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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Para falar em público

Sentado à margem do rio, perguntou-se sobre a possibilidade de o mesmo ser, como à moda dos geômetras, um poliedro. Porque, no traço, o octaedro deixa-se contar com as maquinações dos números em se encerrar por definição num oito que, apesar dos jogos ideogramáticos, em nada se assemelha com o infinito. Está lá, inteiro e auto-contido nas retas que lhe traçam o perfil. Não é um mapa, mas sua identidade.

Na beira, uma grama verde e curta, moldada pelo artifício de um qualquer que lhe dá a tosa. Não grande coisa, deixava-se correr pela imposição da inclinação do terreno até seu vir a ser: mar, represa, outro rio, quem sabe. Disposto no exercício da ignorância percebeu que não importando o grau de abstração e o esforço intelectivo, era preciso reconhecer: apesar das margens, um rio sempre sugere ter mais do que os parcos dois lados divulgados pela propaganda do governo; o governo seu e o dos outros. Não fosse assim, pontes e afogamentos, patos e peixes seriam, via de regra, proibidos.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Assim, assim; fazer, fazer.

Feito uma sanfona, feito para respirar, é também uma caixa de ressonância. Se a alma se movimenta, se é o caso de gritar, o movimento que a caixa movimenta pode, seguindo o apelo adequado, provocar os demais e mover os pulmões alheios. E daí, os movimentos seguem a torto e a direito, ressoando o mesmo movimento que, como seria possível deduzir, desemboca em movimentos outros. Há quem chame isso de fazer-fazer o que é uma redundância clara, útil e preciosa. Fazer alguém fazer desdobrando-se em outras coisas – e eu aqui, sonado, procurando alternativas entre discutir o ridículo e o trágico; não sei se aristofano ou se esquilo. Poderia fazer os dois, já diria o mendigo de Bashevis Singer, sem cometer contradição alguma.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Até lá (so long);

De vez em quando, em geral entre as 6 da manhã e a meia-noite, eu fico fora de mim. Ou melhor, como diria meu tio, eu fico “fora-de-si”. E aí, escrevo o que não devo. Em geral, qualquer coisa. Deveria ser proibido de escrever qualquer coisa. Nunca chego a lugar algum, e quando chego, não interessa – o que pode ser bom. Não chegar onde se espera pode ser, por fim, uma boa idéia. Como, por exemplo, na eleição de mil e uma figuras geniais que proporcionam ao fiel a mais completa versão dos fatos ou, se tanto, uma versão do algo mais, do je ne sais quoi mais abrangente e, quando elege as razões críticas, quando tece acusações ao que não lhe serve, queima a mesma borracha que o acusado veio queimar. Dá para afirmar que a qualidade do que se diz é medida pela qualidade da acusação que se produz. É então que chego ao assunto sobre o qual é melhor calar. E escrevo sobre política. E mais, o universo de suas demandas.
E então vejo que estamos acostumados a pedir o que queremos. Pedimos como num oratório, mas o fazemos a pessoas que andam de carro, comem comida e estão afastados de nós a meia dúzia de paredes e duas dúzias de seguranças. Tratamos impostos como oferendas e pedimos que o mesmo jogo, o do retorno providencial seja cumprido e, neste ínterim, me pergunto: e se anularmos o atravessador, especialmente quando for conveniente?
Não há dúvida de que, não importando o gestor do Estado, a manutenção e aprimoramento da educação pública não deixarão de ser mero instrumento de alegação de apoio. Há muito tempo que o tempo e o espaço da conversa, da leitura dedicada e da atenção aos pormenores deixaram de ter importância no espaço público, vindo a ser praticados somente em reuniões mais ou menos secretas e por amadores. Tampouco é um fato escandaloso que seja assim, pois fazê-lo é verdadeiramente a prática da exceção. As instituições políticas não suportam esse tipo de atividade por muito tempo. Não há razão para susto quando vemos que o que ouvimos em uma campanha eleitoral, especialmente no que diz respeito à política salarial de professores, vem a ser descumprido. É função da campanha eleitoral mentir, especialmente para os grupos sociais mais frágeis e com menor pode de mobilização e impacto. Todavia, se a raiva me tinge o rosto, ao mesmo tempo é difícil dar as mãos com os meramente descontentes.
Lembro muito bem quem foram os primeiros colegas que decidiram pela licenciatura. Dos tardios, aqueles que se viram na sinuca de bico da necessidade de uma profissão em um mundo que detesta o exercício das humanidades – mundo talvez seja algo grave, mas certamente serve quando a escala é “país”; o resto é excesso hermenêutico -, ou seja, os que precisavam de emprego após a formatura, entendo e apóio o fluxo. Mas vejo igualmente o conluio de sanguessugas que, não suficiente terem aderido à preguiça que empola o pensamento humanístico desde a graduação, adentram no universo escolar com a única e exclusiva orientação de seguir carreira. Desisti imediatamente do magistério quando percebi que todos os meus colegas de graduação, aqueles que se dedicavam ao estorvo da vida de estudos e pesquisa mais aguerrida, se transformaram em professores e, em pouquíssimo tempo, administradores escolares. Tanto públicos quanto particulares especializaram-se em promover a miséria humana. Joguei a toalha, desisti sem sequer começar.
De repente vejo que tenho que assumir uma postura estranha, a mesma que me obrigaram a tomar de quando das últimas eleições: Serra ou Dilma? Na verdade, Serra ou Lula. Nunca considerei válida a escolha. Por um lado, ouvia a insânia da acusação do analfabetismo de Lula como razões para desmandos, muitas das vezes repetidos no fosso do governo de FHC, esquecendo que uma vez elevado a governo a alternativa é entre “medíocre” e “catastrófico”. Por outro lado, a acusação da cruzada conservadora e reacionária por via do governo Serra, o mesmo Serra que, tal qual FHC, era acusado de comunismo por toda uma ala igualmente descontente. É neste telefone-sem-fio que é a acusação pública que eu prefiro jogar a toalha e dizer: o que dispunha nas eleições não era de escolha, mas de resignação.
Da forma mais perversa que posso conceber, começamos a digerir algo que nos obrigaram a engolir. A idéia de que a atividade democrática opera por via do voto. Votar, ok. Sufrágio universal, aceito. A perversidade não está aí. O perverso está em transformar no necessário em suficiente. Se o sufrágio universal é condição necessária para o desenvolvimento de uma certa noção de democracia – diria noção incerta de democracia, mas seria acusado de obscurantismo; mais uma vez -, ao mesmo tempo está longe de ser um fator suficiente. E este é o ponto. Quando a dimensão da alternativa política se resume em quem eu posso votar, então fica mais visível dizer absurdos como “A CULPA É DO SISTEMA”. À Luhmann, diria que sofremos de legitimação pelo procedimento. Assim como é inaceitável ter passado pela última eleição como um eleitor satisfeito, e não como cidadão pleno que vê como ação legítima recusar os candidatos que os partidos eleitorais fornecem em suas listas, é inaceitável entender que no braço de ferro entre professores e governo, eu devo torcer de forma explícita por um dos lados. “Mas aí, você enfraquece o movimento.” Qual movimento? Não há movimento. Há queixa protocolada.
Movimento seria um processo de demissão em massa. Seria a abertura de escolas comunitárias que, por oferecer educação gratuita lutariam por isenção fiscal parcial para a lista de colaboradores. Movimento seria recusar o tempo estrutural do Estado com vistas em um tempo relativo à vida de quem a vive, estabelecendo diretrizes imediatas à prática pedagógica. Movimento seria tomar as rédeas dos poderes que temos e reorganizar as coisas com coragem suficiente para mudar de jogo, assumindo o risco de que podemos – ou de que será possível – perder e, talvez, fazer o que for contando com isto, a parte maldita, a perda.
Assim posto, o que posso dizer é: até lá.

domingo, 21 de agosto de 2011

Da Civilidade Pueril

- Não ter relógio para me obrigar a me interessar por quem passa, ao menos o suficiente para perguntar as horas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Flutuação, inércia e atrito zero: em quê concorda o dissenso







Sempre leio que a população indígena brasileira está morrendo, informação esta que é agravada com uma taxa de mortalidade infantil acrescida de mais de 500%. Já li que são as reservas que empobrecem e expulsam índios que já não são tanto. Li também que somos nós que os impedimos que o sejam. Índios. Trata-se do desenrolar da história do capital, trata-se do atravanco da mesma por parte da tradição caduca e romântica. Para estes, que nunca fuçaram os assuntos indígenas, salvo quando o tema é economia nacional, recomendo o silêncio. Mestres em dizer que há índios que já não são índios, parecem muito seguros em formular proposições baseados em nada, ou pior, em muito pouca coisa. Índio que veste roupa e come enlatado já não é índio. Daí, a pergunta: diante de qual tribunal essa fórmula pode ser defendida? Quem foi chamado para depôr? E, num só golpe, quase todos os indígenas mexicanos, bolivianos, peruanos, argentinos e, surpresa, brasileiros, por razões diferentes, deixam de existir. Numa só canetada, permitindo que quem quer que tenha assinado a carta de extinção passeie só, liberal e auto-definido em sua autonomia de consciência. E isto tem nome. Chama-se Reynaldo Azevedo – ou José de Alencar, cuja profundidade da ressonância poderia ir mais além. De outro lado, a figura do índio nu e entregue aos meios naturais demanda esforços nada desprezíveis para serem encontrados fora desta definição, que só preza por ela mesma. A morte das crianças está indissociavelmente conectada à destruição de reservas, sem que possamos definir que esta conexão não é exatamente adequada. A história indígena no país – daqueles que, de quando do genocídio, extermínio e exclusão foram índios por bem; e que para fins administrativos se transformam, à base da canetada, em coisa diversa como “campesino”, “favelado”, ect. – parece não ter lugar que seja seu. Nem o passado escravocrata criou um legado tão perverso quanto este, a de que o lugar institucional, e por isso histórico, de um enorme coletivo de pessoas, é o de ser o que já não é, não foi e não será jamais. Nem em nome de sua defesa. Índio fora da floresta é excluído, injustiçado, etc.. E este é o blog do Sakamoto – ou José de Alencar, cuja profundidade da ressonância poderia ir mais além. Invariavelmente, a noção de existência autônoma, e a elaboração de que índio é o que for, mesmo que não, não tem sequer valor cognitivo para o debate público. Sequer os mortos são tratados assim. Pergunte aos argentinos. Até porque, índio morto - ainda que assassinado - é antes índio do que morto ou assassinado.












Há quem diga que a foto que ilustra este desagravo é sem graça, ocidentalizada, e pouco representativa da diferença para a qual tento apontar. Já eu diria que uma reação como essa, comum e repetida, não é nada além de uma versão de C.Q.D.. Há quem diga que a diferença só importa quando ela é intolerável, ou quase isso. Pois bem. Intolerável parece ser a idéia de que alguém possa estar tão perto e, ainda assim, tão longe quanto uma kaingang estudando vestindo um suéter, tão parecida com uma colega de sala que tive na graduação e, ainda assim, não. Não o suficiente. E um abismo de alguns centímetros se abre que, ainda que à primeira vista indique uma diferença de grau, após a zona do infinitesimal, sugere ser uma diferença de natureza.












Uma kaingang, de suéter, soa à traição.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Via de mão única

"Ficou combinado que minha mãe me guardaria os sacos que serviam para embrulhar os cereais que ela comprava. Ah! com que entusiasmo, voltando para casa, à noite, eu explorava esses tesouros dados como restos de discursos, como fragmentos de anais! E com que irritação chegava ao final da página rasgada sem prosseguir a narrativa, que nunca continuava na entrega seguinte que minha mãe me fazia em forma de sacos ou canudos, embora lhe tivesse recomendado para trazer as lentilhas sempre do mesmo comerciante."









retirado de "A Noite dos Proletários - arquivo do sonho operário", de Jacques Ranciére, no capítulo em que disserta sobre a descoberta da leitura por quem não deveria, ou não poderia, por via de embrulhos de jornais (Goscinny & Uderzo escreveram que os peixeiros foram os primeiros advinhos ao lerem, não nas tripas, mas nas embalagens de jornal, as novas do cosmos) ou maiêuticas de mão única.

Com a mãe.





Ranciére recupera histórias de mães que não sabem ler e que, ainda assim, ensinam seus filhos a dar seus primeiros passos na República - ensinamentos da mãe claudicante. Proposta de um esforço fora do sério, e que sabe, quando sabe evadir, promove uma ou duas mil pequenas reviravoltas na vida de alguém.





Rompido o cordão umbilical do tipo romance, encaixado em versos do bom e velho Miguel Torga, o mesmo narra já em Coimbra, em 3 de stembro de 1941, um determinado envio. Correio.

"Carta de minha Mãe./quando já nenhum Proust sabe mais enredos,/ a sua letra vem/ a tremer-lhe nos dedos.// - "Filho".../ E o que a seguir se lê/ É de tal pureza e de tal brilho,/ que até da minha escuridão se vê."

sábado, 12 de março de 2011

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ficção ilegal sobre a Sigla do Arco-Íris

Há tempos em que se chamaria encruzilhada. Hoje moral, já foi coisa de caminhada, com traços de outras rodas que não a do mascate que lhe lançou uma maldição fraca, das de brochar por uma ou duas noites, ou de sangrar nas vestes um sangue ruim. Antes ainda, ou ao mesmo tempo e depois, ouve de cruzar dois paus com vistas na santificação e, após algum período de convenção, multiplicação. Mas hoje, encruzilhada moral.

Gosto de pensar no casamento. Até porque, sói aos casados. Mas não assim. Penso na diligência diante do erro e das coisas que se pode fazer quando da contingência – e como há coisas demais a reconhecer. Pense-se em algo a recriminar. Algo a aprovar. Daí, ao constituir o crime e a boa conduta, fazê-la valer como ordem. Nada mais impossível do que isto em tempos de então, essa onda que não passa. Vale adiantar essa conversa, pois tem a vê, embora eu não saiba como, com o reductio ad absurdum do nacionalismo, esta forma de confundir mapa e território.

Então seguimos com a forma. Há criminosos. Há os de-bem. Não basta, e não se vive assim, não mais. Há o permitido, há o proibido e há a reserva. E aí, assim como houve de eu escrever sobre os pepinos, há a reserva. E nisto, começo a revelar que esta mensagem é uma confissão.

Não sou homossexual, ergo não apoio o modo de vida. Apoiasse, praticaria.

Entendamos esta afirmação.

Não quero viver com intimidade demais. Exijo certa distância e trato formal, na maior parte dos casos. Vivo por via dos graus de separação e entendo isso como atividade de guerrilha. O casamento em que me entendo é assim, uma marcação de distância ainda na intimidade. Há coisas que não quero saber e, assim, não faço questão que saibam. Não é assim com todos de forma homogênea, mas na desigualdade da distribuição de cada uma das culturas à qual tanto se referiu Eric Wolf. Assim, homens e mulheres, diferentemente, e por perto. Maior intimidade às mulheres. E assim me sinto vivo.

Mas o que faz com que eu não legisle em favor disso? Não tem nada a ver com apoio a uma causa, uma bandeira, um desejo de maioria como a que se manifesta por todos os cantos. O que está em questão é outra coisa. Por quê eu não legislo em meu favor e abro meu peito com uma pintura em favor ao casamento heterossexual e contrário ao homossexual – sem jamais defender que homossexualismo seria crime?

Não que eu goste de Jean Willys, mas há coisas em que há de se ter razão. O casamento como marca reguladora do sexo consentido é coisa séria, e diz respeito a outra coisa que não a bimbada dada no dark room de uma rave. Diante da igreja católica apostólica romana, ao menos na única cerimônia que gostei, o casal casa firmando acordo com a comunidade, dispondo o casal às regras do entorno, que são de ordem moral e, por isso de censura a uma variação respeitável de condutas; sexuais inclusive. E isto, em tese, inviabiliza o casamento civil no qual constam dizeres muito mais sutis do que a união fatal – ainda que a inspiração carregue tanto a cerimônia morna quanto o envolvimento do casal. Mas o movimento tem dois lados. O casamento civil é pautado pelo desejo manifesto de casar ao mesmo tempo em que não assume compromisso com o desejo extra-conjugal, ou qualquer outra regulagem da vida exterior ao desejo de residir e dividir os bens de cada um. Não há dote. Há o que há e só, ainda que nada. E isto é importante, pois não há legislação sobre a atividade sexual de qualquer – salvo quando da violação do corpo alheio. Assim, homossexualismo não é, e não pode ser proibido, exatamente como qualquer aventura nas ancas da vizinha.

Mas como a disputa parlamentar deste ano quer demonstrar, e aí Jean Willys é um papel de tornassol tagarela, a união civil homossexual também não é legal no que diz respeito aos direitos econômicos, aqueles mesmos que não impedem que um homossexual seja contribuinte. Ora, se o Estado na forma da lei não discrimina a vida sexual de alguém enquanto contribuinte – e esta é uma das formas em que se pode identificar que o homossexualismo não é encarado como crime -, o mesmo Estado ao estabelecer critérios assim diferenciais de dedução de impostos não reconhece o suporte e arrimo financeiro em caso de união homossexual. E aí a coisa se mostra como a única face perene da noção de cidadão de segunda classe, mascaradas pela parafernália tosca da retórica de Jair Bolsonaro que não tem coragem de dizer palavra pela ilegalidade do homossexualismo, coisa que ele não quer.

O impedimento do pleno reconhecimento dos direitos econômicos de todos os cidadãos no Brasil de 2011 tem sua face mais expressiva – e exatamente por isso, é uma careta – na lógica da reserva que impede que sequer seja formulado um projeto de lei que tornasse ilegal o exercício da orientação homossexual. São contabilizados os possíveis contribuintes e a parcela da População Economicamente Ativa, oferecendo o resultado de um país inviável em todos o sentidos no caso de um projeto desses vir à luz. Nisto, então, é melhor não mexer. E mais. Fazê-lo seria invalidar os princípios do casamento civil e, por conseguinte, levar de volta às mãos da igreja a legislação da vida sexual. E a pergunta que não quer calar, ao menos aqui... na verdade ela está quietinha, mas eu quero escrevê-la, é: qual igreja vai controlar a ordem matrimonial? Mas isto também não importa. O que importa é que o regime de casamento, os termos de adesão de contrato, legisla sobre o direito econômico que, por sua vez não pode legislar sobre a vida sexual do cidadão, salvo quando crime e, todavia, o faz ao restringir seu pleno acesso a um grupo significativo de cidadãos. Aponta para a população que é, até então, a da cidadania de reserva – nem plenamente legal, nem plenamente ilegal. E isso é o que não pode ser.

Da minha parte, voto pela legalidade plena de forma que se diminuam as fileiras da polícia secreta do mau-humor.




(mais sobre isso, vide o Aforismo de Merda, na postagem abaixo)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Da série "Aforismos de Merda"

Há muitas idéias, várias das quais não sabemos para quê. Ainda assim, é melhor tê-las, ao menos enquanto um grande monte de mato e ervas receber o nome de reserva.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Critério da Maioria

Há séculos que isto é um problema, em especial quando o conceito de massa saiu das cozinhas para atingir considerações sobre a vida política. Massa, a.k.a. pretume de gente, indistinção da vontade, ação anônima, etc. Há quem tenha entendido que a irresponsabilidade da ação civil, em sua coloração política tenha seu problema aí. Há quem chame de anomia cada ação em que esta força indistinta fala "não", ou pior, “sim”, por aclamação. A questão é sempre: quem?


O problema é revestido por um outro verniz, muito diferente de qualquer indisposição com a ação civil que, por si só não assume esta forma. A ação civil numa sociedade em que é possível a irrupção das massas não tem correlação necessária entre si, digo, entre ação e ação de massa. A massa opera quando se manifesta a ordem catastrófica do critério da maioria, quando a mera contagem de cabeças define, ou faz aceitar as mais estapafúrdias resoluções – ou recusá-las. A maioria quer, portanto é assim que será feito. E é difícil recusar esta marca sem que se pense em tirania – e mais difícil ainda entender que a manifestação da maioria pela maioria é, à sua forma, tirania por si só. E a maioria se manifesta de diferentes formas, a maior parte – olha a maioria - delas confundindo o que tem o apelido de “a voz do povo” com cacofonia histérica de bandeirola. Sem haver quem diz, não há o que ser dito, na era do relativismo irresponsável.



Peguemos um caso de, digamos, benfeitoria majoritária. Um projeto de investimento que define diretrizes de consumo energético numa lógica de consumo irresponsável. Irresponsável porque investimentos são contabilizados como gastos – mas que não se conte o investimento do projeto como gasto; este sim, é investimento; na era das massas, o investimento que é investimento é chamado de “investimento estratégico” -, futuro é pensado como crescimento (olha a massa!) e população é entendida na lógica da maioria – razão idem. Daí aparece a noção de um investimento em prol da maioria, que para tal exige o sacrifício de uma minoria. E aqui eu peço, por favor, que não entendam minoria segundo o jargão universitário. Estou falando de partes maiores e menores de uma contagem de cabeças numa paisagem povoada por pessoas. Próximo passo: exige-se o sacrifício, cujo número é de 40 mil pessoas, em nome do bem das demais contadas em milhões. Daqui, entende-se um sistema sacrificial delicado, cuja lógica é a de trocar corpos por pepinos e, daí, oferecer à maioria sua própria substância: a maioria. Que, diga-se de passagem, não é ninguém. Explico-me.



Há na obra de Claude Lévi-Strauss (o da antropologia, e não o da calça) um esquema semiológico de redução do ente sacrificado disposto em ordem cósmica em que o mesmo apareça como substituto. Isso mesmo. Como substituto prototípico e só. Assim, pode-se colocar um pepino no lugar do destinado a morrer num ritual, desde que se ressalte a economia semiológica que defina a relação metafórica e faça a conexão precisa que demonstre em lugar de quem que o pepino está sendo sacrificado. Sei que parece absurdo, mas é pedagógico, tanto em O Pensamento Selvagem quanto, espero, aqui. O que entra em questão quando a ordem da maioria é posta é que é preciso desenhar com clareza a situação que relaciona a minoria a ser sacrificada, feito um pepino, em nome dos demais que, por causa de sua situação inconteste de maioria, deve permanecer com seu futuro inatingido – entenda-se futuro como crescimento. Da massa.

No caso de sucesso começa-se a entender quem é a maioria, e qual é seu corpo, nunca pronunciado. Ele é um corpo diretivo que tem suas prioridades definidas segundo esta mesma lógica sacrificial que permite que se opere a morte em massa, desde que em nome de algo maior. Maior. E porque deste jeito? Não sei. Mas gosto da história contada por um alemão chamado Simmel, de que o sacrifício é um adiamento da satisfação do desejo com vistas na consumação futura. Este mesmo alemão convertido em protestante narra uma historiazinha em que há etapas de concretização do sacrifício como formação da atividade simbólica que constitui sentido, digo, atividade simbólica. E aos poucos, a massa começa a aparecer de forma irreversível. Assim, se eu cometer penitência, a mesma passa a ter valor; mas no caso em que há pessoas demais e que eu existo somente como mais um, o sacrifício é essencialmente subjetivo, pessoal e intransferível, aniquilando o efeito do exemplo de comportamento para a ordem coletiva. Então, o que é objetivo, isto é, disposto à ordem comum é coisa que ultrapassa a ação pessoal e se transfere para sacrifícios envolventes, que conduzem aos adiamentos perigosos grupos de pessoas cada vez maiores. Se quatro pessoas afetam mil, 40 mil afetam milhões. Foi assim que este alemão cristão-novo aplaudiu o começo da Primeira Guerra. A sociedade de massas requer sacrifício de massas para gerar distinções históricas que permitam a narrrativa de um antes e de um depois sacrificial, como seria o caso judeu, ou mesmo da juventude alemã. Mas na lógica da maioria, quem é sacrificado é o pepino – isto é, outros milhares em nome dos existentes milhões. E daí percebemos que a maioria é sempre o futuro em nome do qual estamos para morrer, pois a maioria não tem corpo. Ela somente espera a morte do pepino.

Tá bom, eu sei. Nada disso faz sentido. É uma história absurda. Mas é nela é que se enquadra a lógica da ereção da usina de Belo Monte, essa coisa absurda desenhada para as bandas do Rio Xingu. Índio é pepino.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Autorização

No ano passado, o deputado do PSDB de Minas Gerais, que responde pelo nome de Bonifácio de Andrada, encaminhou o projeto de lei 7913/10, que carrega consigo a brilhante idéia de que as livrarias não podem se recusar a vender nenhum livro de qualquer autor. E caso venham a fazê-lo, devem se reportar à Câmara Brasileira do Livro (CBL), relatório este endereçados ao editor e ao autor da obra em questão. A reportagem que faz emergir esta notícia é do Estadão de hoje, 13 de janeiro de 2011. O projeto de lei é de 17 de novembro de 2010. Bonifácio de Andrada.




A redação do projeto de lei, já disponível no site da Câmara dos Deputados (http://www.camara.gov.br/sileg/integras/818871.pdf) sugere que 1) a mesma, como adendo à lei 10.753 opere em favor da livre circulação da produção intelectual nacional. Disso segue a afirmação de que 2), no caso de uma se livraria recusar em oferecer um determinado livro, deve reportar-se à CBL como exposto acima. Somado a isto, segue que 3) toda livraria será protegida pelo Poder Público, o que permitiria que o mesmo cometa este abuso de interferência muito semelhante à forma de distribuição de impressos do século XIX.




A idéia torpe de Andrada - ou de seu ghost writer, vá lá - é que as livrarias não são meros negócios, pois correspondem a uma atividade indispensável para a vida cultural nacional. Comentar esta verdadeira freada de bicicleta que é este projeto de lei permite que algumas coisas possam vir à baila. A primeira delas é a de uma legislação que não compreende o mercado livreiro em nenhum nível, principalmente no que diz respeito de ser, sim, um mercado. Paga-se impostos, e muitos, nesta atividade. Legislar uma atividade econômica alienando-a de sua própria atividade é patologia bacharel. Mas o mais bizarro é que além de serem contribuintes por comercializarem uma mercadoria depreciada no país, o ilustre deputado almeja que os livreiros do país se resignem a acumular às tarefas diárias o serviço de bibliotecário entendido como funcionário público, redigindo relatórios nos quais constem razões de recusa de uma mercadoria.


A produção agrícola é parte fundamental, para não dizer fundante de qualquer cultura. É daí que vem a palavra. Assim, se um feirante se recusar a vender a batata de um fornecedor porque a espécie vegetal que ele oferece não tem saída, ou porque é cara, ou seja o que for, o feirante precisaria escrever ao Ministério da Agricultura, ou órgão que o valha.



A disposição de obras produzidas no país é papel tanto de livrarias como de bibliotecas - cabendo a ressalva de que o tipo de política pública para o qual mira o deputado não é compatível com nenhuma das duas. Mas fundamentalmente, bibliotecas públicas que, em geral, cumprem esse papel mal e porcamente - como a maior parte das livrarias, por sinal. Afinal, sem a recusa de exemplares, colocar livros em qual espaço? Como constituir um acervo? Mesmo a Fundação Biblioteca Nacional tem um espaço tímido para as funções que promove - além do fato de eu não conhecer nenhuma biblioteca pública que não seja setorial, que não promova descarte de exemplares por economia de espaço; e ainda assim, todas muito maiores que as livrarias que conheço.



O projeto de lei ignora a difusão digital do livro - que oferece riscos ao comércio livreiro, como a queda de liquidez do mesmo; ignora a disparidade entre responsabilidades fiscais e exercício do comércio nas pequenas livrarias; a complexidade da distribuição de livros das editoras pequenas e das editoras universitárias, nunca contempladas com uma medida administrativa razoável que impactasse no preço do livro impresso - ainda que se entenda haver outras prioridades na gestão de infra-estrutura nacional.
A bem da verdade, o presente projeto de lei simplesmente ignora.



Seria muito mais interessante que os livreiros conhecessem e cultivassem interesse pelo material que vendem; que soubessem conversar; que soubessem receber e indicar. Que conhecessem seu ofício. Desejo o mesmo aos deputados, tremendamente deslocados, crianças soltas no mundo, bebês em tiroteio.



Segue daqui um recado amigo, ou no mínimo irônico:



Caro Bonifácio de Andrada;



Para desfilar suas frustrações como autor recusado, e de forma tal que faça da frustração uma atividade pública, escreva um blog, e não um projeto de lei. Just like me.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Esporo

"Tenho que. É mais ou menos isto. Tenho que."



No que se abaixou imediatamente, agaixado com vistas em entrar no armarinho debaixo da pia que, úmido e mofado fazia de sua entrada um ato emergente. Emergente. Um ciclo cujas forças promotoras fazem aparecer algo, precipitação, emergência, e ele lá embaixo entulhando as narinas com detalhes e empoeirados da cultura de fungos que se fazia. Entrou no exato momento em que a cultura fazia um ritual, festivo e cheio de odores já mencionados.






Permaneceram tempo demais sem contato, e o intruso veio para romper com a homeostase; coisas da emergência. Entrou no ciclo e as raspas de odor que lhe adentram pela narinas fizeram do ciclo ritual funghi uma alteração significativa, e o que fora somente comunicação sem resposta se transformou em resposta imediata. Mal sabiam que da interrupção da escuridão e do movimento celeste que precipitou em momento gigante culminaria em sua dissolução corrosiva e dolorosa. Cloro.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

votar na era da técnica

Estou assistindo ao espetáculo do fingidor que é tal como poeta, finge a dor que deveras sente. Não imagino outra forma de oferecer contorno à triste figura das conversas que sou obrigado a assistir, e tampouco no espetáculo lamentável em que a vida nas praças toma a forma. Já houve o tempo em que defender os seus significava exatamente isto, em idos tempos coronéis, e tal. Fico imaginando qual a sorte de coronelato e compadrio empresta afinação para o atual coro acusador que toma forma a cada período eleitoral, só não menos irritante que os acusadores inconformados nos quais se tornam, os eleitores de um candidato vencedor. Até consinto na idéia de que alguém tem que governar, mas é inimaginável que pelas mesmas razões eu tenha que fingir que gosto disso. Até porque, se mestre na arte de fingir acabo por adoecer, viver a dor de não saber aquilo que deveras sabia. Enfim, o que preciso escrever é que quando são muitos os feiticeiros, a feitiçaria é arte fácil. Entenda como quiser.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Para quem "caiu no peixe é rede"*


ONG faz coleta de cabelo para limpeza de praias no Golfo do México



Publicada em 11/05/2010 às 10h00m - O Globo





RIO - Salões de cabeleireiro e fazendeiros do mundo inteiro estão recolhendo cabelo e pelos de animais para auxiliar a operação de limpeza do petróleo que, há vários dias, vaza de um poço danificado no Golfo do México. A ideia é que o cabelo, colocado dentro de meias de náilon, absorva o óleo espesso que se aproxima das praias dos Estados vizinhos ao local do vazamento - Louisiana, Mississippi, Alabama e Flórida.
Petroleira estima que gastará mais de US$ 350 milhões para limpar mancha de óleo no Golfo do México
Infográfico: Entenda a ameaça do óleo ao ecossistema
Cerca de 370 mil salões estão participando, segundo a entidade beneficente que lidera a campanha de arrecadação de cabelo, Matter of Trust.
O Brasil também está contribuindo com doações, coordenadas a partir de uma página no site de relacionamentos Facebook.
Segundo a Matter of Trust, sediada em San Francisco, na Califórnia, por volta de 200 mil quilos de cabelo e pelos estão chegando todos os dias.
Em entrevista à BBC, a co-fundadora da entidade, Lisa Gautier, disse que o cabelo é um material extremamente eficiente na absorção de todos os tipos de óleo, incluindo o petróleo.
Ela explicou que cada folículo tem grande área de superfície, à qual o óleo adere.
Voluntários estão colocando o cabelo dentro das meias em 15 armazéns nas regiões próximas ao desastre, criando imensas "salsichas de cabelo", disse Gautier.
As meias serão colocadas nas praias - não no mar - para absorver o óleo que chegar à areia.
A técnica tem a aprovação da empresa Applied Fabric Technologies, segundo maior fabricante de utensílios para a absorção de petróleo no mundo, informou a Matter of Trust.
Além do Brasil e Estados Unidos, países como França, Inglaterra, Espanha, Austrália e Canadá também estão fazendo doações, disse Gautier.
Segundo ela, a página da entidade no Facebook vem sendo atualizada constantemente com notícias de novos carregamentos.
E mais voluntários estão se disponibilizando a toda hora.
Criadores de carneiro e alpaca também estão participando, disse a entidade.
Por volta de cinco mil barris ( mais de 950 mil litros) de petróleo estão vazando diariamente no Golfo do México desde a explosão, no dia 20 de abril, no poço administrado pela empresa britânica BP, British Petroleum.





segunda-feira, 19 de abril de 2010

Pra quem escreve, pra quem se dispõe...

Tretas das liberdades civis:

http://naogostodeplagio.blogspot.com/2010/04/aha.html

Escreveria algo. Mas Denise o faz melhor. Prestaria atenção se fosse eu. Mas como não é - digo, você não é eu, ao menos enquanto digito "isto" - aviso: tô sempre de malas prontas pr´Angola. Peço que alguém mande meus livros pra lá, onde pretendo envelhecer meu silêncio quando vivermos numa burocracia totalitária. Aqui, não lá.

domingo, 11 de abril de 2010

Nada adepto do jornalismo

Mas, convenhamos: falar de rosas. Não agora, mas na tática de Marronzinho.

Mas enquanto se aguarda, deixo o marco como ponto polêmico:

http://culturadigital.br/marcocivil/debate/

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Prévia, e preventiva: entrevista de Karina Biondi para o Correio, de Salvador

Mediante os sustos que o jornalismo nacional oferece ao seu público leitor, especialmente aos seus entrevistados, achei que por bem e pela delicadeza do tema eu deveria oferecer este espaço tramado com tanto desleixo a uma amiga que ainda não conheço. Esta afirmação eu não vou explicar.

Karina Biondi é antropóloga, bacharel em Ciências Sociais pela USP e mestre em Antropologia Social pela UFSCar, onde cursa seu doutorado. Publicou trabalhos sobre a organização política do PCC (Primeiro Comando da Capital) e foi laureada com um prêmio de Direitos Humanos concedido pela Associação Brasileira de Antropologia e pela Fundação Ford em 2006. É dela a dissertação: “Junto e Misturado”, que consta na lista de materiais que estou lendo sem prazo de conclusão. De leitura. A publicação da entrevista neste blog lamentável serve de registro precavido diante das possibilidades de edição má fadada por parte do jornal responsável por sua elaboração e publicação - é o insondável futuro do corte da editoração. Eu, irresponsável, abro espaço para os chapas se defenderem e poderem, com rima, dizer que ‘não disseram aquilo que foi publicado’ e, ao mesmo tempo, mostrar o pau.

Esta iniciativa abre precedente. Mas só para quem for bacana, especialmente comigo. A coisa toda segue ipsis literis. Versa sobre os ataques do crime organizado em Salvador no feriadão do 07 de setembro neste 2009 cheio de voltas.



















"1- Faça, por favor, uma contextualização do surgimento do PCC em SãoPaulo. Em que condições econômicas e sociais eles surgiram? Foi a partirde uma necessidade de organização do crime?
A maioria dos relatos informam que o PCC teria surgido no ano de 1993, no interior da Casa de Custória e Tratamento de Taubaté, conhecida como uma das mais rígidas instituições penitenciárias existentes à época. Dentre os motivos de seu nascimento, os prisioneiros dizem que esta foi uma forma de se protegerem contra os maus tratos que diziam sofrer da equipe de funcionários da instituição, mas também de evitar que acontecimentos como o Massacre do Carandiru voltasse a acontecer. Com o tempo, o PCC passou a regular as relações entre os prisioneiros e sua atuação transbordou os muros das prisões para cobrir as áreas urbanas do Estado de São Paulo.
]














2- A ação do PCC se expandiu para outros estados e até além do Brasil? Aque se deu essa expansão? Com que objetivos?

Uma das medidas tomadas pelo poder público para combater o PCC foi a transferência para outros Estados brasileiros de prisioneiros que, à época, atuavam como lideranças. Esta medida parece ter tido um resultado inverso ao esperado, pois contribuiu para levar o PCC para fora de São Paulo. De fato, a proposta apresentada pelo PCC era sedutora: acabar com a "opressão" que os presos sofriam do Estado e regular as relações entre eles, evitando que tais "opressões" partissem deles próprios.
Não tenho notícias sobre sua atuação fora do Brasil, mas durante a mega-rebelião de 2006, das 84 instituições penitenciárias que se rebelaram, 10 estavam localizadas fora do Estado de São Paulo.













]

3- O PCC, hoje, é uma referência para outras organizações criminosas? Porque?

Em São Paulo, o PCC está presente em mais de 90% das instituições penitenciárias e é hegemônico nas regiões urbanas. Existem, contudo, outros comandos que disputam espaço com o PCC e lutam contra essa hegemonia. Não tenho informações sobre organizações fora do Estado de São Paulo.











]

4- Na Bahia, hoje, qual é a influência do PCC?






Os recentes acontecimentos em Salvador invocam à memória os "ataques de 2006" promovidos pelo PCC em São Paulo. Mas é apressado fazer essa relação direta. Seria necessária a realização de pesquisas acerca do crime na Bahia para poder oferecer qualquer informação esse sentido.












]

5- O PCC, hoje, ainda tem a figura de um líder ou é uma organizaçãodescentralizada?



O PCC deixou de ter uma estrutura hierárquica piramidal centrada na figura de um líder. Mais do que descentrado, eu diria que estamos diante de um comando (que eu evito chamar de organização) a-centrado.
]








6- faça uma apresentação sua (NOME, SOBRENOME, ESPECIALIZAÇÃO, ÁREA DE ATUAÇÃO, ETC);





Karina Biondi desenvolve pesquisa acerca do funcionamento do PCC desde 2004. Defendeu sua dissertação de mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal de São Carlos, e atualmente cursa doutorado. "

]








































É isso, moçada. Se sair certo, saiu. Se não, está aqui. Nada de mais. Espero que continue assim.








Esta foi mais uma intervenção urbana de Refrator de Curvelo, sempre pronto a atravessar à moda do Saci.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Roll, Jordan, roll, or some other name that we miss

Na alvorada da tranqüilidade acerca dos novos mecanismos de controle de fluxo e movimento plácido, o controle das populações em há mais de um século de atividade, arrepio meus pêlos de gato escaldado. Como sacerdotes de uma teologia laica, e como se a houvesse, a máquina policial voraz devora com novos regimentos de controle e novos artigos que demandam a ampliação da tutela, com desdobramentos ilimitados dos dados positivos de ciência e estatística. Silenciosamente as camadas da epiderme, e que mal ou bem chamamos de vida social, redistribui-se em suas castas a partir do mito da democracia racial, cuja raiz mitológica segue igualmente silenciosa, ajeitando o sentido de cada ação à revelia das intenções mais particulares. E vice-versa. E assim a contenda se satisfaz com essa dose de silêncio mediador e de um quinhão impessoal que segura as pontas de um tapete. Como na cisão entre mundo e o celestial que, se num primeiro momento fazia a glória da purificação para depois ser sobrepujado pela utilidade dos britânicos, que é coisa mundana e suja, mas de valor de troca, finca as raízes do novo Estado na figura do Protesto. O tapete se dobra sobre si com uma textura imprópria, de fios brancos que é onde não se pode pisar sob pena de manchar. O começo e o fim se dão mãos na contenda seguindo a via do mito em que brancos e negros se convertem um no outro, nunca em mestiçagem, mas em polícia, fazendo correr aos poucos os ciganos, que teimam em singrar entre fronteiras sem nunca fingir que não as há. Mas desses povos de festejo e circulação mítica não se pode falar. Vivem em outro tempo e não querem entrar. No momento certo, nem puros e nem úteis, são os que estão só para morrer. E morrem, sem ninguém lembrar.

Mas há sempre velhos profetas, tocando banjo no delta do Mississipi, que se repetem indefinidamente até que outro alguém repita, fazendo calar a voz e rumar o vento. The greatest affirmative action that I´ve ever knew was took forward by the ol´ bastard Robert Johnson who assumed that the only thing that he could made with believing was confront all accusations and live inside them. So he went into a crossroad and made a pact with the devil, that was the devil itself, and realized that even being satanized and hated, he could mesmerize and seduce. All the beauty whites too. And for it after the devil´s spell all he was supposed to do was just to play good. But play good is not play for good. I laugh ´bout this guy every day, this lov´ly lil´ pagan. This is not much, I know. But this is all that I know. Livin´ here, in down Mississipi. Thank God we´re all christians now.












terça-feira, 2 de junho de 2009

Grande susto, caro romântico

Na verdade, quase uma epifania.


Nenhum hegeliano poderia imaginar, por mais poesia que tivesse! Ainda mais, e que susto levariam os românticos, os dignatários da religião da natureza, ou mesmo Shaftesbury, ao descobrirem que uma terra em grande parte tropical, devotada à volúpia das índias nuas, 500 anos depois, viria a ter ministérios e secretarias de transporte! Entenderiam mal, muito mal. Haveriam murmúrios, libelos, desmaios, salpicados talvez por uma idéia de necessidade civilizatória em pitadas. Assim como faria pouco sentido o que ouviriam nos haveres dos apelos e políticas para o transporte coletivo alternativo. Fico imaginando o horário oficial para o desmaio com tons histéricos e seus aparelhos públicos assim como os horários alternativos para aqueles que, por questões da política de populações, por prestarem socorro aos desmaios oficiais, só poderem sofrer transporte logo mais, ou às 14 ou às 21 horas.


Sintomático é que o parágrafo acima já quase não faz sentido. E se o faz é para internação, e não internalização.


É, Hegel... Nosso Estado de coisas.