Então, uma linha é desenhada no mapa
cujo torneio define uma zona para além da qual
a regência é a salvação
onde busca-se refúgio.
Há quem chame esta disciplina,
a que agracia os eleitos,
de soteriologia, soteropolitanos.
Outros,
de política migratória em tempos de guerra.
Custa saber a diferença quando a linha cristã exige
livret cristão,
a cidadania operária para entrar no paraíso.
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quarta-feira, 25 de novembro de 2015
domingo, 30 de novembro de 2014
MÔNADA, díade, tríade, tétrade: números inteiros.
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Era somente um. Numeral. Ponto. Não que seja coisa simples,
digo, algo próximo de um número inteiro. Próximo, porque nunca foi algo que eu
pudesse olhar no espelho e garantir, mesmo que fosse no espelho que eu já
considerei enorme, na porta do armário do quarto de mamãe. De qualquer forma,
cresci com esta marca que, até onde sei, sempre foi mais ou menos comum. Minha
primeira visita em um parque de diversões a interdição do prosseguimento do
movimento da fila para entrar na montanha-russa sempre vinha com a instrução de
que nem mais uma criança entraria e que teríamos que esperar pela próxima leva.
Muitas vezes fui sozinho, outras fiquei para trás enquanto meus amigos se davam
as mãos, dois a dois, gritando o que outra vezes gritei com eles – a mais longa
e alta vogal que eu pudesse encontrar garganta adentro. Com gosto. Não somente
eu mas
Cada
Um
De
Nós.
Hoje eu
concordo o número da frase com algum receio de estar errando. Poucas vezes tive
a impressão de que de alguma forma vivi como mais de um, em algum mecanismo de
acoplamento marginal que engata o enunciado num caldo só, devidamente temperado
pela circunstância. Não que se deva confiar em coisas como “a memória” ou mesmo
“a primeira vez em que percebi isso”. Nem um, nem outro farão nada por mim ou
por esta prosa sobre números inteiros. Não tem nada a dize sobre este que é um
assunto meramente geométrico e, desconfio que o papel que se pode atribuir, ou
mesmo usufruir nestes dois termos em nada tem a ver com um garante narrativo ou
qualquer outra coisa que possa ser dita. Enfim, dizemos para manter a banca da
casa e fazer com que haja movimento, mas no limite não são importantes, nem a
memória faz, nem a primeira vez em que percebi isso. O que importa é que nós só fez inteiramente sentido quando
meu irmão e eu resolvemos roubar o pequeno supermercado que existiu no galpão
ainda existente a pouco mais de meio quarteirão de onde ainda moro. Fugir e,
principalmente, ser pego. Diria então, “eis o momento em que pude perceber que
éramos nós”, mas não é nada disso. O que é efetivo é que hoje sinto que este é
um “nós” plausível, especialmente na instância da fuga que até hoje persiste
dado que não só mascamos todas as gomas de mascar como redundamos em manter o castigo
que se abateria sobre nós à distância. Em qualquer combinatória, vale dizer,
seríamos nós. Eu pego e ele não, a delação possível e, então, o medo da
delação. Nós dois pegos. 4 alternativas
e em todas elas, nós. Nós dois. Que digam algo sobre a paixão, o sexo, a
amizade como produtor desta unidade dual. Que interfiram recusando o resto
desta prosa, não me incomodaria em nada porque a paixão é o momento da fuga,
eterna enquanto dura. Enquanto houver o furor da existência ardente da
contraparte, e for paixão, o sentimento é aquele que atravessa o corpo de
alguém que, em trânsito em provável fuga de seu país, chegando em um hotel no
estrangeiro com os olhos arregalados e respiração ligeiramente ofegante o
atendente pergunta, sorridente, se está fugindo e incapaz de compreender a mais
sutil ironia, esvaziado do senso de humor. Foi pego mesmo que por um segundo;
pegaram seu comparsa; desbarataram a operação – vi meu cúmplice (ah, a
cumplicidade dos casais) sendo preso ao assistir a televisão e logo percebi que
seria e minha vez, logo em seguida e estaríamos, nós dois, presos. Nós dois, não
importam quantos. Nós é dois. Eles, três. Foi assim que me cercaram e agora,
escrevo da prisão, à huis clos.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Notas desde atrás dos muros: os espaços da fé e território como problema de teologia política.
CERTEAU, Michel de.
Le lieu de l’autre : histoire
religieuse et mystique.
Gallimard/Seuil. Paris. 2005.
ECKHART, Mestre. O
Livro da Divina Consolação e outros textos seletos. Vozes.
Petrópolis. 1999.
EISENBERG, José. As
missões jesuíticas e o pensamento político moderno:
encontros
culturais, aventuras teóricas. UFMG. Belo Horizonte. 2000
SCHMITT, Carl. Théologie politique. Gallimard. Paris.
1988.
WILDE, Guillermo. Religión y poder en las misiones guaraníes. Editorial Sb.
Buenos Aires. 2009.
5-
Há que se
perguntar se seria ofensivo tentar medir a dimensão em que a mística jesuíta é,
por fim, o recurso à encenação que antecipa a Autopsicografia de Fernando Pessoa. E de alguma forma é o que
parece apontar o curto ensaio de Michel de Certeau sobre Ignacio de Loyola e
seus Exercícios Espirituais. Não é a
primeira vez que o historiador jesuíta recorre ao expediente da simulação para
compor um quadro acerca da mística. E que o recurso à encenação tem faces
diferentes a depender da escala em que a mesma impõe. Que a administração dos
exercícios do espírito ao que faz o retiro não é a mesma coisa que a
administração das almas na organização das missões – em termos nos quais
organização ressoa no conceito de redução,
isto é, a vida urbana cristã em versão miniatura ou, de outra forma, reduzida
aos traços essenciais – caricatura? Relativo à formação de agrupamentos
característicos das missões guaranis no Paraguay dos século XVII e XVIII:
“La fundación de un pueblo
expresaba, en la visión de los jesuitas, la instauración de un verdadero orden
cristiano. En esa singular visión, la idea de civilidad era intrínseca la de la religión católica. De allí que la
“reducción” fuera básicamente reducción
a vida política y cristiana. Pero el dominio no se ejercería únicamente en
el nivel del urbanismo, sino también en de los cuerpos pues, en última instancia,
la ciudad era una reproducción en escala macro des cuerpo humano y sus partes.
De allí que el uso de los lugares, las vestimentas y posturas corporales fuera
objeto de estricta vigilancia y control (Hespanha, 1994:95). La geografía
visual de los pueblos se ve reforzada por los castigos corporales y la
mortificación de los cuerpos, prácticas que ya aparecen prefiguradas en los Ejercicios Espirituales de Ignacio de
Loyola (Barthes, 1997).” (Wilde,
2009).[1]
A passagem citada do livro de Wilde faz
uma manipulação delicada, digo, põe as mãos num arquivo que de fato se dedica
aos textos que descrevem a administração das missões guaranis no Paraguay, as
meninas dos olhos de Lafitau e outros tantos jesuítas. Assim como Eisenberg
(2000), lê as cartas jesuítas com a finalidade de investigar no detalhe a
imaginação administrativa e seu percurso na própria administração da vida
missionária que, obviamente, inclui as populações guaranis. Mas a manipulação
mais delicada, que Wilde faz desdobrar do trabalho de Barthes sobre Ignacio de
Loyola, sugere uma certa imaginação comum entre a administração da alma de
outrem com a alma própria, fazendo coincidir o governo de si com o governo dos
outros. Este desdobramento confere apressadamente razão à fórmula de Carl
Schmitt (1998) que define secularização como desdobramento dos conceitos
teológicos em teoria moderna de Estado. Sugere, sem considerar a mudança de
escala entre si e outrem, identidade entre os exercícios a despeito da mudança
de escala ao mesmo tempo que, no mesmo espírito em que consideram sem fazer
qualquer menção a força da sugestão de que um documento administrativo é tão
católico quanto o poderia ser um texto místico; ou da mística. E vice-versa.
É temeroso fazê-lo, contudo, a partir de
textos secundários e não a partir da fortuna jesuítica. Contudo, como o que
está em questão é a elaboração e aprofundamento de um problema em questão – o
lugar do outro como um problema de teologia política -, é possível que este
movimento seja válido mesmo que de forma meramente tentativa. E assim é preciso
aprender a medir a distância entre, por exemplo, as cartas jesuíticas e um
documento como os Exercícios Espirituais
de Ignacio de Loyola. O retrato que José Eisenberg (2000) faz do fundador da
Companhia de Jesus merece, talvez, uma leitura mais cuidadosa. Até porque o que
faremos é, por enquanto, uma mirada desde a mirada alheia, uma forma muito fiel
ao espírito jesuíta.
Eisenberg dedica o primeiro capítulo de
seu livro ao noster modus operandi
que tem sua introdução na vida do cavaleiro Iñigo de Oñez y Loyola que, ferido
em 1521 em uma batalha contra os franceses em Pamplona, retirou-se para o
castelo em Loyola em fins de recuperação. Sugestivamente, o seu castelo, quando
e onde leu Vita Christi de Ludolfo da
Saxônia e Flos Sanctorum de Jacobus
de Voragine, sobre a vida de Jesus Cristo e a vida dos santos, respectivamente.
Que seja marcado ser uma leitura que tenha conduzido Ignacio à vida religiosa,
passagem enunciada pelo próprio Ignacio em sua Autobiografia e aceita por Eisenberg sem mais; é pouco razoável que
seja, contudo, uma bibliografia suficiente, ainda que adequada para o tipo de
narrativa de descoberta vocacional. É no ano seguinte que, já no esforço de
desvencilhar das marcas do cavaleiro Iñigo na vida fora da rota de Manresa que
Ignacio lê Imitatio Christi de Thomas
à Kempis, livro que parece emprestar à teologia política o lugar que a mimese
merece. Esta é a cidade em que redigiu seus Exercícios
Espirituais que, não obstante as inspirações já anotadas tem filiação nos
escritos do abade Garcia Cisneros com quem ele havia travado contato no
mosteiro de Montserrat no ano anterior. De cavaleiro a peregrino sem nunca ter
deixado de ser, nem um, nem outro. A viagem à Jerusalém, cidade que lhe recebe
no outono de 1523 reforça isso.
A alcunha de alumbrados aos seguidores de Ignacio por via da leitura e prática
dos exercícios é um capítulo à parte a ser melhor descortinado por leituras
futuras, especialmente pela ressonância que o termo tem com a fortuna dos iluminados da era moderna
particularmente justificável como hipótese tanto pela constância de
intelectuais iluministas formados em redutos jesuítas – como Dennis Diderot –
quanto pela forma pela qual a articulação entre o governo de si e o governo dos
outros se dá como uma espécie de relação serial. Os efeitos propriamente
políticos desta forma de governo de si toma a forma, antes de mais nada, de
perseguição dado o fato de os exercícios oferecerem um desafio ao ministério
dos sacramentos. Ignacio foi encarcerado, vindo a ser absolvido quarenta e dois
dias depois pela Inquisição. Liberto, sai de Alcalá para ir à Salamanca, onde
seria preso mais uma vez.
Michel de Certeau (2009), em L’espace du désir sugere como síntese
algo que pode oferecer algumas das razões de Ignacio ter sido diversas vezes
preso em centros de ortodoxia teológica de forma a ser acolhido somente no
Collège de Montaigu, na Paris de 1528 – onde figuras como Erasmo e Lutero
também cumpriram etapa de formação. Vejamos:
“Esta
“maneira de proceder” é uma maneira de dar lugar (faire place) ao outro. Ela se
inscreve então, ela mesma no processo em cujo ela mesmo fala, a partir do
“princípio” e que, em seu desdobramento total, consiste em seu texto dar lugar
ao “Diretor”; do diretor, dar lugar ao retirante; deste, das lugar ao desejo
que lhe vem desde o Outro. Deste ponto de vista o texto faz aquilo que diz ao
se formar ao se abrir, sendo produto do desejo de outro. É um espaço construído
para este desejo.” (2009:247)
O desejo que
mostra sua forma em uma apresentação algo psicanalítica é desdobramento do volo, ou vontade, volição do texto de
Ignacio. O ensaio de Certeau reitera a relação que o discurso que manifesta a
volição, ou no caso, o desejo pelo Outro como a forma de considera-lo como
princípio fazendo com que aquele que se exercita tenha como epicentro de sua
atividade o destinatário da ação. O que faço aqui, faço com vistas em Deus –
fórmula que parece responder com alguma precisão algumas das prescrições do Livro da Divina Consolação.
O destinatário
da ação implica que a ação cumpre um itinerário. E este itinerário cumpre ser,
por sua vez, o postulado de um “Fundamento” no qual se prevê a premissa do
valor do itinerário sem que o mesmo tenha etapas pré-definidas como verdade substantiva. É, de
outra forma, um esquema de movimento
(op.cit.:244) que parece responder a algumas premissas coreográficas que compõe
a metáfora dramatúrgica que inundara a vida intelectual ibérica no alvorecer da
sua era moderna particular. É, de outra forma, uma partitura cujo primeiro fora para o qual aponta é para fora do
texto que, em si, não contém nada de especial.
“Os Exercícios fornecem somente um conjunto de regras e de práticas relativas às
experiências que não são descritas e tampouco justificadas, que não são introduzidas
no texto cuja representação não se faz em parte alguma pois são exteriores ao
mesmo dada a forma do diálogo oral
entre o instrutor e o retirante, ou da história silenciosa das relações de Deus e seus dois
correspondentes.” (op.cit.:239)
Da orden de proceder à noster modus procedendi há
uma variação pronominal nada pequena. E esta variação parece encenar a
diferença entre os Exercícios Espirituais e as reduções
que, todavia, respondem pelo mesmo apelo jesuíta. Os exercícios ocupam àquele
que se presta ao retiro por quatro semanas, ou quatro atos, nos lembra Michel
de Certeau. O tempo de retiro é composto em topoi,
composições de lugares de toda sorte
– que mais tarde se desdobram nos exercícios mnemônicos como os palácios da
memória eternizados por Matteo Ricci – divididos nas semanas correspondentes.
Um itinerário. Devem haver lugares
tradicionais de prece; cenários
artificiais com motivos de meditação; composições
gestuais; indicações sobre a iluminação de lugares específicos, como a escuridão
da terceira semana e a claridade, na quarta; trajetórias de retorno e reprise; simulações que demandassem ao retirante estivesse em outras disposições
e situações, como de humor ou se morto. Michel de Certeau chama de não-lugar o que me parece, no final das
contas, a ênfase na negação do ali
como dêitico de lugar. Por exemplo, a Espanha que não acolheu os esforços
primeiros de Ignacio de Loyola, ainda que louvassem a fama do cavaleiro Iñigo
que não encontrou outra coisa para ler em seu castelo que não fossem histórias
exemplares.
[1] A bibliografia citada por Guillermo Wilde é
proveniente de Las categorías del político
y de lo jurídico en la época moderna
de António Manuel Hespanha na revista Ius
fugit (3-4) e do livro de Roland Barthes Sade, Fourier, Loyola. O capítulo de Wilde disserta sobre a civilização dos pagãos guaranis, o que de
qualquer forma significa conversão ao cristianismo.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
O lado onírico que dá na mesma
“Bom.
Acho que não me fiz claro.” – disse com a força de quem havia acordado de um
sono longo transbordando convicção. A bem da verdade, tinha o hábito de dormir
em meio às conversas somente para poder, em manobras sutis de manipulação da
mente, interromper o falatório num despertar súbito com alguma intervenção
precisa oferecendo a resposta mais adequada, o comentário mais decisivo ou mesmo
somente a informação correta mesmo no mais delicado dos detalhes: “3 dias
depois, 5 dia antes e 2,5 litros de água jogados de uma altura de 15 metros”.
No caso, o assunto era outro, e sempre era outro. Havia dormido em plena
conversação, tomado por uma espécie de torpor que já lhe era habitual, vindo a
adormecer todas as notas musicais que permeiam a indócil música da perda de
tempo usual das conversas inúteis. Escusado dizer que quase já não tinha
amigos, que seus hábitos se transformaram em uma atitude hostil e que, ainda
que preciso e, em determinadas horas quase que necessário, aos poucos sua
narcolepsia premonitória o jogava em um estágio eremita de articulação social
no qual tudo era quase a solidão relativa de seu pequeno apartamento, meia
dúzia de encontros amorosos, uma outra dose de lembranças mais ou menos
presentes na forma de encontros em bares e cafés, e a dose de cobranças
manifestas em envelopes brancos e largos preenchidos com todo tipo de conexão
entre bens e serviços. Cacofonia era prenúncio de sono e de, também, alguma
nova solução seguramente tomada com um tom de voz e uma conduta considerada
mais ou menos inconveniente. “Se não me fiz claro da primeira vez, vai a
segunda, em nome da sua burrice”. Estapeou um dos assaltantes que logo lhe
acertou o fígado com mais um tiro descuidado, dando tempo para que seu filho fugisse,
dobrasse a esquina e perdesse contato com o evento atormentado que significou
mais um episódio de sono de seu pai. No velório, em meio ao bavardeio
impenitente que ora e vez assombra as beiradas de caixões, o óbvio aconteceu.
Nada. "Morrer e dormir não é a mesma coisa. Esqueça".
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Com a carne trêmula
Acordar
do sono que não veio ainda e revelar o sonho não sonhado, sabendo-se ser ausente
da justa medida e deixar seguir adiante exatamente aquilo que se quer conter. Mover os olhos para
os lados perseguindo o objeto impossível que só faz fugir desde a inauguração
do afeto. Agarrar pelos braços, não o tenro toque pleno do vôo, mas os braços
mesmos que não podem, não devem voar e, tampouco, impedir que o afeto siga,
doce e pleno, no vento que ele mesmo produz. E voa. E o que resta é uma escrita
sem figuração em que os lábios umedecem ao odor de outrem ao ler um bilhete
solto na brisa aonde, em redação honesta deixara como rastro uma simples
palavra, “beijo”. Nem despedida e nem promessa, o ato mesmo feito à forma em
que o gesto não trai a palavra e se faz assíntota fazendo emergir o momento em
que não se imagina mais nada, não se dorme, não se acorda. Meramente, acontece, ainda que não.
* * *
Em sua ocorrência
diária, toda história quotidiana necessita da linguagem em ato, do discurso e
da palavra, da mesma forma que uma história de amor é impensável sem ao menos
três palavras – tu, eu e nós. Em seus múltiplos correlatos, todo acontecimento
social repousa numa prestação preliminar ou concomitante de comunicações linguísticas
(langagières). Instituições e organizações – desde a mais simples associação, até a
ONU – aí têm seus recursos, sejam em forma oral, sejam em forma escrita.
(Reinhart Koselleck; L'Experience de l'histoire.)
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Notas do subterrâneo: Livros que ensinam a ler.
KARDEC, Allan. Spiritisme expérimental – Le livre des
médiums ou guide des médiums et des évocateurs contenant l’enseignement spécial
des esprits sur la théorie de tous les genres de manifestations, les moyens de
communiquer avec le monde invisible, le développement de la médiumnité, les
difficultés et les écueils que l’on peut rencontrer dans la pratique du
spiritisme. Didier. Paris. 1862.
BORREIL, Jean et.
al. Les sauvages dans la cité :
auto-émancipacion du peuple et instruction des prolétaires au XIXe siècle.
Paris. Champ Vallon. 1985.
“On
se tromperait également si l’on croyait trouver dans ce ouvrage une recette
universelle et infaillible pour former des médiums. Bien que chacun renferme en
soi-même le germe des qualités nécessaires pour le devenir, ces qualités
n’existent qu’à des degrés très différents, et leur développement tient à des
causes qu’il ne dépend de personne de faire naître à volonté. Les règles de la
poésie, de la peinture et de la musique de ceux qui n’en nt pas le génie :
elles guident dans l’emploi des facultés naturelles. Il en est de même de notre
travail ; son objet est d’indiquer les moyens de développer la faculté
médianimique autant que le permettent les dispositions de chacun, et surtout
d’en diriger l’emploi d’une manière utile lorsque la faculté existe. Mais là
n’est point le but unique que nous nous sommes proposé. »(1862 :VI)
Este é um
dos parágrafos de abertura do livro dos médiuns redigido por Allan Kardec, cuja
função, e a noção de função é sobremaneira importante, é a de orientar a
formação de novos médiuns, assim como levar adiante o desenvolvimento dos
médiuns já em atividade. Um meio para promover médiuns é, para além da
redundância do conceito, uma nota a ser considerada sobre a formação de uma
rede de mediações. Não tendo contraído, este trabalho, nenhuma dívida com a
noção de rede das mais difundidas a partir da obra de Bruno Latour, com a
exceção do emprego da noção própria, a de rede, não há alternativa senão fazer
ressoar aquilo que o próprio termo, o que o conceito mesmo, produz. No caso,
aponta para mediações. Não é preciso ir muito longe. O médium é o meio. Meio
termo, meio caminho, intersecçor. No Cours
de Linguistique Générale de Saussure, o meio é o signo na forma do
significante, que se interpõe entre o significado e a coisa, o que é algo
semelhante à conduta da semiótica na qual é signo é o que se coloca entre o
objeto e o interpretante, no caso levarmos à sério a designação de Charles
Sanders Peirce. É o caso. Desde o começo, este trabalho diz respeito a um
episódio em que é a virtude e os vícios dos meios que oferecem a cena da qual
parti e para a qual, aos poucos, devo voltar apontando algumas das não poucas
aporias da mediação, mais especificamente de quando da precipitação do que
Carlo Ginzburg chama de emergência do paradigma indiciário. De uma forma geral,
segue impondo o problema da presença daquilo que acontece, do que age à
distância, e o tipo de problema desencadeado exatamente pelo interpretante que,
mais do que simplesmente interpretar, interpreta sua forma de interpretação em
uma forma de hermenêutica de segundo grau que tanto interessa Hans Ulrich
Gumbrecht e sua definição de modernidade epistemológica (1998). Interpretar não
basta, e interpretar o símbolo não é o suficiente. É necessário interpretar a
interpretação e o interpretante, o que nos permite, em filosofia, tecer
analogias com David Hume, Immanuel Kant e mesmo René Descartes. É significativo
que todos eles tenham sido apontados como uma base para a reflexão sobre os
meios, seja com relação à sua parcialidade com vistas nas associações
analógicas, seja com relação às suas condições de possibilidade com vistas na
razão, ou mesmo fazendo coincidir o meio como o caminho, como método.
A felicidade
de lembrar de Descartes e a noção de método é enorme exatamente porque o livro
de Kardec segue aquilo que é sua marca como redator de cursos e ditados de
diversas disciplinas de quando, ainda assinando o nome Rivail, exercia a
atividade de pedagogo. Rivail era autor de manuais para formar auto-didatas num
tempo em que a mera proposta deste tipo de trabalho oferecia um desafio a um
componente da autoridade da ordem pública, uma certa imagem da figura do
professor. Não muito distantes da Revolução Francesa, a mesma que destituiu
juízes, padres e toda sorte de mediadores de seus cargos dissociando autoridade
e poder, um projeto paralelo e igualmente ambicioso toma forma, ocupa lugar.
Jules Michelet escreve, em uma carta de 1850, sobre a ausência de condições de educar
o povo sobre quem tanto escreveu das mais diferentes formas. Sendo ele o
redator de uma Histoire de la Revolution
Française em que a tomada da Bastille é narrada com sinais que fazem
confundir Graça, Predestinação e Vontade Geral, Michelet seguiu preocupado com
a educação popular que não se movia do lugar, mesmo a uma distância
suficientemente grande do momento revolucionário original. Charles Renouvier,
ainda em 1848 já clamava por uma população que contasse um legislador, um
cidadão, fazendo coincidir um e outro na mesma figura, produzindo a marca da
catequese civil que ele mesmo redigira. O limite, aquilo que configurava o
horizonte inultrapassável era o índice altíssimo de analfabetismo que, somado à
carência de instituições de ensino, ameaçava a utopia republicana com um cerco
cada vez mais opressor. O futuro parece não chegar, apesar da revolução tardia
de 1848.
O mesmo ano
de 1848 data a redação e envio de uma carta redigida por Rivail e remetida ao
ministro da Instrução Pública, Carnot, na qual se formaliza a demanda pela
universalização da oferta da Educação Livre, isto é, para que as disciplinas
universitárias pudessem sair do monopólio da igreja católica fazendo com que outras instituições produzissem uma nova oferta. A atividade de Rivail, junto a isto, acumula no curriculum uma
série de publicações destinadas à instrução de auto-didatas.
Cidadãos-legisladores, diz Renouvier; Roman Chapelain redige uma história
abreviada do direito constitucional francês, conduzido o leitor à síntese do
tempo jurídico pois, afinal, o leitor deve conseguir legislar. Mas, leitor?
Esta
pergunta, ¿leitor?, está presente em uma safra de historiadores do porte de
Roger Chartier, Jean Hébrard, Jean-Yves Mollier e Carlo Ginzburg, pois das
fontes bibliográficas que lemos e a força que tem em nossa imaginação do tempo
passado – que provavelmente não foi passado por ninguém -, a pergunta relativa
a “quem é que de fato lia?” assume novos contornos quando levamos à sério a
inquietação de Michelet que, a despeito de quaisquer poréns com seu entusiasmo
com a Revolução Francesa, era atento e observador com aquilo que o cercava. E o
que o cercava era o povo, o mesmo que merecera a dedicação do porte de
obras-primas historiográficas, como Le
Peuple e La Sorcière, este um
livro que não creio me cansar de elogiar. Este povo, elogiado por um sem número
de elogios era, à luz dos tempos das Luzes, ignorante porque analfabeto. Sem
escolas suficientes e sem um esforço prioritário em transformar o cidadão num
conhecedor íntimo das leis e da administração da República que aparecia e
desaparecia do horizonte, a imaginação pedagógica mais do que vislumbra,
desenvolve a pedagogia do mestre ausente.
Seguramente
que a ausência do mestre pode ser medida em formas de responsabilidade, como a
da extinção e, posteriormente, lenta reincorporação das instituições de
instrução católicas. Ainda assim, a noção de universalização do ensino se
transforma, mais do que numa pauta, em algo que soa necessário ou, no caso do
exercício espírita, o próprio destino humano em seu flerte desencontrado com a
inteligência e coma sabedoria. Com o
mestre ausente e com o tempo acelerado em que, por decreto todos somos
modernos, os livros que ensinam a ler deixam de ser mera elucubração para se transformar,
a partir dos esforços de Joseph Jacotot, num meio de produzir a república.
Livros que ensinam a ler.
Não são
poucos os pressupostos e meandros técnicos que instituem livros assim, e alguns
deles merecem uma investigação mais profunda do que uma introdução ligeira ao
tem oferece. Mas, seguramente merece atenção o fato de que todos as requisições
deste tipo de projeto, todas as sutilezas que fazem do livro para auto-didatas
um gênero específico, estão presentes na produção de Rivail quando, mais tarde,
assina por Kardec. Livros para auto-didatas ensinam o método do método, o mode d’emploi do mode d’emploi, especialmente quando o que se usa é soi-même como meio de alguma outra
coisa, sejam espíritos, o alfabeto ou mesmo a República que, por diversas
razões, insiste em não chegar e, quando chega, chega com ares de quem vai
partir.
(alguns detalhes sobre Joseph Jacotot, esse ancestral do Instituto Universal Brasileiro, está no capítulo redigido por Patrice Vermeren de Les sauvages dans la cité chamado, sugestivamente de Rien n'est dans rien ou tout le monde sait la logique.)
Postado por
Refrator de Curvelo (na foto do perfilado, restos da reunião dos Menos que Um)
às
07:39
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