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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A vida com alarme


Era uma noite fria e escura. Ainda que tivéssemos aquecedor, luz elétrica, fonte regular de energia. Fria e escura. Não era menos noite fria e escura porque não estava, eu, no frio e no escuro. Ou que o frio e o escuro estivessem frequentemente fora de vista, intocados. Fazia frio, eu sabia. Ainda que inerte, encostado no canto do quarto, digitando toda sorte de coisas com vistas em passar o tempo lento das petites chambres, suando ao som das ondas de calor ejetadas de uma máquina seca, não era difícil induzir que algo ainda persistia, o que era o mesmo do que fora há 2, 3 horas atrás. As massas de ar são tão estáveis quanto os notórios limites da minha inteligência que, ainda que acorrentada pelo desinteresse, sabia. Era uma noite fria e escura. Era tudo o que eu poderia saber, tudo o que poderia passar, era tudo. Não era uma noite seca, não o suficiente para que fosse, noite e seca. Não chovia, não ventava, não se movia de si. Nem eu. E assim seguiu até que viesse a manhã que, por uma razão peculiar às longas noites de inverno, permitiu dizer que era um dia frio e escuro. O contágio se dá, às vezes, por inspiração, por um suspiro, por um espirro. E ficamos todos encostados no canto, frios e escuros protegidos pelo calor parado de um quarto pequeno, quente e iluminado. A isto quero chamar de laboratório. E ao resto, a vida de laboratório. Tão imediatamente quanto possível é preciso atentar à marca de que são quartos, quartos de dormir, salas de jantar, quartos, cuja regra básica de conduta está na observância das normas de segurança. Podem pegar fogo, e ninguém quer que isso aconteça. 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Resumo da ópera


Estou de ressaca. Há dias que sinto a maré
abaixo
muito abaixo do que a lua manda e
percebo que, por fim, desobedeço
e faço o contrário. 
Estou de ressaca e nem marola
formo, não molho mais que uma pequena faixa
de areia
e a lua não tira de mim a fonte escura, 
a turva d'água parada que inventou-se em desfazer. 
Pois, Lua, é meio-dia
quando o todo da sombra sou eu. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Notas do Subsolo: Saturno tem anéis e a Terra barangou


NATHAN, Michel. Le ciel des fouriéristes: habitants des étoiles et réincarnations de l’âme. Presses Universitaires de Lyon. Lyon. 1981.

Le ciel devient ainsi la grande banlieue de la terre. » (1981 :10)

[chercher pour Pierre Boitard et ses Études astronomiques, Le Musée des Familles, décembre 1838 a février 1840.]

O exercício historiográfico de Michel Nathan reside na investigação acerca da imaginação que investiga a vida em outros planetas segundo aquilo que se oferece como desdobramento da investigação astronômica, isto é, a mesma investigação que se desdobra da Revolução dos corpos celestes. Este que é um termo retirado do tratado de Nicolau Copérnico tem aqui duplo sentido, proposital, uma vez que é sabido que a revolução científica copernicana, e de aguma forma o mesmo vale para outras figuras científicas como as de Newton e Lavoisier, não tinham qualquer caráter revolucionário, mesmo quando revolução se fazia respeitar como conceito fundamental. Como no caso de Copérnico, vale dizer. Isso porque revolução, como notam bem Koselleck e Cohen, significa a volta completaem seu próprio eixo, uma noção cinemática de ciclo. Nisso, se é mais comum vermos a vulgata de que a terra grirar em torno do sol é aonde encontramos a revolução copernicana, a discussão de Alexandre Koyré sugere uma outra coisa, de que a revolução está, não na novidade do sistema, mas e sua homogeneidade, isto é, de que para além do céu o que se encontra é a regularidade da natureza expressa numa forma homogênea e indiferente do espaço. A revolução dos corpos celestes figura assim como a redenção da concepção unitária da matéria como homogeneidade e assim, como elemento equivalente em todos os níveis do cosmos. Nisso, a regência dos astros produzida na elaboração delicada e milenar da astronomia é desafiada, quando este é de fato o caso, pela concepção mais terrena possível do que são os corpos celestes : composições fisico-químicas diferentes de um mesmo sistema que opera, mesmo que não somente, pelo movimento corpuscular da matéria em suas diversas variações de estado. Não é por acaso que a frase de que o céu se transformou num grande subúrbio da terra é, mais do que acertada, dotada de um senso de humor invejável.
É disso que se trata o livro de Nathan, digo, da correlação entre a revolução da revolução o impacto disso no pensamento utópico de Charles Fourier e seu entorno. Mas por que ler este livro agora ? Porque ele se tornou importante ? Exatamente por causa da notação relativa ao problema da moral política e, mais, sobre a extensão do mundo moralmente relevante que participa da tensão entre o perfeito (Deus) e o perféctil (a espécie humana).  Um parágrafo apenas é suficiente para compreendermos a inclusão mais detida do arsenal fourierista neste apanhado de notas ao mesmo tempo em que procuro entender como é que a partir da figura de Fournier podemos perseguir dois elementos pregnantes na discussão em torno da emergência do espiritismo e sua periculosidade : em primeiro lugar, a dispersão da harmonia como conceito desprovido de debate em diversoso textos, incluindo os de Kardec e os de Renouvier ; em segundo lugar, como é que a homogeneidade do espaço se transforma num pilar importante de desafio à escatologia cristã, especialmente no que diz respeito ao pecado original e a relação entre direito negativo e pastoreio, ou governo das almas. Cito Nathan para termo uma idéia mais precisa :

            « L’Eglise catholique a refusé d’accepter de telles doctrines qui remettaient en cause le récit de la Genèse, la notion de péché originel, interprétaient la Révélation et la Rédempation à la lumière des grandes hérésies, refusaient la pérénnité des séjours en Enfer ou au Paradis. Les théologiens crurent devoir rappeler l’esprit et la lettre des Evangiles. Ils furent contestés de toutes parts au nom d’une tradition antérieure à l’Église romaine, usurpatrice du message de Jésus-Christ. On fit des recherches sur les Druides pour prouver que les Gaulois croyaient en la doctrine de la pluralité des existences de l’âme. On expliqua que cette doctrine était conforme auc grands textes sacrés de l’Orient et de l’Occident, au mosaïsme, au christianisme bien compris. On crut, selon l’expression d’André Pessani qu’était venue « l’heure du second avénement de l’esprit ». L’idée de pluralité des mondes fut si fortement ancrée dans les esprits qu’elle devint sous le Second Empire « idée reçue ». Madame Dambreuse croyait à la transmigration de l’âme dans les étoiles, ce qui « ne l’empêchait pas de tenir sa caisse admirablement. »(1981 :17)
A passagem acima dá outro peso à afirmação de Monroe que define a periculosidade do espiritismo em sua forma de atestar aquilo que é o futuro do espírito por via de investigações empírico-laboratoriais. O desafio que este campo de empreitadas oferece é significativamente maior, dado que oferece um desafio real de um ponto de vista sociológico, a saber, que dispõe um grupo maior de pessoas recombinar os elementos de uma imaginação relativa ao futuro da alma, e com isso alterar aquilo que lhe é próprio como definição. O incômodo causado pela presença destas pessoas no ambiente parisiens, por exemplo, pode ser anotada desde o 12 de dezembro de 1835 no jornal  L’Univers religieux e na edição de 19 de dezembro da Gazette de France do mesmo ano. Os artigos dizem respeito a uma intervenção pública feita por Victor Considerant e sua claque num congresso de história ocorrido no Hôtel de Ville de Paris. Estes são os phalansterianos.
            O expediente que Nathan  utiliza para desenhar o contorno de quem ele entende ser Charles Fourier pode ser condensada na seguinte frase : si nous souffrons, les morts souffrent aussi. Entenda-se. O objeto de dissertação aqui é um intelectual que elege como método o « cálculo analítico e sintético das atrações e repulsões apaixonadas », figura que não parece dever nada, e mesmo antecipa com enorme precisão figuras outra filosofia, como o são os parapsicólogos com relação à parapsicologia, como Alfred Jarry e a voga maquínica que assola parte do pensamento filosófico francês - que descobri quase não existir mais na França que é mais uma vez uma invenção nossa. Isso porque Fourier se atira, seguindo Michel Nathan, no universo do infinitamente grande e o do infinitamente pequeno e que, tecendo relações entre coisas que não se relacionam senão num jogo de escalas que repetem a mesma ordem apaixonada, culminando por fim em desmedida. Até porque, no fim deve haver felicidade e prazer. Nada de ascese acética. La parodie avant la pièce. Isso porque, sigo, não há mais do que um  só assunto e um só tema, e falar de homens, falar do universo é persistir no tema – o que é algo antecipatório com relação a Gabriel Tarde, ainda que eu não queira fazer qualquer esforço de desenhar a angústia da influência na ficção científica sociológica. Falar do homem será falar do infinitamente grande número de coisas e da infinitamente enorme variação de escalas do tempo. O termo para definir a sensação de viver em tamanha multiplicidade de mundos e escalas é, então, vertigem.  O movimento repete o vórtex, o turbilhão descrito pela sabedoria cartesiana ainda que posto numa relação sensual de movimento sexy. A escala de perfeição não segue a descrição do maior para o menor, mas associa os sinais de maturidade com aquilo que é mais saboroso. Assim, na ordem do refinamento do cosmos que distingue os planetas entre si a proporção que há entre os universos púberes com relação aos impúberes é a mesma que há entre o melão e a abóbora[1]. O sabor, o odor e todas as formas de relação que produzem atração são mobilizadas por um jargão militar que descreve o movimento de penetração e contaminação dos corpos entre si produzindo um regime de afeção que repete, ainda que num jargão que aponta para a fruição, o movimento corpuscular que atende por fim a uma dimensão sensual exuberante.
            Saturno é assim o protótipo daquilo que a Terra, e os demais planetas do sistema solar deveriam ser. Mas a Terra perdeu seu anél, « signe pubère en l’absence duquel elle ne peut pas créer, car l’absence du signe pubère entraîne suspension de la faculté procréatrice » - segundo Fourier, na edição citada da Anthropos, X volume, página 335.  Assim, complementa Nathan, nosso planeta não sendo mais atraente dado que perdeu seus anéis, perdeu quatro de seus cinco satélites vindo a ficar somente com a Lua, múmia sem graça, chama branda, astro inabitável que não distribui nem calor, tampouco aroma. Com a finalidade de corrigir esta falta de cuidado, Fourier se propõe um higienista do cosmos vindo a propor que a vida social regenere a vida cósmica voltando a respeitar aquilo que lhe é própria, modelando a harmonia social a partir da harmonia das esferas, agindo de acordo com Deus que lhe incita a participar da criação.



[1] As considerações relativas à harmonia do cosmos são retiradas prioritariamente de Le Nouveau Monde Amoureux, pubicado postumamente.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Nous, les européenes.

Tantas histórias,
e viragens
mais o que tenho contado, caso pensado,
sobre a França
está nos livros. Mesmo quando alguém me diz.
O que é engraçado, porque, pelo visto,
e pelo lido,
mal saí de casa.
Leitura cara, essa.

O resto é muito interessante.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Minhas Cosmicômicas Parte 2

Steps to an ecology of mind



(parte 2) “The universe, message-plus-referent, is given pattern or form – in the Shakespeares sense, the universe is informed by the message; and the form of which we are speaking is not in the message nor is it in the referent. It is a correspondence between message and referent.” (Cybernetic explanation, pg. 408 de Steps to an ecology of mind, edição de bolso).

Obviamente que os sentidos de universo, informação e forma tem um peso particular nas passagens que Bateson de fato faz menção. E seriam termos vazios se não tivessem apontado os meios pelos quais o escopo da totalidade, ou a parte que o todo compõe de forma que estejamos falando de uma pesquisa possível, um ponto de partida que coadune empiria e um princípio teórico em uma das ciências da vida: a antropologia. Ora, é na introdução do livrinho que urge ser traduzido que lemos, e aqui eu traduzo, o seguinte:





A ênfase está nas mediações e nos mediadores (ainda que distinga seus modos de planejamento dos de apresentação), embora a informação nunca seja simplesmente transferida, uma vez que paga pelo seu transporte com um pesado imposto em transformações, mesmo quando mantém uma constante no caso das ciências em ação.”

No que pesa na dimensão crucial da correspondência como conceito de harmonia, que encontra um eco na poesia simbolista nunca investigado com ênfase, a primeira anotação a ser inscrita é que os mediadores, ou a mediação são/é a correspondência entre mensagem e referência. Dito isto, mantenho alguma distância, pois o que é alvo primário de preocupação é a noção de que “o universo é informado pela mensagem” no qual a informação e conhecimento têm estabelecido a seguinte relação: conhecimento é a informação que ocorre quando a informação tem como correspondência, entre mensagem e referente, a referência e o contexto no qual ambos operam correspondentes, ou em correspondência. Em outras palavras, num conversê cibernético em que constem os termos de retroalimentação e estocase. E aqui a cibernética começa a oferecer as bases da explicação. É o que afirma Bateson, meu primeiro passo para chegar até Charles Beaudelaire.

(acuma?)