Alimentou-me com hortaliças
anos a fio
para lhes apressar a morte e,
sadicamente,
adiar a minha.
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sábado, 20 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
Libação
e Abel era, então, para ser o sacrifício.
homicídio cometido por um seu
que, em seguida,
foi declarado
santo. Pois
quem matar Caim será vingado sete vezes
no que Iahweh deixou sua marca no homicida
antes que fosse a Nod
a leste daqui.
homicídio cometido por um seu
que, em seguida,
foi declarado
santo. Pois
quem matar Caim será vingado sete vezes
no que Iahweh deixou sua marca no homicida
antes que fosse a Nod
a leste daqui.
terça-feira, 14 de julho de 2015
De oito
-->
“Sinceramente, eu não sei o que dizer. Não sei por onde
começar.”
Deveríamos
estar caminhando. Não conseguimos ainda dar o primeiro passo. A verdade é que
quase começamos a chorar assim que colocamos os pés na rua. De minha parte,
confesso, que me senti pressionado a fazer de seu choro o meu e então, chorar
em coro. Da parte dele, não sei dizer. Não sei por onde começar.
Postado por
Refrator de Curvelo (na foto do perfilado, restos da reunião dos Menos que Um)
às
20:10
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Duplos e Trios
sábado, 3 de janeiro de 2015
Não como secularização, mas como sobrevivência: notas sobre a ruína, a morada e o fantasma do religioso.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado:
contribuição à semântica dos tempos históricos.
Rio de Janeiro. Contraponto. 2006.
ROSANVALLON, Pierre. L’État en France de 1789 à nos jours. Seuil. Paris 1990.
15- Há um tríptico a ser respeitado com relação ao
regime de prognósticos em disputa. Do sistema de adivinhações pelo vôo dos
pássaros à curva regular dos platôs estatísticos, uma terceira dimensão faz
parte a cena dos prognósticos. Afinal, o tempo futuro também pertence à
escatologia, terreno no qual a Revolução francesa se fará, à luz da reflexão de
Reinhart Koselleck (2006), herdeira da Reforma luterana – afinal, grande parte
de seu repertório diz respeito a uma reforma de Estado sem precedentes. Assim,
da mesma forma que a Reforma luterana traz consigo sinais do fim do mundo condensados
em um futuro abreviado, num fim por vir cujo desdobramento seria o próprio
sentido da história humana, a Revolução culmina como determinação de um novo
tempo – o que aproxima o evento a uma espécie de condição mítica abordada tanto
por Lévi-Strauss, François Furet e Hayden White.
“Em 10 de maior de 1793, em seu
famoso discurso sobre a Constituição revolucionaria Robespierre declara: “é
chegada a hora de conclamar cada um para seu verdadeiro destino. O progresso da
razão humana preparou esta grande Revolução, e vós sois aqueles sobre os quais
recai o especial dever de acelerá-la”. A providencial fraseologia de
Robespierre não é capaz de dissimular o horizonte que expectativa alterou-se em
relação à situação inicial. Para Lutero, a abreviação do tempo é um sinal
visível da vontade divina de permitir que sobrevenha o Juízo Final, o fim do
mundo. Para Robespierre, a aceleração do tempo é uma tarefa do homem, que
deverá introduzir os tempos da liberdade e da felicidade, o futuro dourado.
Ambas as posições, assim como o fato de que a Revolução derivou da Reforma,
marcam o início e o fim do período de tempo aqui considerado.” (Koselleck,
2006:25)
Tanto a Reforma quanto a Revolução oferecem diferentes fraturas temporais
com relação às quais servem como meios de aceleração – seja por via da história
da salvação (heilgeschichte), seja
por via da história política -, diferenças essas que reconstituem formas de
temporalização diferentes que entram em causa na longa reforma do Estado
absolutista – no caso francês, de Louis XIII a Louis XIV (cujo entremeio conta
com Richelieu e Mazarin). Dispor lado a lado Robespierre e Lutero é dispor o
prognóstico e o profético face a face. Assim:
“O prognóstico produz o tempo que o
engendra e em direção ao qual ele se projeta, ao passo que profecia apocalíptica destrói o tempo, de
cujo fim ela se alimenta. Os eventos, vistos da perspectiva da profecia, são
apenas símbolos daquilo que já é conhecido. Se os vaticínios de um profeta não
foram cumpridos, isso não significa que ele tenha se enganado. Por seu caráter
variável, as profecias podem ser prolongadas a qualquer momento. Mais ainda: a
cada previsão falhada, aumenta a certeza de sua realização vindoura. Um
prognóstico falho, por outro lado, não pode ser repetido nem mesmo como erro,
pois permanece preso a seus pressupostos iniciais.” (Koselleck, 2006:32)
O alvorecer progressivo da administração pública, a que estabelece
critérios da organização social como forma de planejamento da vida em comum,
visa dispor do refinamento dos meios de produção de prognósticos, não somente
relativos ao método em si como na continuidade incessante da observação de
temas e variáveis consideradas estratégicas. Obviamente que este modo de
temporalização produz um efeito em particular:
“O prognóstico racional contenta-se
com a previsão das possibilidades no âmbito dos acontecimentos temporais e
mundanos, mas por isso mesmo produz um excesso de configurações estilizadas das
formas de controle temporal e político. No prognóstico, o tempo se reflete de
maneira sempre surpreendente; a constante similitude das previsões
escatológicas é diluída pela qualidade sempre inédita de um tempo que escapa de
si mesmo, capturado de modo prognóstico. Dessa forma, do ponto de vista da
estrutura temporal, o prognóstico pode ser entendido como um fator de
integração do Estado, que ultrapassa, assim, o mundo que lhe foi legado, com um
futuro concebido de maneira limitada.”(Koselleck, 2006:33)
O prognóstico como tempo capturado pelo
planejamento orçamentário do Estado serve como exemplo que o próprio Pierre
Rosanvallon ancora na historiografia de Koselleck, de forma a oferecer uma
entrada privilegiada para o problema da secularização, aqui lido na chave da
sobrevivência cultural. Ele disserta sobre a transparência financeira na qual o grande problema é exatamente a contra-produtividade do segredo
exatamente porque não consegue traduzir com clareza sistemática o sistema de
decisões orçamentárias de Estado. Entendendo que das alterações determinantes
do processo revolucionário de 1879 em diante se encontra a instauração de um
governo representativo em que diversas partes operam no seio do poder soberano
– a soberania se dilui em sistema de decisões -, ainda que não interfira
imediatamente no domínio das intervenções de Estado, oferece uma nova forma
para o mesmo[1]. Afinal,
para que seja possível algo como a votação de um orçamento, é preciso não
somente um orçamento estabelecido pautado em uma determinada concepção de
riqueza. É preciso que o orçamento esteja articulado em um determinado modelo
de prognóstico que capturem o tempo futuro a título provisório, mas de forma
inescapavelmente sistemático. O Estado absolutista, centralizador que é, se
consolida também por meio da expulsão dos símbolos proféticos da estrutura de
decisão que são signos de decisões tomadas em segredo ou no seio de uma outra
ordem que não nas instâncias da política em um sistema representativo:
“O
orçamento votado sob a forma de uma lei de finanças se transformou no espelho
criptografado das atividades do Estado, vindo a extinguir uma longa tradição de
desordem e segredo. Constrangidos pelo Estado – “é impossível, agora, que haja
um ministro das Finanças desonesto”, disse Villèle, em 1826 -, simboliza o
advento de um Estado fiscal regular. Instauração de uma regularidade “técnica”
que se dobra em uma regularidade “política” por via da publicidade das cifras,
fazendo do orçamento um elemento central do debate público. Para além do
círculo estreito dos parlamentares, a discussão a respeito da lei de finanças
na Câmara suscita comentários e interrogações por todo o país. O orçamento é
comentado pelos jornais, dando lugar à circulação de uma enormidade de
brochuras e libelos que traduzem uma reapropriação do Estado pela sociedade.”
(Rosanvallon, 1990:35).
[1] «Parler d’intérêt public, c’est, dans le langage classique, parler de
l’intérêt de l’Êtat, l’Êtat existant comme sujet propre, séparé distinct de la
société civile. La notion d’intérêt général de tous les hommes renvoie au
contraire à une abstraction, qui est le support de l’idée de nation. L’État ne
peut plus être représenté dans ce cadre que comme immergé dans cette nation, il
n’a plus d’existence autonome. Sa dépendance se manifeste d’abord
économiquement, puisq’«un souverain n’a qu’autant que ses sujets en
possèdent ». Il y a donc une confusion qui s’établit entre le suverain et
la nation : « Le Roi et le peuple ne sont qu’une seule et même chose,
quelque fondé qu’ait été jusqu’ici l’usage sur une maxime toute
contraire. » L’État séparé repose sur la subordination qui se définit
pratiquement, comme distance et rapport inégalitaire ; l’État immergé est
au contraire fondé théoriquement sur la confusion et l’égalité des intérêts. »
(Rosanvallon, 1990 :29). As citações internas à nota são de Pierre Le
Pesant de Boisguilbert.
domingo, 30 de novembro de 2014
MÔNADA, díade, tríade, tétrade: números inteiros.
-->
Era somente um. Numeral. Ponto. Não que seja coisa simples,
digo, algo próximo de um número inteiro. Próximo, porque nunca foi algo que eu
pudesse olhar no espelho e garantir, mesmo que fosse no espelho que eu já
considerei enorme, na porta do armário do quarto de mamãe. De qualquer forma,
cresci com esta marca que, até onde sei, sempre foi mais ou menos comum. Minha
primeira visita em um parque de diversões a interdição do prosseguimento do
movimento da fila para entrar na montanha-russa sempre vinha com a instrução de
que nem mais uma criança entraria e que teríamos que esperar pela próxima leva.
Muitas vezes fui sozinho, outras fiquei para trás enquanto meus amigos se davam
as mãos, dois a dois, gritando o que outra vezes gritei com eles – a mais longa
e alta vogal que eu pudesse encontrar garganta adentro. Com gosto. Não somente
eu mas
Cada
Um
De
Nós.
Hoje eu
concordo o número da frase com algum receio de estar errando. Poucas vezes tive
a impressão de que de alguma forma vivi como mais de um, em algum mecanismo de
acoplamento marginal que engata o enunciado num caldo só, devidamente temperado
pela circunstância. Não que se deva confiar em coisas como “a memória” ou mesmo
“a primeira vez em que percebi isso”. Nem um, nem outro farão nada por mim ou
por esta prosa sobre números inteiros. Não tem nada a dize sobre este que é um
assunto meramente geométrico e, desconfio que o papel que se pode atribuir, ou
mesmo usufruir nestes dois termos em nada tem a ver com um garante narrativo ou
qualquer outra coisa que possa ser dita. Enfim, dizemos para manter a banca da
casa e fazer com que haja movimento, mas no limite não são importantes, nem a
memória faz, nem a primeira vez em que percebi isso. O que importa é que nós só fez inteiramente sentido quando
meu irmão e eu resolvemos roubar o pequeno supermercado que existiu no galpão
ainda existente a pouco mais de meio quarteirão de onde ainda moro. Fugir e,
principalmente, ser pego. Diria então, “eis o momento em que pude perceber que
éramos nós”, mas não é nada disso. O que é efetivo é que hoje sinto que este é
um “nós” plausível, especialmente na instância da fuga que até hoje persiste
dado que não só mascamos todas as gomas de mascar como redundamos em manter o castigo
que se abateria sobre nós à distância. Em qualquer combinatória, vale dizer,
seríamos nós. Eu pego e ele não, a delação possível e, então, o medo da
delação. Nós dois pegos. 4 alternativas
e em todas elas, nós. Nós dois. Que digam algo sobre a paixão, o sexo, a
amizade como produtor desta unidade dual. Que interfiram recusando o resto
desta prosa, não me incomodaria em nada porque a paixão é o momento da fuga,
eterna enquanto dura. Enquanto houver o furor da existência ardente da
contraparte, e for paixão, o sentimento é aquele que atravessa o corpo de
alguém que, em trânsito em provável fuga de seu país, chegando em um hotel no
estrangeiro com os olhos arregalados e respiração ligeiramente ofegante o
atendente pergunta, sorridente, se está fugindo e incapaz de compreender a mais
sutil ironia, esvaziado do senso de humor. Foi pego mesmo que por um segundo;
pegaram seu comparsa; desbarataram a operação – vi meu cúmplice (ah, a
cumplicidade dos casais) sendo preso ao assistir a televisão e logo percebi que
seria e minha vez, logo em seguida e estaríamos, nós dois, presos. Nós dois, não
importam quantos. Nós é dois. Eles, três. Foi assim que me cercaram e agora,
escrevo da prisão, à huis clos.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
O meio de transporte: sobre a doutrina do similar e outros segredos.
WIENER, Norbert. Deus, Golem & Cia. Cultrix. São Paulo. 1971
10-
Ora, se a conversão do funcionalismo em
cibernética merecer maior atenção, o que se passa é que existe uma distinção
importante entre figura e fundo que é, para todos os efeitos, fundamental.
Porque é ela que destaca os momentos de relação em que a singularidade da
imagem, quando afirmada, não implica na abdicação de sua possibilidade de
permuta e circulação a depender do meio de transporte, isto é, o fundo que lhe
serve de esteio, a convergência que culmina em ontogênese; a narrativa que
coincide na filogênese. Quando percebemos que há uma possibilidade de permuta
imagética que faz com que a narrativa da história das religiões mova entre as
figuras de Artemísia, Diana e da Virgem Maria – esta é a hipótese de Frazer -,
isto implica não somente em um sistema subjacente que conduz as transformações
mas em uma variação da figura como variação da imagem como ela mesma e como
padrão – que Norbert Wiener (1971:38-39) define como pictórica e operante,
respectivamente. Os termos que ele utiliza não são tão importantes quanto o
exemplo e as consequências do mesmo para fins da elaboração de um modelo.
Wiener discute no livro em questão a
relação entre criação e criatividade, e de qual forma um objeto criado como
máquina pode ele mesmo apresentar sinais de criatividade. É importante não
esquecer que a discussão toda, produzida nas décadas compreendidas entre
1940-1970, está inundada de referencias à teoria da informação, aos
investimentos da IBM em computadores capazes de jogar xadrez e aprender com os
jogos passados produzindo pela primeira vez sistemas estocásticos artificiais –
isto é, memória cujo registro de dados altera o sistema com relação à forma
pela qual os dados futuros serão registrados; aprendizagem.
Qual imagem mítica mais poderosa para a
discussão a respeito dos encantos da criação mecânica se não a de Pigmaleão e
Galatéia? O artesão que concretiza a beleza ideal tem em suas mãos, após
intervenção divina, a mesma imagem respondendo aos desígnios da vida. De figura
à movimento, Galatéia é operante quando viva. A história de Pigmaleão é um dos
pináculos poéticos do automatismo, e na versão de Wiener serve para encenar uma
relação delicada entre criador e criatura que culmina em uma outra questão, o
da relação entre o original e a cópia.
“Uma
forma reprodutora pode construir a imagem de um modelo de um cabo de arma e
este é suscetível de ser utilizado uma arma. Mas isso se deve ao fato de que a
finalidade de um cabo de arma é relativamente simples. De outra parte, um
circuito elétrico pode desempenhar uma função relativamente complexa e sua
imagem, obtida à custa de impressoras aplicadas a tintas metálicas, é capaz de
agir como o próprio circuito que representa. Os circuitos impressos são muito
comumente empregados na moderna engenharia elétrica.”(Wiener, 1971:38-39)
Uma imagem que, por via da devida
mediação, se transforma em uma outra imagem e que, por isso, opera. A relação
entre as imagens não é, todavia, figurativa mas de modulação segundo certos
padrões que podem muito bem ser abstratos e que tem como componente central sua
convertibilidade, isto é, uma imagem conduz a produção da imagem seguinte sem
necessariamente comprimir a analogia em elementos visíveis ainda que seu
propósito seja produzir visibilidade ou, em caso de outras dimensões estéticas,
formas perceptíveis. Assim:
“É possível,
pois, obter imagens pictóricas e imagens operantes. Estas desempenham as
funções do original e podem ou não assemelhar-se do ponto de vista pictórico,
ao original. Semelhantes ou não aos originais, podem substitui-los em suas
funções e isso é, de fato, uma similaridade de caráter mais acentuado. É
segundo a perspectiva de semelhança operante que estudaremos a possível
reprodução das máquinas.” (Wiener, op.cit.)
É assim que Diana vista do ponto de vista
dela mesma, é uma estátua contrabandeada desde a Crimea até Nime mas que se
converte num meio de relação entre Artemísia e Virgem Maria quando posta na
escala da religião natural de forma que metaforicamente, tanto Artemísia quando
a Virgem Maria sejam Diana sem que seja possível confundi-las quanto a sua
figura.
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
O meio de transporte: sobre a doutrina do similar e outros segredos.
DAGOGNET, François. Philosophie
de l’image. J. Vrin. Paris. 1986.
FRAZER, James George. The golden bough: the magic art (2/13 vol.). Macmillan.1990 [1913].
FRAZER, James George. The golden bough: the magic art (2/13 vol.). Macmillan.1990 [1913].
KAFKA, Franz. Um médico
rural. Brasiliense. São Paulo. 1993.
MAUSS, Marcel. Sociologia
e Antropologia. Cosac & Naify. 2003 [1950].
TAUSSIG, Michael. Mimesis
and alterity: a particular history of the senses. Routledge. Nova York. 1993.
3-
As histórias que Taussig narra; e no final
das contas trata-se de uma colagem algo dadá de narrativas em que o tema da
semelhança toma forma replicando de alguma forma o método de retirar do
contexto e fazer valer a relação por algum meio em que seja possível fazer
viger a semelhança. É uma arte da magia que, contudo, trata Frazer como
remanescente de outra coisa cujas ruínas, na verdade traços no papel, permitem
outra forma de aceder ao selvagem, tão ambíguo quanto o sacerdócio praticado em
Nemi. Selvageria delicada de uma história particular que não cessa de produzir
transportes entre o selvagem e o civilizado que, numa variação da história
natural humana faz da animalidade uma forma de narrá-la. Afinal, selvagem mesmo
que vitoriano, humano. O chimpanzé de Um
relatório à academia, de Franz Kafka é talvez o símbolo perfeito para este
outro passo rumo a uma teoria da magia que não abre mão da história natural,
ainda que seja de um tipo particular – em primeira pessoa, o chimpanzé já não é
mais macaco mas ainda se lembra que, de alguma forma, o foi. O macaco se foi
para que pudesse, todavia, ser lembrado nessa variação individuada da seleção
natural em que o que resta como memória é, sugestivamente, o tendão de Aquiles.
“Falando
francamente – por mais que eu goste de escolher imagens para estas coisas –
falando francamente, sua origem de macaco, meus senhores, até onde tenham atrás
de si algo dessa natureza, não pode estar tão distante dos senhores como a
minha está diante de mim. Mas ela faz cócegas no calcanhar de qualquer um que
caminhe sobre a terra – do pequeno chimpanzé ao grande Aquiles.” (Kafka,
1991:58)
Esta não é uma história natural avant la lettre. E como epígrafe que é
para Mimesis and alterity, não é
exatamente o bucolismo de Virgílio. Contudo, parece nos transportar para o
mesmo lugar, caso consideremos que lugar aqui não é meramente paisagem. É um meio.
O macaco apelidado de Pedro Vermelho por
causa do primeiro tiro que levou ao ser capturado, que lhe deixou uma cicatriz
vermelha numa das maçãs do rosto. Gostaria de dizer que a
fotografia captura a imagem de forma similar, mas ainda estamos num reduto
particular de uma certa história natural, a dos sentidos. Ainda que trágica em
diversos de seus contornos, e a captura do chimpanzé em vias de deixar de ser
macaco é um destes desdobramentos, a unidade antropológica não deixa de assumir
um caráter ridículo a partir do qual desenha-se o motivo de que toda
antropologia é redigida com mãos de comediógrafo, ou cede a tentação teológica.
Pedro Vermelho, que detesta ser chamado assim -
o tiro marcara sua pele de vermelho para sempre – é muito claro ao dizer
que a viagem feita no cargueiro da companhia Hagembeck, que muito bem poderia
ter no convés uma personagem de Joseph Conrad aguardando a aparição de um
cúmplice secreto; mais especificamente, que a viagem feita no caixote é, tal
como ele se lembra, o momento decisivo em que deixara de ser macaco.
“Sobrevivi
a esses tempos. Surdos soluços, dolorosa caça às pulgas, fatigado lamber de um
coco, batida no crânio na parede do caixote e mostrar a língua quando alguém se
aproximava – foram essas a primeiras ocupações da minha nova vida. Em tudo
porém apenas um sentimento: nenhuma saída. Naturalmente só posso retraçar com
palavras humanas o que então era sentido à maneira de macaco e em consequência
disso cometo distorções; mas embora não possa mais alcançar a verdade de símio,
pelo menos no sentido da minha descrição ela existe – quanto a isso não há
dúvida.” (Kafka, 1993:60)
A busca pela saída do caixote não
significava, contudo, busca da liberdade. Esta confusão não pode ser feita pois
deixaríamos de prestar atenção naquilo que distingue o chimpanzé dos humanos
que logo mais ele veria, especialmente no ambiente circense – a forma
particular de nos exibirmos juntos a outros tantos animais encaixotados que,
parece, acedem a um nível de relação humano que faz arrastar uma sorte de
calcanhar de Aquiles da semelhança. Não se imagine contudo, mais uma vez, que o
tema da saída é o mesmo da liberdade. Este erro nos faria cair no ridículo.
“Tenho
medo de que não compreendam direito o que entendo por saída. Emprego a palavra
no seu sentido mais comum e pleno. É intencionalmente que não digo liberdade.
Não me refiro a esse grande sentimento de liberdade por todos os lados. Como
macaco talvez eu o conhecesse e travei conhecimento com pessoas que têm essa
aspiração. Mas no que me diz respeito, eu não exigia liberdade nem naquela
época, nem hoje. Dito de passagem: é muito frequente que os homens se ludibriem
entre si com a liberdade. E assim como a liberdade figura entre os sentimentos
mais sublimes, também o ludíbrio correspondente figura entre os mais elevados.
Muitas vezes vi nos teatros de variedades, antes da minha entrada em cena, um
ou outro par de artistas às volts com os trapézios lá do alto junto ao teto.
Eles se arrojavam, balançavam, saltavam, voavam um para os braços do outro, um
carregava o outro pelos cabelos presos nos dentes. “Isso também é liberdade
humana”, eu pensava, “movimento soberano”. Ó derrisão da sagrada natureza!
Nenhuma construção ficaria de pé diante da gargalhada dos macacos à vista disso.”
(Kafka, 1993:61)
Não nenhuma saída moral, metafísica, saída
que buscava era de ordem psicomotora. Não se entenda, todavia, tratar-se de
fuga. A saída fora imitar os homens do barco produzindo uma sorte de solução em
que a relação com o original se perde. Um macaco imitando um homem é, mais uma
vez, uma forma de borrar a indistinção confundindo formas de anterioridade; o
macaco que imita o homem é, por sua vez, seu ancestral e, de alguma forma,
provavelmente filogenética, é sua imitação. Nesta que é uma história particular
dos sentidos, a mimesis é um problema que se enquadra nas digressões da
história natural. Não em geral, mas uma particular – aquela em que o macaco que
toma aulas de humanidade com humanos, e os imita com vistas na saída do
caixote, infecta os humanos com sua imitação tentando-os a voltarem a ser
macacos. Tudo muito confuso, muito arriscado. Não é por acaso que o platonismo,
identificado grosso modo por François Dagognet (1986), suspeita tão abertamente
dos artifícios da semelhança que, por via das dúvidas se aplica na censura aos
poetas e, mais adiante, aos selvagens e seus ares pagãos cheios de
sensualidade. Melhor não. Muita tentação.
A idolatria da imersão na mímesis tem em
Michael Taussig um outro capítulo em que a magia simpática, com relação à qual
proliferam remissões ao passado arruinado da antropologia de James George
Frazer, converte o humano em macaco. Não qualquer macaco, mas aquele que vê as
coisas mais engraçadas sendo feitas em nome da liberdade. É o homem branco quem
é convertido em formas artesanato Cuna[1],
história esta que se desdobra em inúmeras outras histórias cujo contexto é a
mera convertibilidade de uma história em outra pela analogia que o contato
entre elas produz. Obviamente que não é qualquer contato que entra em questão,
mas os dotados de poder suficiente para estabelecer o tipo de semelhança que
reitera a diferença entre os termos com poder ainda maior. O poder da evocação
da semelhança, e da provocação de semelhança, dada a censura platônica perene e
seu poder teológico, não poderia ser de outra ordem que não da magia, o que de
outra forma não senão uma concepção mais apurada e detalhista de difusão. E
dentre outras coisas é O ramo de ouro,
de Frazer, que Taussig difunde:
“I am well aware that mimesis, or at
least the way I am using it, is starting to spin faster and faster between
opposed yet interconnected meanings, and yet I want to push this instability a
little farther by asking you to observe the frequent interruptions and asides,
changes of voice and reference, by which this text on the Emberá, so manifestly
a text about us too, breaks up intimations of seamless flow that would immunize
mimetic representation against critique and invention. Didn’t Valentin say –
indeed make quite a point of it, when you consider his short and concise
description – that the captain of the modelboat had neither had neither head or
neck, and that one of the crewmen had no feet? With this replica of the boat
and its gringo spirit crew we have mimesis based on quite imperfect but
nevertheless (so we must presume) very effective copying that acquires the
power of the original – a copy that is not a copy, but a “poorly executed
ideogram”, as Hneri Hubert and Marcel Mauss, in the early twentieth century,
put it in their often critical discussion of Frazer’s theory of imitation.” (Taussig, 1993:17).
Os barcos em questão dizem respeito ao
ensaio de Stephanie Kane sobre o “efeito MacArthur” entre os Chocó em
dissertação defendida em 1986, em Austin, Texas (USA); pesquisada na península
Daríen, no Panama durante os anos 1980. Valentin é um índio chocó quem conta
uma história de sua infância em que seu avô, seu tio Bernabé e ele, quando
próximos da ilha Encantamento rumo ao rio Congo, avistaram um barco cheio de
homens brancos o qual tentaram alcançar à canoa, no que não conseguiram. Em
meio ao rastro do odor de gasolina, o avô, que era um xamã, decide voltar
porque o barco não era outra coisa senão coisa do diabo. Então, eu estou
contando a edição de Taussig, que conta a história da história contada por
Kane. Difundimos na esperança de que o ato narrativo carregue consigo
semelhança, a mesma que, em um momento fortuito, seja possível reconhecer a
mesma história quando em contato com uma outra fonte que não faça parte desta
cadeia – como seria a versão vista desde fora do barco que carregava o macaco
Pedro Vermelho; e o rio Congo ficasse do outro lado do Atlântico. No Congo.
A história de Valentin segue no curso em
que o adoecimento dos três chocós a partir do que o avô, xamã, captura a imagem
do barco cheio de gringos em uma miniatura em que o capitão não tem cabeça ou
pescoço e sua tripulação, não tem pés. Muito fácil transportar esta história
para o português e ter um acesso materialista dos mais agressivos que afirma
que histórias de magia, de fantasma, etc., são por fim, sem pé nem cabeça. Que
sejam, este não é o ponto. Muitas histórias não tem cabeça, como a da Revolução
Francesa, e fazem muito sentido. As que não tem pés são mais raras. E todavia,
este é o tipo de história que preenche dois volumes inteiros de um livro que se
impôs como um clássico da antropologia social moderna. Na verdade, dois. Hubert & Mauss são difusores de Frazer e igualmente praticantes da arte de contar
histórias fora de contexto.
[1] “The problem
that I want to take up concerns the wooden figurines used in curing. Cuna call
them nuchukana (pl.; nuchu, sing.),
and in Nordenskiold and Pérez text I find the arresting claim that “all these
wooden figures represent European types, and to judge by the kind of clothes,
are from the eighteenth and possibly from the seventeenth century, or at least
have been copied from old pictures from that time”.” (Taussig, 1993:03).
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
La diabolie: o negativo da história social da verdade
REICHLER, Claude. La diabolie. la séduction, la renardie,
l’écriture. Minuit. Paris.
1979.
_____________________.
L’Age Libertin. Minuit. Paris. 1987.
SHAPIN, Steven. A social history of truth : civility and science in seventeenth-
century England. University of Chicago Press. Chicago/London.
1994.
4-
« Le libertin honnête doit savoir préserver
l’autonomie de son for intérieur tout livrant son MOI social aux effets du
dialogisme, et découvrir l’autre dans ses retranchements. » (Claude Reichler,
L’Age Libertin)
Posso jurar dizer a verdade.
Bradar com todas as minhas forças, inclusive aquelas que em nada tem a ver com
os músculos que me permitem falar. O juramento não altera o estatuto do
problema de que dizer a verdade é uma aporia e que jurar não muda seu estatuto
salvo como expressamente aceito. Jurar pertence ao campo performático em que o
que é dito não descreve coisa alguma e que, portanto, não está sujeito a
verificação e, por isso, tampouco ao falseamento. Posso não dar crédito a quem
jura e isso em nada tem a ver com o que se disse – “eu juro” – mas sim com
outra gama de relações. E isto não permite que eu possa voltar à primeira
expressão com maior ou menor felicidade.
“Eu disse a verdade” também
não acrescenta a qualquer descrição informação alguma quando digo; “a língua pirahã opera sem quantificadores”,
ou “não existe avaliação estatística
válida que opere somente com duas variáveis”, ou mesmo “o livro está sobre a mesa”.
Assim sendo,
a ênfase e o juramento só atestam minha convicção e minha disposição em atestar
comprometimento com o que eu disse sem que tenha aprimorado qualquer elemento
rumo a uma maior especificação quanto ao evento ou objeto descrito. De uma
certa forma a sentença original segue no escuro ou, na melhor das hipóteses,
sob a luz disponível. Há quem diga que responder a uma sucessão de proposições
válidas expostas de forma, e na ordem adequadas poderia oferecer algum grau de
correspondência algo satisfatória. Ao mesmo tempo há aqueles para quem o
juramento terá bastado. Ainda assim, há um componente delicado que implicará
numa economia política do discurso pois, se por um lado aceitar o juramento
pode soar ingênuo, por outro lado aceitar a mera existência de algo como
“pirahãs”, “estatística e variáveis” e “um livro sobre a mesa”- o livro, ainda
que conhecido, pode ser uma sorte de gavagai
– atesta igualmente confiança. As sentenças que correm risco de serem aceitas
como verdadeiras são aquelas em que é possível depositar confiança, dar crédito
no sentido rigoroso do termo, servirão para uma troca futura, seja para
utilizar numa segunda demonstração, seja para cobrar a palavra ou a ausência da
mesma, de quem quer que tenha jurado. E é neste nível de elaboração em que
estamos. Importa tanto que uma sentença seja verdadeira quanto ela possa
circular enquanto tal.
Este, quero
crer, é o pano de fundo para uma reflexão que se permite ser uma história social da verdade em que a
justiça a uma determinada sentença é feita na medida em que uma determinada
ordem social se compromete com a boa vida futura.
“Social
order would be impossible unless on were morally enjoined “to stand one’s world
in all promises and bargains”. The foundations of justice was faithfulness, “which
consists in being constantly firm to your word, and conscious performance of
all compacts and bargains”. To be sure, the obligations to keep a promise was
not absolute; for example, if keeping it was likely to injure an individual or
society, one might have no legitimate commitment. And persons “overawed by
fear” or otherwise unfree when they made a promise were not deemed to have
entered into a moral commitment. Yet, like other Greek or Roman social
theorists, Cicero understood that social order utterly depended upon trust
being rightly reposed in morally bound truth-tellers and promise-keepers. Liars
and dissimulators threatened the moral fabric of society: they were “knaves”
and their actions were “attended with dishonor.”(Shapin, 1994:09)
Lembrando
que a dissimulação e a mentira só são uma vez que identificados como tal – o
que demanda haver algum método – é preciso retornar então que enquanto forem
tratadas como verdade, circularão como tal. E é este o território da diabolia
de Claude Reichler no qual o contrato, o acordo é reduzido à mera sucessão de
palavras da parte de alguém que, como num juramento em falso que faz sem
comprometimento interno, subjetivo, com o que foi dito; não juramento falso,
mas juramento EM falso. Falar a verdade, ser reconhecido como tal, caminhar
como um cidadão. Ao sugerir que uma sociedade é uma certa forma de distribuição
dos saberes, do conhecimento implícito do mundo, e que a sociedade opera como
uma certa técnica da razão (me valendo da leitura de Giannotti a respeito de
Durkheim), falar a verdade implica num modo de participação e pertencimento em
uma sociedade específica. Não como determinar imediatamente se estamos falando
de uma determinada sociedade é nacional ou, de outra forma, uma associação de
pesquisadores do cavalo-marinho. A verdade, a despeito da arquitetura soberba
d’A Metafísica de Aristóteles pode
ser somente um vocábulo, um atestado e, por isso, uma moeda de troca.
“Georg
Simmel recognized that truth-telling was “of the most far-reaching significance
for relations among men”, and that social systems varied enormously in their
tolerance for lying and distrust. Very simple societies were said to be
relatively tolerant of untruthfulness, whereas deceit and distrust worked
lethal effects on highly differentiated and interdependent modern societies.
Modern life, Simmel said, “is a ‘credit economy’ in a much broader sense than a
strictly economic sense.” (Shapin, op.cit.:14-15)
Que não se perca o desenho de
vista. Compreender a verdade como moeda de troca e, por isso, implicando-a numa economia política do discurso – como
descrito por Bruno Latour em Science en
Action, ou Laboratory Life (com
Steve Woolgar), ou em Histories of
Scientific Observation, editado por Lorraine Daston e Elisabeth Lunbeck – é
imperativo tomar nota quanto ao sistema de distribuição, isto é, compreender a
rede que o movimenta assim como os dispositivos concernentes ao modo de pôr e
tirar de circulação o que é atestadamente verdadeiro ou, respectivamente,
notadamente falso. Isto leva-nos ao problema de não somente quanto ao saber-saber,
mas também como obstruir e garantir a obstrução de indesejáveis – o que opera
nas variações da censura e da etiqueta. Opera também, e isto não é menos
importante, em uma determinada logística. Esta mesma logística implica não
somente na circulação de discursos, mas de pessoas, coisas e, quando possível,
animais, todos sujeitos à edição e, quando mais grave, censura e até mesmo
excomunhão, como a de Jacque Lacan diante da Sociedade Psicanalítica Francesa.
Isto porque, assim como variam a censura e a etiqueta, variam os relatos que
serão, de alguma forma, postos em graus de confiabilidade – o que seria de “ trust” sem “doubt”? e de “doubt”
sem a crítica, isto é, um método de certificação a posteriori baseada, obviamente, em um sistema a priori?
“Reports
may vary because individuals are differently situated, in space and time (e.g.,
you were not present when the phenomena were on display), because observational
conditions vary (e.g. cloud cover obscured your sight of the comet), or because
others may be observing from different forms depending upon the face which one
looks). One observer or the other may
lack a requisite aid to perception (a telescope or one sufficient quality), or
may, in extreme cases, be suffering a delusionary or hallucinatory condition.”(Shapin,
op.cit.:31-32)
E a condição
alucinante é o primeiro passo para chegarmos a versões algo mais suaves do
problema, para as quais convém chamarmos de interpretações.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Who am I, Jackie Chan? IV - fazendo graça com o que não deve
ASAD, Talal.
Genealogies of religion: discipline and
reasons of power in Christianity
and Islam. Johns Hopkins Press. Baltimore and
London. 1993.
GEERTZ, Clifford. The interpretation of cultures.
Basic Books. Nova York.
1973.
4-
A discussão
a respeito da noção de agência aplicada ao problema da autoria, ou da
propriedade dos efeitos que em metafísica pode ser condicionado ao díptico
causa eficiente/design inteligente assume outras proporções quando a discussão
assume sua forma propriamente jurisdicional. Dito de outra forma, quando o que
está sob observação a mais escrupulosa é exatamente a determinação do poder
soberano, por um lado e de outro, a constituição do ato e do agente criminoso
que tomam à forma de um amplexo os extremos que ativam a identificação
codificada de agentes obsessores, por um lado que recheiam a bibliografia
produzida por Michel de Certeau, Robert Mandrou, Julio Caro Baroja, Keith
Thomas e Sarah Ferber. De outro lado delineia a forma do monopólio da
organização dos componentes psíquicos pela clínica e pelo direito cuja
historiografia de Michel Foucault, Marcel Gauchet, Ruth Harris, Jacques
Donzelot, Christian Phéline, Robert Darmon e os ensaios de Philipp Rieff e O Anti-Édipo de Deleuze e Guattari
descreveram à exaustão. Dito de outra forma, instituem de poder os agentes que
podem, os que não podem e os regimes de existência algo explorados pela
arqueologia foucaultiana e que tem um papel de destaque na composição da
modernidade histórica narrada a partir da linha da secularização. São
operadores de determinação ulterior das figuras presentes nos limites e no além
da jurisdição. É aí que a tensão entre Geertz e Asad atinge seu ápice e, penso
eu, sua maior relevância exatamente porque via Geertz nada parece existir com
maior grau de realidade dado que restrito ao terreno do simbólico – que é o que
existe no lugar de outra coisa numa forma de existência derivada próprias à
definição mais agressiva de semiótica da comunicação humana, e especificamente
humana como ele faz questão de enfatizar no ensaio sobre o impacto de conceito
de cultura no conceito de homem – segundo capítulo de The Interpretation of Culture.
De outra
forma, à maneira de Asad, o universo do discurso sempre sugere franjas e
bordas, ou um mais além da linguagem que define o empreendimento humano de
forma abrangente. Da antropologia também, como crítica e produtora de poder. A
comunicação humana reduzida a si-mesma parece ser condicionada por um projeto
de paz perpétua que acompanha esta forma mitigada de religião natural desde o
iluminismo escocês de David Hume, cuja concretude ou sua evidente falta forja a
principal razão de sua recusa e, no pacote, a recusa da ética implicada na
condução até o ponto em questão.
O itinerário
programado por Asad não é especificamente uma agenda contra-Geertz propriamente
dita, mas contra aquilo que o projeto de Geertz ironicamente representa dado
que demasiado dedicado na reprodução do confinamento e da defesa de uma
religião confinada (Asad, 1993:28), isto é, de uma atividade simbólica de
agência tutelada, o que é uma das especialidades do Estado moderno. Obviamente
que esta é uma forma grosseira de apresentar a antropologia de Clifford Geertz,
salvo se retomarmos a frase. Disse que Asad se indispõe contra aquilo que a
antropologia de Geertz representa, isto é, contrária à versão cômica dos
universais humanos que na forma de antropologia são registrados em livros,
filmes e museus e que, uma vez sumariados compõem um catálogo de traduções semióticas de textos culturais. Rigorosamente
a humanidade emerge como pura mediação com força de agência, é o objeto em
lugar de outro por excelência numa diluição homeopática da eucaristia.
Visivelmente é a contraproposta liberal para as instituições medievais que
eram, antes de mais nada, cristianismo público e não privado. E é esta
alteração que serve de evidência quanto aos limites da definição de religião
via Geertz:
“Let us, therefore, reduce our paradigm to a definition, for, although it
is notorious that definitions establish nothing, in themselves they do, If they
are carefully enough constructed, provide a useful orientation, or
reorientation, of thought, such that an extended unpacking of them can be an
effective way of developing and controlling a novel line of inquiry. They have
useful virtue of explicitness: they commit themselves in a way discursive
prose, which is this field especially, is always liable to substitute rhetoric
for argument, does not. Without further ado, then, a religion is:
(1)
a system of symbols which acts to (2) establish powerful, pervasive, and
long-lasting moods and motivations in men by (3) formulating conception of a
general order of existence and (4) clothing these conceptions with such an aura
of factuality that (5) the moods and motivations seen uniquely realistic.
a system of symbols which acts to…”(Geertz,
1973:90-91)
O
interessante é que Asad cita o elenco em tópicos sem mostrar ao seu leitor o
que é a definição de “definição” para Geertz como se os tópicos bastassem como
representativa de um universalismo qualquer sem se aproximar da postura de
Geertz como autor ou então, mais condizente com a crítica em questão, como
autoridade. Ao fazê-lo parece, contudo, perder o mais importante pois é quando
Geertz se mostra como uma espécie de comediógrafo liberal à forma de Harold
Bloom (Abaixo às verdades sagradas)
ou Richard Rorty (Contingência, ironia e
solidariedade), exímios problematizadores da definição de “definição”.
Afinal, se um símbolo é um objeto que se põe no lugar de outro, uma definição
se presta ao papel de premissa de um ato de comunicação cuja o ápice
performático é o da piada, da comédia. E deixar claras as premissas é uma
postura muito mais importante quanto a universalidade do conceito de religião
proposto do que a definição ela mesma. Até porque o religioso e o simbólico
coincidem nos termos da hermenêutica de Geertz, e Asad sabe disso. A esta altura,
ainda que motivações estejam fora da alçada do presente comentário, é mais
importante descobrir o que Asad que de Geertz mais do que o que Geertz de fato
produziu. E o que Asad demanda é disciplina.
terça-feira, 30 de julho de 2013
Parêntese diabólico: langue et parole
BACHELARD, Gaston. O pluralismo coerente da química moderna.
Rio de Janeiro. Contraponto. 2009 [1973].
DASTON, Lorraine &
GALISON, Peter. Objectivity. Nova York. 2007.
MANIGLIER, Patrice. La
vie énigmatique des signes: Saussure et la naissance du structuralisme. Non & Non, Éditions Léo Scheer. Paris.
2006.
3- Porque falar é
fácil. Difícil é saber do que se está falando.
“On
voit que la célèbre thèse selon laquelle ce
n’est pas l’objet qui détermine le point de vue, mais le point de vue qui
détermine l’objet ne doit pas être comprise comme axiome épistémologique
général, mais comme une thèse déduite de la
nature de l’objet linguistique lui-même, plus précisément du fait que
l’entité linguistique ne saurait exister en dehors d’un acte de l’esprit. » (Maniglier, 2006 :64)
O capítulo
de onde saco esta citação chama-se “la
langue satanique” e nos leva para a primeira reflexão sobre a diabolia de
Reichler, ainda que este seja uma nota de rodapé, um parêntese na reflexão,
sobre não somente a afirmação da diabolia como possibilidade mas de como é
possível que algo como o que sugere o mesmo Reichler seja factível para além de
uma investigação detida sobre a renardie.
Manigliertem como objetivo de seu livro definir quais termos são articulados
pela persona editorial de Saussure e como esta persona – algo semelhante à
figuração da ordem editorial mística de São João da Cruz e seu
editor-discípulo, Diego de Jesus – determina o fato linguístico. E por se
tratar da determinação do que seria o fato linguístico, trata-se de ontologia,
a saber, de uma língua que seja só-linguagem. Esta é a orientação metodológica
de um Ferdinand de Saussure que recusa a imediaticidade do indivíduo
linguístico como se partícipe da história natural de onde se depreende a
relação implicada da zoologia com a filologia – havendo, obviamente, o filo
como uma das escalas da especificação (reino, classe, filo, espécie). O outro
problema está, ao recusar qualquer dimensão da filogenia do organismo na
expressão do sentido, no fato linguístico se precipita em sua forma sincrônica.
O sentido se dá na consciência daquele que fala, cuja arquitetônica prescinde
da história permanente da instituição, algo transcendente, vindo a ser então
só-atualização – e é neste ponto em que a linguagem seja só-linguagem, podendo ser abstraída de quem fala sem que o que fora dito seja determinante, permitindo ao linguista utilizar a mesma linguagem para sua atividade científica. E então, um tropeço
fortuito. Porque o objeto da linguística não estando desde já, lá, é lá que ele
deve-estar.
“D’autant
que la linguistique non seulement ne saurait finir par trouver un objet donné, mis ne trouve même le
« point de départ » dans aucune réalité donnée. Par là elle perd tout
caractère expérimental. Les sciences expérimentales supposent non seulement
comme horizon la séparation du donné et du construit, mais aussi un donné qui,
aussi mal découpé soit-il, n’en est pas moins donné en dehors de toute
opération d e l’esprit. Le biologiste utilise un tissu donné, pour mettre en
évidence, par de procédés de coloration ou d’électrification, une
cellule ; le chimiste par d’une substance donnée, pour l’analyser et faire
apparaître s nature chimique. Quelle est la substance du linguiste? » (Maniglier, 2006 :66)
Se o
estruturalismo é uma forma de problematização, como Maniglier sugere com razão,
então ele mesmo se esquece da história e de algumas das questões postas por
este mesmo estruturalismo que não é um método, não é uma escola, mas uma
postura epistemológica. No caso, as fontes da reflexão sobre a objetividade
científica que define o caráter estrutural dos objetos a serem investigados por
via da correlação dos termos que oferecem seu conjunto como agremiação
estabelecendo, assim sua determinação. Dos capítulos do estruturalismo que
Maniglier negligencia, e que merecem atenção por estarem muito bem sumariados
em História do Estruturalismo de
François Dosse, presente em sua bibliografia, o mais marcante é a ausência de
Bachelard cujo livro O pluralismo
coerente da química moderna define com notada clareza os elementos
constituintes de um racionalismo aplicado, em muito desdobrado da longa
tradição da versão cartesiana da astronomia. É ela quem se dedica ao problema
dos corpos celestes que, de acordo com a mecânica geral das órbitas, sugere que
eles devem estar lá, num determinado momento, em uma determinada posição
infinitesimalmente distante, invisíveis a uma investigação telescópica. Assim,
são objetos que começam a ser oferecidos ao discurso segundo uma concepção
estrutural de objetividade posteriormente sintetizada na noção fregeana de begriffschrift (“escritura de
conceitos”) em que o pensamento em sua expressão deve ser incluído na
circunscrição do objeto como problema constituinte.
“Meant to guarantee the communicability and therefore the objectivity of
arithmetic and logic, the begriffshrift
itself proved opaque. Frege nonetheless
insisted on the scientific utility of his symbols, which he saw as the partial
realization of Leibniz’s dream of characteristic
universalis and as potentially extendable to other sciences, such as
mechanics and physics. The begriffschrift
would be a tool of structural objectivity, a shield to protect logic and
arithmetic from both the psychological and the psychologists – at one point, he
feared psychology would swallow up all sciences.” (Daston & Galison, 2007:271)
Não basta
estar lá para ser alvo de uma investigação que, ainda que experimental, demanda
clareza de expressão, premissa tanto
epistemológica quanto sociológica na medida em que boa parte do esforço de
redação científica moderna é uma grande epistolografia entre desconhecidos a
respeito de um assunto comum, tema a ser estabelecido na mesma medida que
independente daquele que disserta a seu respeito em um determinado momento.
Unidade de medida, instrumentos de laboratório e descrição de substâncias em sua
invisibilidade leva à elaboração de um código, uma caracterologia universal que
define cada objeto em sua generalidade, numa formulação mais geométrica que
empírica (Daston & Galison, op.cit.). E na química este mesmo movimento,
composto elo arco narrativo sobre os elementos químicos, de Lavoisier (ao redor
da Revolução Francesa) até Mendeleiev está devidamente marcado. Não
surpreendente, o ato de identificação do objeto, ao contrário do que sugere
Maniglier, não é o dado apreensível, ou da investigação empírica imediata.
“Já não se trata de uma experiência sempre
focalizada no indivíduo ou na espécie, mas sim no gênero. Isso vai determinar
uma renovação nominalista que fará da nomenclatura química um verdadeiro método
de conhecimento. Nomear servirá mais para conhecer do que para reconhecer, e a
própria classificação das substâncias elementares se mostrará movida por um
pensamento ativo que designa um lugar regular para um objeto antes de encontrar
esse objeto.”(Bachelard, 2009 [1973]):23)
Agruras do
infinitesimalmente grande, do infinitesimalmente pequeno e do humanamente
instável. Saussure está longe de oferecer, como parece afirmar Maniglier, um
percurso afastado das ciências experimentais dado que um e outro, segundo
aquilo que ele mesmo oferece como traço distintivo, travam uma batalha feroz
para determinar o objeto que deveria estar-lá.
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