acusação de Paul Ricœur a Claude Lévi-Strauss.
Significativamente as palestras de John Langshaw Austin não acompanham este
movimento fazendo dele alguém tão fora do ninho deste tipo de empreendimento
quanto o fora William James na consolidação da sociologia francesa, a
pré-história desta história na qual Durkheim e Mauss dedicam um esforço
considerável em barrar a influência do pragmatismo americano no milieu francês.
Se o sentido
está dado na estrutura, se a gramática contém em si os elementos fundamentais
da significação, o que fazer com uma palavra de ordem? De algo que ao dizer,
faça e, mesmo, faça-fazer? A constatação da dimensão performática da ordem, por
exemplo, constitui o problema central das palestras de Austin em questão. Assim
como o pedreiro que pede os tijolos nas Investigações
Filosóficas de Wittgenstein, ou nos trechos em que Humpty Dumpty define o
poder de definição do sentido em Alice in
Wonderland e, por fim, nas questões de uma semiótica dos mil platôs por Deleuze e Guattari. É
neste ponto em que classificar a função das palavras descoladas de seu uso
circunstancial faz com que certas distinções soem ociosas, confusas ou
contraproducentes porque parte do sentido constituído e não da mixórdia nonsense na qual se baseia boa parte da
comunicação linguística, inclusive a filosófica.
“First
and most obviously, many “statements” were shown to be, as KANT perhaps first argued
systematically, strictly nonsense, despite an unexceptionable grammatical form:
and the continual discovery of fresh types of nonsense, unsystematic though
their classification and mysterious though their explanation is too often
allowed to remain, has done on the whole nothing but good.”(1975:02).
O nonsense tem um impacto importante em como refletir sobre as
sentenças em geral, sobre o que é aceitável como discurso especialmente quando
ele não faz sentido, isto é, quando o seu componente determinante não é
reproduzir a auto-referencialidade da linguagem como mecanismo de elucidação
daquilo que faz. Contudo, a falta de sentido não impede que ago seja dito e
que, a contrapelo, se faça compreensão – não necessariamente que o dito se faça
compreender, o que é outra coisa. O que se diz não produz sentido, ao menos não
sozinho. É aí que entra em cena o problema da performance.
“Along these lines it has by now been shown piecemeal, or at least made
to took likely, that many traditional philosophical perplexities have arisen
through a mistake – the mistake of taking as straightforward statements of fact
utterances which are EITHER (in interesting non-grammatical ways) nonsensical
OR ELSE intended as something quite different.”(1975:03).
Em português
o ciclo de conferências de Austin foi rebatizado. Quando dizer é fazer – Artes
Médicas editora. Ainda que uma violação do título original das conferências, não
deixa de traduzir muito bem o ponto de partida de Austin, dado que ele sugere
haver sentenças que não são passivas de qualquer juízo a respeito de sua
Verdade ou Falsidade dado que não descrevem qualquer coisa. São, ao serem
ditas, ações elas mesmas: eu aceito, eu concedo, eu aposto. Seguramente que
fazer as coisas por via do que se diz não implica na afirmação de uma relação
exclusiva dado que a aposta muda se faz com moedas e máquinas caça-níqueis e
casamentos com o mero ato de morar com alguém. E é exatamente este o ponto,
isto é, sua equivalência como ação.
“The
uttering of the words is, indeed, usually a, or even THE, leading incident in
the performance of the act (of betting or what not), the performance of which
is also the object of the utterance, but it is far from being usually, even if
it is ever, the SOLE thing necessary if the act is to be deemed to have been
performed.” (1975:08)
Faz-se apelo
às circunstâncias que poderia ser acusado de ser, de outra forma, uma redução
às circunstâncias, o que não creio ser, digo, uma redução exatamente por não
inferir qualquer dimensão a respeito da verdade ou da falsidade de uma
sentença. O que fazer com questões de ordem moral, com a mentira? Austin
recomenda que se preste atenção à marca de
que “acurácia e moralidade, ambas são compreendidas na frase que afirma
que our word is our bond – nossa
palavra é o nosso vínculo”. Mesmo que por via de uma promessa feita de má-fé
que é, todavia, uma promessa, uma jura. Eu juro. E daqui já se vê que é preciso
muito pouco para fazer por via das palavras – e que neste nível os critérios de
verdade e falsidade não se aplicam melhor às sentenças do que em algo como um
movimento em falso.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Sparring forçado acerca da doença moral.
“Confesso
que não entendo bem. Li quando era mais novo numa edição daquelas que levamos a
sério porque parecem feitas no escuro, às escondidas enquanto as tropas passam
na rua. Quando comprei já estava cheia de vincos.”
“Você
sempre fala um negócio horroroso nessas horas.”
“É.
Estou tentando lembrar como foi que eu escrevi sobre o livro. Algo do tipo:
capa em vinho com um projeto gráfico apressado feito por quem queria gritar ao
invés de desenhar.”
“Sério?”
“E
li aquilo que parecia uma daquelas traduções de urgência, um plano secreto...
com 3 mil exemplares impressos. Esse tipo de segredo posto a público.”
“Se
quiser esconder um segredo, revele a verdade? É sério que estamos falando sobre
isso?”
“E
aí tinha aquela história sobre revelar a potência do corpo quando da doença.”
“Olha.
Não acho que é a melhor hora.”
“Dá
pra conversar feito gente ou vai ficar me censurando? Incrível!”
“...”
“Porque
gosto da idéia. Nem me lembro de quem é o livro...”
“Nietzsche.
Ecce Homo.”
“Não
importa. Não importa quem era. Aliás, a única coisa lúcida que este sujeito fez
foi abraçar o cavalo açoitado antes de simplesmente vegetar. Mas eu acho que
isso começa a fazer algum sentido pra mim, digo, só haver saúde na doença.
Porque algumas coisas ficam mais urgentes quando se está aqui, sem urgência
alguma. Tempo tirado da caixa d’água a golpes de colher de café. E nisso, de
comer e dormir, eu fico suscetível. Desde sempre. Uma camada da pele evapora e
tudo começa a transitar, não importa a distância, tudo fica mais sensível.
Ficar doente sempre me transformou num pervertido moral e começo a acreditar
que a perversão é a evaporação de uma camada da pele. Tudo dói mais, tudo
reverbera e transborda. Ficar doente tira dois palmos de altura da borda da
piscina, sabe? Não tem mais certo e errado com clareza porque entra tudo, de
perto e de longe, e sai tudo. Vulnerável e insaciável podem ser postos no
dicionário de sinônimos. Sempre arrisquei delirar em febre por causa de um
toque a mais. Cada micro-orifício da pele é um foco de dor e uma zona erógena.
É o que a evaporação de uma camada da pele faz e é ela que precisamos
restabelecer quando a doença vai embora. Senão viramos doentes morais querendo
tocar a tudo e a todos com tudo o que temos, exatamente como quando da doença.”
“Gênio.
Você é simplesmente genial.”
“Sei
que isso não é assim, diabos. Sei que não é assim e que não é real, que a pele
não evapora. Mas a figura faz sentido, digo, que doente o corpo fica permeável.
Fico imaginando a hora da morte, especialmente de uma morte violenta como o
corpo deve ficar poderoso antes de se desfazer imediatamente. Deve ficar
calcinado pelo próprio vapor que libera.”
“Vou
procurar um cavalo pra você.”
“Vá
se foder.”
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Refrator de Curvelo (na foto do perfilado, restos da reunião dos Menos que Um)
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Resumo da ópera
Estou de ressaca. Há dias que sinto a maré
abaixo
muito abaixo do que a lua manda e
percebo que, por fim, desobedeço
e faço o contrário.
Estou de ressaca e nem marola
formo, não molho mais que uma pequena faixa
de areia
e a lua não tira de mim a fonte escura,
a turva d'água parada que inventou-se em desfazer.
Pois, Lua, é meio-dia
quando o todo da sombra sou eu.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Pelo ladrão, e saiu
Dois dedos, e parece ser uma dose.
A sete palmos seria o fim. Em nove meses se trata de um começo; conturbado, desabrido e equivocado.
Em quatro tempos, resolvido. Noves fora, nada.
Ao fundo, na mesma sala há quem
grite ser uma imposição, um sistema de regras, um modelo imposto, uma chave
repressiva. Sigo com giz no rosto e nos cueiros dizendo algo sobre a arte
combinatória, sobre a dificuldade de lembrar e digo que, assim como insistiu
Johnathan Franzen, a memória é a forma do esquecimento e, por isso, é o que
resta. O bigode roça nos lábios e narina, vívido e teimoso, corroendo a fala,
como que por um filtro. Há insistência, ao fundo, de que é uma regra, a numeração
imposta, o jogo de medidas. Pelo visto, não combinamos desde o começo das
aulas. A coisa não anda, ele não vem, eu não prossigo. Cansado de magistério,
azedume do tempo, nove anos. Nada.
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Refrator de Curvelo (na foto do perfilado, restos da reunião dos Menos que Um)
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17:17
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sexta-feira, 16 de março de 2012
Hiléia:Altamira, Gimpel, o bobo
Dentro dos meus
poderes. Soa à clausura, ainda que eu estivesse em plena viagem, solto por aí,
sendo que para onde eu apontasse fosse Belém eu estaria preso. Mas não é clausura. É o corpo. As
ruas vazias do caminho de volta, desde o almoço com Alípio mostraram a
quantidade desmedida de mangueiras, todas igualmente enormes que ornam a região
central da cidade. Não por acaso, ao tentar contar uma história qualquer para um
ou outro conhecido que já esteve nesta paisagem, uma história que exija
reconhecer um endereço mais preciso, o chiste demanda saber se “é perto de uma
mangueira”. Para todos os lados.
Tricotar entre
ruas, em especial entre a avenida Nazaré e a rua José Malcher, com ambas
simplesmente evacuadas surtiu o efeito de me mostrar raízes, tendo as travessas
o efeito de me espalharem pela cidade possível, pondo algo de mim em circulação
viva. Caso morto com estocadas descuidadas, escorreria em sangue pela corrente
sangüínea logo na primeira chuva, coisa que não demoraria a acontecer; uma das
duas, eu imaginei, ou ambas. O terreno da violência de Belém cultivado nos meus
ouvidos desde muito antes, desde um certo atraso em vir, desde tudo o que li, e
as cautelas que tanto preparam meus passeios, por fim não serviram de outra
coisa senão para criar impulsos diferentes, futuros diferentes permeando as
rotas e os encontros, raríssimos, que vieram a acontecer. Afinal, lá estava eu,
lá estavam as ruas, lá estava o deserto de mangueiras e rotas ornamentadas por
edifícios postos para pregar peças, assustar e esconderem-se de todos. Mais
ninguém, e eu, com a mente vazia, e a casa do diabo. E lá estava, fantasiando
minhas mortes possíveis; e começando a gostar da vida paraense e a morte que
ela trazia engarrafada como um gênio maligno.
Como cheguei até Belém de avião, e
como tenho medo de voar ainda que tenha certa delícia por altitude, carreguei
comigo minha vasta coleção de livros imperfeitos. Uma mochila deles que, não
tardou, deixei numa casa delicadamente erguida no final do arco-íris. Nesta
mochila arquivei meu estoque de leituras que teriam efeito profilático em
momentos de crise – que foram vários. Assim, meus livros de René Girard, Juan
Rulfo, Stanley Cavell, Eduardo Galvão e Alasdair MaCyntire me pesavam nos
ombros a cada chamada de um portão de embarque lembrando ser esta uma viagem
repleta de tarefas, algumas delas pouco confessáveis. Parte destas tarefas
estava devidamente sinalizada pela presença, sempre heterodoxa de A morte de Matusalém de Isaac Bashvis
Singer, escritor iídiche novayorkino com quem passei a travar longas jornadas
de conversa e simpatia, jornadas também divididas com Amós Oz e Elias Canetti.
Por toda uma zona que preza o artifício das línguas secretas, gosto de
imaginar, à moda da imaginação adoentada, que ando meio judeu e, por não sê-lo
sei, nos apertos de mão e símbolos dispostos na lapela, que não estou sozinho.
A leitura dos contos de Bashevis
Singer cumpria a função de toda leitura trágica ou teologicamente informada que
sempre ponho no colo a cada vôo em que me sento. Uma vez dentro de um avião
desejo, para fins de refreio de um ou outro faniquito, que a viagem seja a
última e que ela termine na queda e na explosão que antevejo a cada vez que
lembro ser minha hora de voar. Entendo que o medo seja em grande parte
carregado pela antecipação de algo que, por ser contingente não pode ser
antecipado. Este hiato me arremessa em uma zona infinitesimal em que o
adiamento do infortúnio, do fim tantas vezes temido, transforma-se num castigo
eterno, as tripas devoradas por abutres, corvos e urubus. Para sempre; a
eternidade na antecipação de uma mente pobre. O mal que se busca evitar não
chega jamais, até porque vir pode não ser de seu domínio. O que entendi é que
para evitar o abismo, para contorná-lo me é imperativo desejá-lo enquanto for o
momento de sua irrupção. Não esperar que venha, mas desejar que venha. A fenda
na terra me fará saltar, diria aqui se fosse um profeta pregando no deserto.
Voltei ao hostel na eminência de
chuva forte (diria iminência, mas eminência talvez faça mais sentido) que, por força do hábito me faria parar. Não parei. Travei
conferência longa sobre destinos possíveis, novos rumos cujo passeio me levou
ao que acontece em crônicas ruins: detalhes pitorescos do aparelho urbano e
chuva. Muita chuva. Domingo interrompido.
Alguém bate à
porta. Por alguma razão, todos os contos de Bashevis Singer parecem começar
assim. É assim que os ordeno, é assim que me lembro deles, é assim que eles não
são. Alguém bate à porta. Porque está escuro, porque é noite, porque é inverno,
porque há um incêndio, porque se está a amar. E então, alguém bate à porta – em
geral é o diabo. No quarto sem janelas que já trazia marcas de acolhimento,
comecei a pensar na porta. Sem janelas, uma porta. Ninguém jamais bateria
àquela porta. Fechei o volume que lia, um conto em que alguém chegava até uma
outra pessoa, batendo à porta mais uma vez. Não sei, na verdade. É como me
lembro. Choveu de novo, mas com ímpeto e energia que só vi se repetir duas ou
três vezes no percurso que viria a fazer. Dois dias depois, fiz o mesmo caminho,
do quarto, subindo a escada apertada até a recepção, de forma a me espalhar na
sala de TV. Choveu a mesma chuva que, impetuosa e indiscreta fez parar tudo. Na
verdade, é difícil descrever um momento como esse. Uma tempestade amazônica tem
uma marca indiscutível. Não é que não chova forte, de forma definitiva na
cidade de Campinas. Perdem-se muros, árvores e calçamentos a cada vez que o céu
pratica sua violência. Mas, ao exemplo dos passarinhos, a chuva, lá e cá, não são
as mesmas. Em casa, gotas finas, de voz aguda, em meio a trovões esganiçados e
repetitivos. Histeria destrutiva, pressa. Enquanto subia para ouvir a chuva no
salão, e esta sensação se repetiu em cada oportunidade, o grave predominava
como tom, e os golpes de vento eram feitos a punho cerrado, encerrando a
questão. Os trovões não vinham em berro, mas em rumor. Tudo sob controle da
chuva, enquanto o resto de nós, ou escondidos, ou escorrendo pelas travessas
encarnadas.
Obviamente que me peguei pensando. O
momento patético do viajante literário que, pensativo e atrapalhado, olha para
o teto, reflete e disserta. Ridículo. Escrevi em meu caderno verde:
Tem
que ver. Há uma leitura de que gosto muito – e escrevo sobre esta leitura debaixo
da pior tempestade que já vi em território amazônico. E por isso mesmo que me
veio à memória. Afinal, aqui, nada mais improvável do que qualquer coisa que
Isaac Bashevis Singer tenha escrito. Gimpel, o bobo seria devorado e morto, ou
simplesmente apodrecido. O velho manco aficcionado pela prosa do narrador, e
que condena com frieza toda a poesia do mundo por causa da amizade
não-contraditória que pôde nutrir com o nazismo; bom, ninguém pediria
autógrafos tendo que atravessar uma chuva dessas, os livros ficariam molhados e
se entregariam ao bolor da umidade posta ao sol abafado; seria um velhinho
assaltado, como temia Alípio em nosso almoço; não seria. O que quero dizer é
que Bashevis Singer faria suas personagens desistirem, lesos e inchados pelo calor, desesperados ou sonolentos para
aventarem qualquer cotejo ao Torah. E com isto não quero dizer que Belém é uma
cidade particularmente cruel em um corte patológico. O que digo é que não há
nada para uma personagem de Bashevis Singer fazer por aqui e que, talvez o
melhor que fizessem fosse retornar à Val-de-Cães e, então, para a enorme casa
internacional da geopolítica judia. Nesta chuva, uma coisa é certa. Nesta
chuva, ninguém lê. Nesta chuva o diabo
não bate à porta.
terça-feira, 13 de março de 2012
Hiléia:Altamira, ambos os três
Não creio que eu
tenha conseguido esconder minha decepção um minuto sequer. Obviamente que
Codorna fez o esforço gentil em dissimular, vindo a reconhecer alguma mesmice
nos dias somente no fim da jornada, quando ainda estava doente. Sabendo que
posso compreender perfeitamente tudo o que se passou, como pude, aqui mesmo
dizer todas as coisas que competiram para o entrave, os dias repetidos de
caminhada solitária não poderiam esconder outra coisa senão a impaciência de
esperar. No afã de repetir no entusiasmo patético a máxima de uma viagem com
fins de “dar uma força para um amigo da FUNAI”, o tempo conta num regressivo de
segundos divididos ao meio em progressão aritmética em que, sabendo ter cada
vez menos tempo, os segundos que passam são cada vez menores sendo ainda sim um
segundo, e só. Saber que o andamento dos dias não respeita nenhum sentido
métrico justo e regular não permite que da abdicação dos planos advenha
necessariamente a alegria. Antecipação do malogro, é bom saber, não é malogro
algum. Se por acaso fui até Altamira respondendo ao apelo de um amigo não é por
ser nominalmente convocado, ainda que possa ou tenha dito que sim.
Não o lançou sequer aos amigos que tem. Nos
convocou a todos, na margem aberta de qualquer folheto de anúncio jogado ao chão. escreveu para qualquer um, pedindo aos amigos que, à moda antiga espalhassem a notícia.
O que fez foi, no limite, assinar um cheque e eu, tolo vi na fortuna numerada
um bilhete de amor assinado. Não tenho qualquer autoridade para demandar
condecorações e festividades pelo simples fato de me mover, como faço com
minhas caminhadas, e não poderia esperar uma ação militar de combate pelo
simples fato de me condoer da situação de Cordorna, meu amigo que trabalha na
FUNAI. A responsabilidade de viver esta viagem na clave da tragédia é minha. A
grandiloqüência fez de mim um pregador de rua, um pastor sem fiéis num comício
nu; o jogo de cena então, digno de pena. Desde que cheguei em Altamira vi o
ponteiro da trama me acelerar, dizendo que os 50 anos futuros, a próxima geração
inteira, seriam vividos em 2 ou 3 horas e, lamentavelmente, não havia
contracena. Não poderia conversar com alguém aqui ao lado em meio à simulação
da voz que, sussurrada deveria ser ouvida na última fileira de cadeiras.
Definitivamente, uma personagem em busca de uma peça que, como que por
conspiração, não será escrita.
No caso de eu
acusar alguém de ser meu amigo, e por causa disso me comprometo com isso – por
ter chamado de amigo, significa que me considero seu amigo também -, nada
permite dizer que se trata de uma situação simétrica, ou mesmo harmônica, e
certamente não é exclusiva. Entenda-se a trajetória de três estudantes de piano
clássico, brilhantes o suficiente para se recluirem no Sitftung Mozarteum de
Salzburg, que narra uma relação em degraus: um segue a sina de ser um gênio do
piano que, no auge de sua carreira, abdica das apresentações em público e em
estúdio, isolado grava suas performances mais brilhantes; um segundo admite a
mediocridade e, medíocre, contenta-se em redigir uma novela de fôlego curto
sobre ter parado ao meio do caminho entre o gênio e o fim; um terceiro entra em
desespero porque, imune à resignação recorre a um suicídio abrupto e narcisista
atingindo aquilo que, aparentemente seria um naufrágio. As coisas não são
feitas à dois porque, quando enfim sós, versa-se sobre o esconderijo. Há sempre
mais alguém na espreita.
Saí
do apartamento de Codorna. Só. Nesta altura, Altamira não era exatamente um
mistério. O apanhado aleatório de ruas que definem uma cidade que não conhecia
tinha mais do que pontos cardeais, alguma história devidamente guardada. No
bolso, anotada num caderno verde.
Minha
impaciência por deixarmos o tempo passar lentamente por grande parte do dia já estava
relativamente amortecida pela compreensão forçosa de reconhecer na enfermidade
e numa paixão igualmente repentina a recomposição do triângulo obrigatório de
uma relação, de qualquer relação, o que
afirma que, obrigatoriamente, um casamento é um triângulo amoroso. À repetição dos dias anteriores fui passear.
Por mais que eu tente sugerir algo mais atento do que um passeio, não fiz senão
isto. Atento, indignado, grandiloqüente. Passeio. Saí com a mochila nas costas
repetindo o mesmo trajeto que leva à orla de Altamira, de onde se assiste à
eterna passagem do Xingu lembrando que os trens são muito curtos. Da rua sem
nome de onde parti, onde Codorna mora, dobrava à esquerda na travessa Pedro
Gomes. Acenava aos proprietários, tanto da loja de ferragens quanto do prédio
onde estava abrigado, de uma só vez. São as mesmas pessoas, o mesmo casal.
Segui para o cruzamento com a avenida Djalma Dutra, sempre atento a cada
cruzamento para o que Codorna chamou de “mão chinesa”, cujo sentido não é
difícil de abstrair porque não há regras para se atravessar a rua senão seguir
aos poucos, um passo por vez, ocupando espaço e cedendo a extensão anterior até
que, com a devida agilidade se possa atingir um novo território protegido
contra bicicletas, motos e caminhonetes 4x4, a fauna do tráfego regional. Não
há como dizer que o enxame de ferro articulado com gente dentro e ao redor é alguma
novidade. De inédito somente a fluidez da prática constituída
como costume, tradição de não obedecer ou, melhor, de não haver o que ser obedecido. Não há contradição nisso. Aqui, nenhuma. É como a vida e a morte.
_____________________________________________________________________
Não posso deixar
de transparecer o medo infantil que toma conta de cada uma das frases que narro.
Tudo, absolutamente tudo parece errado, ao ponto em que as palavras, redigidas
no mais rigoroso silêncio soam erradas. Não é nada disso, sussurram, é um
engodo, chegando por fim ao veredicto, traidor. Não sinto mais a febre da
viagem, e os sinais da doença que me liquefez na volta já não acometem nenhum
dos episódios anotados no caderno verde. Ainda que a continuação desta redação
seja imperativa não vejo nela nenhuma razão de ser senão o mero prosseguimento.
Mero prosseguimento. Mero prosseguimento. Aqui, mera interrupção porque chove,
sem contradição.
_____________________________________________________________________
Espaço Cultural Francisco Melo. Porque Altamira
tem o que jamais conheci, ainda que saiba ser uma marca dos solos regionais.
Altamira tem um artista da cidade. Este responde pelo nome de Francisco Melo. Melo
é uma figura. E como todas as figuras, obriga a quem lhe vê a decidir por
detalhes e recompor o conjunto. Apontei pára a Bíblia sobre sua mesa,
encadernada em verde. Sugeri ser boa leitura.
“Eu não sou filósofo,
entende? Não sou estudado, não entendo muito essas coisas. Leio porque...
porque tá aqui. Leio, faço minhas notas, entendo, dou um jeito. Mas não sou filósofo.
Eu sento e penso. Mas o que eu queria dizer é que acho que fazemos as coisas de
um jeito meio parecido... do jeito que um vulcão acontece. Porque, no centro da
terra, não é bem no centro... você sabe. Mas tem ferro derretido, incandescente,
que passa por onde der até chegar à superfície. Ele passa entre as fendas das
placas tectônicas, passa por onde é mais fraco. Acho que agimos assim, e
fazemos por onde somos mais fracos.”
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Refrator de Curvelo (na foto do perfilado, restos da reunião dos Menos que Um)
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sexta-feira, 24 de junho de 2011
01 ao pé da página
Gostaria de registrar isto. Isto mesmo. “Isto”. Isto é, antes de qualquer outra coisa, escrito. Na verdade, riscado, desenhado, configurado em pixels e binarismo, mas isto está escrito. Não recomendo literatura, não figura prosa, não culmina em verso. Ao menos não até ser tarde demais. Não está confuso, não é torto, não demanda paciência. Está um passo atrás – e não um passo à frente. Isto não conta com estofo, não fornece grandes linhas porque é pobre, menor, e desavisado. E tropeça. Não se filia, é meio adotado, não encontra linhagem e, ainda assim, não produz inovação ainda que composto num parque tecnológico. Não sendo apologia a Magritte, isto é assim mesmo. Mas ainda assim, tão pouco, tosco e primário, desajusta. Ficamos assim. Pode ser que aconteça, pode ser literatura de ficção, poema, ensaio ou algaravia. Mas o será, caso seja, se for, quando for tarde demais.
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