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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Notas da Torre de Observação: La faiblesse de croire


DE CERTEAU, Michel. La faiblesse de croire. Seuil. Paris. 1985.

Serão cinco anos envolvido com a mesma pesquisa. De uma forma geral eu tenho evitado fórmulas expressas que definam movimentos abrangentes, com envergadura muito maior do que consigo, de fato, cobrir. Ainda assim, quando li o artigo de Michel de Certeau sobre a moralidade das práticas e que ele faz um passeio peculiar sobre a França moderna, o mesmo De Certeau sugere uma passagem interessante que em muito tem a ver com as correntes marinhas mais profundas para as quais quero chamar a atenção algum lugar do futuro, quando souber fazê-lo. Ao descrever uma série de transformações que acompanha parte de uma historiografia consagrada sobre a modernização das instituições que conta com nomes como os de Lucien Febvre e Robert Mandrou, em um dado momento leio a passagem que afirma a transformação não tão lenta assim das considerações sobre heresia e seu risco para a ordem do mundo sendo lentamente transferidas para a problematização da alteridade. A modernidade, aqui, marcaria a cessão da forma territorial da igreja para a constituição do espaço administrado com vistas na otimização das relações de governo em que o cálculo dos prejuízos das guerras civis, enormemente marcada pela empreitada das guerras religiosas, transforma em ordem civil alguns dos predicados que poderíamos encontrar na Lettre sur la tolérance de Voltaire. Nisso, o movimento de reconhecimento da pluralidade religiosa fortemente tematizada nas sessões parlamentares sobre a liberdade de culto público durante a Revolução francesa confere à divergência religiosa o pressuposto de diversidade de opinião. O primeiro efeito disso, desejaria o Iluminista de primeira hora, seria de exterminar com a justificativa religiosa para a violência de larga escala.
            Ao ter o discurso e a vida religiosa mitigada ao plano da variedade das formas de vida presentes a serem administradas por uma outra estância, impessoal e terrena, a interrupção fundamental da coesão doutrinal chamada heresia é diluída junto com o peso da doutrina professada. Nada mais de casos como a dos valdenses ou dos cátaros, e nada mais de massacres em nome da cruz, reduzida a mera justificativa. Há quem goste de chamar este período de democratização e, outros, do gérmen da pluralidade religiosa. Como não sou bom em prognósticos retroativos, prefiro chamar este movimento de criação de um novo problema. A questão das seitas religiosas e a suspeição ao seu redor constitui um outro desdobramento a ser considerado nesta história, a mesma suspeição de toda forma de experiência que não pode ser livremente comunicada, como a loucura, a epifania, a certeza e, porque não, o amor.
            O tratamento daquilo que o Estado francês – que em meio ao século XIX se encontrava em desabrida instabilidade dado à sucessão de processos revolucionários que reforçaram a tese de repúblicas repressoras e monarquias algo mais condescendentes – opera de forma particular ao dar vazão à acusação que utiliza o vocábulo seita. Na verdade, parece haver uma tensão entre a declaração que afirma todos serem irmãos diante Deus e a Natureza, signo de universalizado, inclusive do ponto de vista da mediação técnica na generalização da pedagogia de massa, contraposto ao nacionalismo de igreja que tanto parece se esforçar em encontrar o estrangeiro como agente fora-da-lei, e vice-versa. O estrangeiro figura como inimigo e, nos momentos específicos, como falso filho da pátria, isto é, como traidor que somente pode sê-lo na medida em que pode ser descoberto – porta uma identidade falsa, ainda que seja nascido na França e filho de franceses numa linhagem de quinze gerações. E aquilo que parece precisar de um severo descortino das camadas de arquivos para demonstrar as implicações tem, numa determinada passagem de Michel de Certeau, um desenho que quero compreender melhor dado que considero promissor. Trata-se do ensaio de abertura de La faiblesse de croire, do ensaio chamado Une figure énigmatique. A tradução é minha. Desculpem.
           
            “A atualidade dá à vida religiosa uma nova fisionomia. Os religiosos e religiosas heroicos, veneráveis, odiosos ou excepcionais, povoam a história. Todavia todos parecem portar um sinal que assusta. Como o padre, ainda não exatamente pelas mesmas razões, o religioso intriga mais do que provoca temor ou respeito. Ele se junta ao selvagem e ao feiticeiro no Folclore que é o próprio interior da França. Sua personagem tem mais valor como enigma do que como exemplo. Porta a figura da estranheza, ainda que ambígua que designa a cada vez um segredo importante e um passado revolvido. Ele fascina como qualquer coisa escondida ao mesmo tempo em que tem o estatuto de objeto obsoleto, tal como uma relíquia de sociedades desaparecidas. Quem é esta, a figura enigmática? “(1987:25)

            De acordo com o signo da estranheza, do que é escondido, a figura selvagem do estrangeiro mesmo que em seu próprio país, ou do campagnard sorcier presentes no arco de estudos que vão desde Jules Michelet e Anatole Le Braz até os mais recentes esforços de Jeanne Favret-Saada, identifica o povo que segue estrangeiro em seu próprio país, da mesma forma que o religioso que vive a religião sem necessariamente organiza-la na forma de uma igreja, se transformando assim num embaraço comunicativo do tipo que diz que Jesus falou comigo. Ele interrompe uma certa ordem na medida em que atravessa relações de diferenciação de papéis sociais e faz apelo a uma unidade imprevisível com Deus – este estrangeiro por excelência, insiste Marcel Gauchet. Uma vez posta a ordem em que são distribuídos os papéis, toda relação imediata com o sentido refaz o percurso da heresia ou, no caso mitigado, da heterodoxia. Mas não se trata mais de uma relação com a hierarquia da igreja, mas de ser parte da população. 

terça-feira, 6 de março de 2012

Hiléia:Altamira; no Pomme D´Or I


Não é por causa do cartão de visitas que eu voltei. Creio, inclusive que em lugar nenhum o tenha feito. As redondezas que compõem o cenário de Montserrat e San Juan, em Buenos Aires não são os mais convidativos. A vizinhança de oficinas mecânicas também não me ajudou a esperar o melhor quando cheguei de táxi ao hostel. Não demorou até que o taxista fizesse uma recomendação das mais eficazes. Tome cuidado, preste atenção, eres turista que sale de un hostel. A prescrição requisita do viajante mais afoito alguma atenção, o que exige que caia em ouvidos atentos. Ouvi, ainda que convencido da idéia de que bastaria me comportar como morador da cidade do Rio de Janeiro e nada de muito grave poderia me acontecer. Estava em casa. A sujeira enegrecida da fachada, as grades nas janelas e as rachaduras nas paredes, não impediram grande coisa. A recepção em Boa Vista não foi menos interessante. Sempre de madrugada, cheguei à capital de Roraima desesperado por uma noite de sono. A rampa desastrada na calçada do hotel repetia uma certa cena que já tinha testemunhado em Belém no ano anterior, coisa que jamais entenderei: a onipresença dos azulejos, inclusive em calçadas.

Assinei o livro de registros, que então são apelidados de check-in e segui ao quarto. Abri a porta ligeiramente miserável para que me visse interrompendo, sem mais, a festa de duas baratas. Nuas. Desavergonhadas. Quase pude decifrar um grito de surpresa. Invariavelmente, sempre que retorno a esta imagem recebo de presente o pesadelo em que baratas passeiam pela boca do assombrado. Durante todos estes anos ouvi a descrição daquilo que só pode ser uma versão fraca de uma epidemia silenciosa. Não deixo, contudo de sugerir que uma profecia, ainda calada deve se confirmar logo mais na boca daqueles que se afligiram com a cena de coito interrompido. Na condução da fobia, sempre lhes voltam à boca as baratas promovendo toda sorte de distúrbios, coligindo com gravidade os cem mil focos de enfermidades.

Abri a porta do hostel em Belém imaginando algo semelhante. A própria divisão dos interiores do lugar já permitiam antever aquilo que seria um novo pesadelo alheio – até porque, se há alguém nada sujeito a profecias e êxtases místicos ou patológicos, esta pessoa sou eu; as baratas que lá estavam se foram de vez. Dormi como um velho cansado em Boa Vista, assim como dormiria em Belém.

Ao perceber que as paredes do casarão da rua Ó de Almeida eram composta por ambos, alvenaria e tapume de compensado, entrei num regime de antecipação de imagens. As duas baratas nuas pegas no flagra repetiram-se na retina me deliciando com a forma de teatro de revista. Desci as escadas de compensado procurando o número 02 e vi uma porta, nenhuma janela que não fosse um retângulo de 40x60 cm serrado no tapume que fazia a divisão entre o quarto e o corredor. Ao abrir a porta, nada. Sem baratas, sem aranhas, sapos ou surpresas, salvo a inexistência de chuveiro. Todo e qualquer banho seria tomado direto na fonte, um cano de água fria.

A estante que me serviria de armário me fez tomar uma série de decisões a respeito da guarda sanitária de minhas roupas, que nunca saíram da mochila de backpacker com a qual viajo. Já não mais morador da capital fluminense, me vi aderindo a alguns dos vícios mais inadequados já produzidos pela vida paulistana. Nada poderia me satisfazer, e tudo que viesse parecer a improviso soaria como um assalto. É o que acontece quando se imerge na obsessão com a segurança em todos os níveis, é o que se passa quando nos consideramos como um grande pacote de investimentos em nós mesmos avaliados pela noção de risco. O desvio de rota figura-se devastador para a sensibilidade. No mais, cama firme em lençóis ásperos e limpos. Não me vi com outra opção senão a mesma das noites de estréia em qualquer cidade, mesmo sendo esta uma re-estréia. Dormi.

Acordei me lembrando da missão. De como estava, lentamente cruzando a linha traçada por Codorna e, no mesmo movimento me arranhei de leve na mola solta do colchão contra a qual nunca manifestei queixa. Estava aqui e Codorna não se encontrava, ainda aonde deveria estar para me receber, em Altamira. As notícias, sobre como chegar até a cidade eram tão desencontradas como se desencontram os informantes. Sugestivamente, pouquíssimos, dentre aqueles com quem conversei tinham feito esta viagem. No caso, no almoço deste dia, entabulei minha primeira conversa de verdade. Longa.

Domingo é um dia ruim para um primeiro dia de estadia em Belém, especialmente quando a cidade é, na melhor das hipóteses um entreposto e, na pior das hipóteses uma memória ruim de algo que não aconteceu. O vazio da Cidade Velha, aliado ao pedido insistente dos locais para que se evitasse a qualquer custo, e ponto, produziam uma redundância hipnótica difícil de romper. Minha melhor saída deste círculo viciado era, como reza a geometria euclidiana, tomar uma reta. Segui rumo ao Museu Paraense Emilio Goeldi pela avenida Nazaré, onde pude testemunhar em primeira mão o Círio, completamente vazio e fora de calendário. Dali, a visita ao Museu e, mais adiante, nada. Nada que eu soubesse existir ou precisasse procurar. A caminhada longa, que fez o percurso dentro do museu pela metade acabou no Pomme D´Or, restaurante do qual nunca ouvira falar e ao qual não retornei.

A esta altura começava a assumir o papel de viajante solitário, que interpreto disciplinadamente em cada passo que dou, quando acontece. Ríspido, duro e decidido a cada passo dado, um verdadeiro pastiche de todos os filmes herdeiros de John Wayne que já assisti na vida. Rigorosamente perdido num papel sem roteiro, precisava comer. Patético como sempre, pedi uma mesa para um e precisei esperar. Não fazia parte do jogo de mesas receber tão poucas pessoas. Acabei no canto vazio de um aglomerado familiar que cedeu, gentilmente a cabeceira. Comi um rizoto com frutos do mar apreciável, ainda que não o suficiente para condenar de vez minha irritação com serviço chamado self-service, mais adequado a churrascos e a aniversários.

A família se foi e, o pouco tempo de refeição solitária foi interrompido por Alípio. Gentilmente me pediu licença. Com o prato na mão, havia percebido que estava só. Também o tinha percebido sentado atrás do caixa, me lembrando os donos de bar lusitanos que substituíram o jogo de dama na praça por contas intermináveis digitadas em calculadoras com impressora portátil. Lembro de olhá-lo atentamente, ainda que por poucos segundos. Nada de parecer interessado em demasia, nada de grosserias. Melhor evitar, diz a etiqueta que é, também e em geral, um manual de defesa pessoal. Deixar falar, ouvir, responder afirmativamente na maior parte do tempo. Ser devorado pela conversa.

Lembro de olhá-lo atentamente por alguns segundos. Obviamente que este é um exercício imbecil. Como fiz com as peças do Museu Goeldi, não me lembro de como se trajava, e tampouco como era. Não creio que vá reconhecer Alípio em uma próxima vez. A imagem que carrego mescla alguma velhice nos passos dados, óculos de quem enxerga com esforço, excesso de peso, a cor laranja em algum arranjo na camiseta, uma bermuda cáqui e a persistente idéia de que ele calçava sandálias de couro. A conversa conduzida por ele era, no final das contas a de quem decide e não deixa decidir por si, como faz um comerciante. Economista, com formação em algum lugar do sudeste que, crieo ter sido a PUC do Rio de Janeiro, Alípio é o patriarca da família proprietária da rede Pomme D´Or. Desta revelação, que na verdade é uma história entre restaurantes, uma seqüência de informações se depreendeu da boca de quem rompeu meu cordão de isolamento. Teceu muitas considerações sobre a família Yamada, sobre quem nada tenho a escrever senão que são donos de todos os principais outdoors da cidade, pois dirige a maior rede de supermercados do Pará. Como se trata de um país em que sou estrangeiro, posso dizer aos dedicados paulistas e cariocas que é coisa grande. Firme. Por vezes, com pompa. Um dos restaurantes Pomme D´Or está dentro de um Yamada. Yamada é uma família japonesa de japoneses que não são os do sudeste. Os indícios de que saí do país em que vivia se engrandecem com a história de que os japoneses do Pará, numerosos e competentes vieram descendo o rio Amazonas desde o Peru. Pouco têm a comemorar com o entorno do centenário de imigração senão que o centenário de sua vinda está por vir. A versão que ele oferece sobre os japoneses da Amazônia chega à nada irrisória história de Tomé-Açu, cidade que se tornou a terceira maior colônia japonesa do país e que, vim a descobrir depois, tem uma história tão fabulosa quanto a que Alípio me contou.

Vindos descidos do Amazonas, os japoneses teriam se espalhado por partes, e por aí. A narrativa técnica de sites nada confiáveis diz que houve algum tipo de manipulação do governo japonês em busca de regiões para assentamentos agrícolas. De Belém, chegaram a  Tomé-Açu. A técnica de difusão, nem desconfio. Alípio menciona a descida do rio e eu nem mesmo estou seguro de que ele tenha mencionado Tomé-Açú. A bem da verdade, tudo o que me lembro da conversa é de Alípio (o nome), o restaurante e a cidade amazônica aonde ainda se fala japonês como primeira língua, abrigados os falantes por pagodes. Logo imaginei uma sucessão de gueixas e xoguns reunidos em uma paisagem improvável, reclamando daquilo que descobri serem piuns e carapanãs. Logo imaginei espadas, kimonos, ikebanas, e todas as coisas que chamamos pelo nome errado, ainda que com alguma intimidade, cercadas por uma floresta frondosa e impenetrável, aliando clichês com uma velocidade com a qual somente um fascista consegue articular. Isso só foi possível, me disse Alípio, porque os japoneses fazem as coisas direito. São inventivos e cuidadosos. Não são como os chineses que, antigos, já inventaram um mundo e agora se dedicam à triste arte da cópia. Os japoneses são os estrangeiros aliados de Alípio. Repeti meu drama de ser gaijin. E Alípio mal começara a me devorar.

Hiléia:Altamira; decesso


“O segredo? Ora, cortejei os opostos com delicadeza e suavidade porque queria aprender com ambos. Não estava seguro, não tinha lá muita certeza. Não conhecia a história grandiosa, e me perdia na vida doméstica com uma rapidez inconteste. No final das contas eu soava a algaravia toda vez que falava com alguém. Nunca estive seguro do que fiz, o que me obrigou a me contradizer em um sem número de vezes com a mesma veemência. Aliás, se há uma única coisa que me sustenta na vida, e que permitiu que eu chegasse em algum lugar é meu tom de voz, quando consigo atingir a simulação de segurança. Mas, ao cabo e ao rabo, não sei lá de muita coisa além de meu RG, CPF, número de telefone e aniversário de minha esposa, além do de mais alguns transeuntes que freqüentam minha vida por algum período. Mais adiante, estou certo de que os esquecerei novamente. Assim, o meu envolvimento com a militância sempre ocorreu com o horizonte de que poderia haver melhores razões para parar, para negar, para dizer que talvez fosse melhor que não. Com os mais conservadores e dedicados aos afazeres do espírito, ao contrário, porque demandava algum movimento e compromisso mais agudo com questões menores do ponto de vista ético-moral. No final das contas, queria me comprometer tanto com problemas de vida e morte quanto com algum rigor formal. A única coisa que consegui, no final das contas foi decepcioná-los a todos”.

 O que marca a biografia de alguém assim é a incapacidade de determinar uma cartografia precisa a respeito do que deve e do que não deve ser feito em todas as situações e, mesmo em uma situação em específico. E isto nasce, diria o citado, da desconfiança quanto a adequação das normas de etiqueta, muito importantes em lugares como o Palácio de Buckingham ou no jantar na casa de sua avó, mas absolutamente esquálidos e pouco interessados na possibilidade de se comer uma galinha à cabidela na BR 116, a 15 quilômetros de onde seu carro quebrou, ou mesmo num almoço regado a macarrão e rapadura enquanto se espera o resgate de helicóptero porque a cheia do rio lhe proíbe outro exercício que não o da paciência. Certo que estão listadas as variações de lugar, e não de épocas, pois, caso contrário seria possível ampliar tanto as variações quanto as inadequações da etiqueta – que quase ninguém jamais seguiu.

“Eu mesmo, equivocadamente, já fui considerado muitíssimo bem educado, e por isso já pude gozar, inclusive da fama de erudito. Nada mais equivocado para alguém cujas noções de método e atenção são somente nomes de conhecidos de um primo meu. O tom de voz, aliado à pausa entre frases e uma certa sofisticação no olhar indicando concentração no interlocutor definiram, quase todas as vezes em que tive algum sucesso como conviva. E mesmo aqui, certamente soarei a alguém mais sutil do que de fato sou, porque quero intervir em sua direção, contemplá-lo e por isso, falar por via das palavras que você me dirige”.

Há quem tenha defendido a tese de que Denis Diderot era um pensador de reação. Há quem conteste que ele sequer tenha sido um pensador. Mas o exemplo me bastará, porque terá pensado o suficiente para, na pior das hipóteses ter usurpado a categoria prestigiada da filosofia. Pode ter sido Yves Benot, em seu Diderot: de l´athéisme à l´anticolonnialismme quem busca abolir à qualquer juízo de unidade autoral e propositiva concernente à obra do enciclopedista. Diz Benot que a figura de philosophe e editor acabou exigindo de Diderot uma disciplina em fragmentos de possibilidade, fazendo com que escrevesse quase que exclusivamente por via da pressão das pessoas à sua volta, o que ofereceria ao que escreveu a visível carência de unidade autoral, temática e estilística; de coerência. Diderot parecia prefigurado nas questões que lhe eram impostas por todo uma classe de interlocutores que, por fim, fizeram com que viesse a falhar. Não decepciona à forma de Rousseau, que os traiu a todos, mas como alguém que poderia ter feito algo melhor, com sustentação e clareza, com sistema. No entanto, o envolvimento do editor com a quantidade de demandas que lhe pareciam nobres o suficiente fizeram com que se diluísse, diria. Independente do que possa ser revelado por via de seu trabalho, é pouco provável que nele se encontre algo como um conteúdo de verdade, e que de alguma forma venha a satisfazer tanto a um militante quanto a um pensador rigoroso.

“É exatamente sobre isso que eu estava falando. Apanhei dos dois. Nas duas vezes. Tem sempre um assaltante no caminho. Eu estava na cidade há mais de 24 horas, cercado de restrições. Não poderia me mover para quase lado algum porque, saindo do hostel em um centro urbano aparentemente sem pessoas ao redor, eu seria vítima preferencial. Eu consegui me transformar exatamente no mesmo tipo de turista com que me indispus durante cada um dos dias em que fui morador de Copacabana, o mesmo tipo de turista que sempre mereceu, no meu ponto de vista, ser assaltado. Ainda que tivesse insistido, e que tivesse circulado pelo centro histórico de Belém, que é pequeno e ajustado para ser feito em uma só caminhada, não pareceu bom o bastante. Afinal, caminhar por calçadas vazias ornadas pelo selo do Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional não é a melhor forma de se misturar. Poucas coisas dissimulam tão bem o que, de uma forma bastante relaxada, não deixa de ser confinamento. Voltei para o albergue decididamente derrotado. Indócil mesmo. Fiz o que não se faz em viagem alguma, salvo quando se está perdido, ou com tédio. Assisti televisão. O que foi útil, porque conversei um pouco mais. Comecei a medir minha covardia com maior exatidão e medida. Tomando um suco de caixinha e comendo um sanduíche decididamente suspeito, sentou-se ao meu lado no sofá um hóspede japonês. Yuto. Foi com ele que eu me neguei a entregar alguma coisa. Juntos, e posso falar sem exagero, Yuto e eu nos confrontamos com o diabo”.

Hiléia:Altamira II


Existe uma classe de pessoas que é, ela mesma o sinônimo de uma classe de relações. Digo assim, que existe sem que se esteja seguro de sua definição. Mas imagino que eu possa dizer desta forma, e que ter amigos não é margem suficiente para dizer algo com segurança. Inclusive há alguma filosofia que diz que ninguém chama outra pessoa de amigo de forma impune. Mais do que isso, chamar alguém de amigo é uma forma velada de evocar o pronome “eu”, de dizer algo e, nisto estar implicado em qualquer coisa que se tenha dito. De alguma forma, quando chamo alguém de amigo, faço a exigência de que eu mesmo seja chamado para depor. No final das contas, por ter começado esta narrativa por uma acusação, e chamar alguém de amigo significa acusá-lo, isto é, defini-lo à revelia de seu consentimento, acabaria por ter que me justificar. Precisaria dizer porque alguém é meu amigo. Afinal, o fazemos para seu diametral oposto, no caso de inimizade.

Numa breve coleção de casos que fazem de alguém, amigo de outrem, é possível sempre se prevenir com alguns dramas possíveis que justifiquem a acusação. Alguém é amigo desde que tomaram um porre numa noite em especial; porque salvou sua vida após ter engasgado com um caroço de azeitona, e mesmo encontrar um caroço no angu; porque recebeu alguém com carinho e consideração; porque emprestou uma caneta na prova final de trigonometria de alguém; porque se envolveram em uma briga de torcida e foram presos na mesma algema. Mas no caso, Codorna é meu amigo ainda que eu não me lembre por quê, como foi ou como teria sido diferente. Fosse uma história, não saberia contar. E, é bom que se entenda, ainda que eu não saiba dizer como foi possível e qual seqüência de eventos foi produzida para que tudo viesse à tona, me é possível acusá-lo como amigo sem prejuízos. Pelo visto, imaginei que deveria ser assim, me veio à mente a mesma idéia que se precipitou na ponta de meu indicador, e ponto. Ei-lo, meu amigo. Sem contestação. Disso, as conseqüências. São várias, e todas parecem estar enormemente atreladas a alguma forma de compromisso afetivo, uma variação característica da expressão obrigatória de sentimentos. A primeira, e a mais efetiva delas é a correspondência.

Durante anos, mesmo após o fim do curso em ciências sociais, mantivemos correspondência expressa. Um pouco desleixada, em especial se comparado com a que mantive com outros amigos do período, os mais atinados com alguma justificativa a respeito do começo da amizade. Afinal, não me lembro de quando Codorna apareceu como amigo. A questão é que a coisa desandou. A falta de correspondência já havia se transformado em aliança temporária na partilha de um mesmo abrigo, o que se deu pouco tempo antes de acusá-lo ser meu amigo. Codorna e eu viemos a dividir o mesmo teto, nos obrigando a muito mais coisas do que em geral a amizade exige. Acabamos que nos exigimos cada vez mais, até que chegamos a um limite. A história que não sei narrar termina em dispersão. Que não se entenda que o limite foi o dia em que rompemos a chutos e pontapé. Nem de perto isso é um desafio. Desafio foi quando Codorna chamou todos os moleques da rua no campinho de areia, traçou uma linha no chão e desafiou a cada um de nós a passar por ela. Cuspiu no chão, apontou pro pé, fez o ritual inteiro. Imagino que falo por todos os amigos de Codorna que nos sentimos, de uma forma geral, emasculados com a cena. Ele tinha ido longe demais.

Confesso que nunca entendi o salto que ele havia dado, e este talvez tenha me orientado a buscar lhe escrever com maior repetição. De um leitor de Milan Kundera e pesquisador da assistência de saúde mental universitária, Codorna se reapresentou no envolvimento do porte de uma contratação pela FUNAI para trabalhar no Rio Grande do Sul junto a populações guaranis. Mas, vale dizer, qual a razão de registrar que sua ida para o sul seja, de alguma forma um salto. Assim, preciso de estereótipos para me explicar. Se há algo que compete à atividade antropológica, em especial a que se dedica a produzir e comentar etnografias, é a apologia da distância. Tudo que é longe, difícil e arriscado soa a ofício real, a medalha de honra ao mérito. O delírio, especialmente se acompanhado por uma dose ou outra de ayahuasca, configura o paraíso reconquistado pela atividade do pesquisador, especialmente se com custo de uma ou duas infecções de malária ou febre tifóide, três cicatrizes, algumas pinturas tribais e um nome adquirido por adoção em campo por alguma família falante de tupi, caribe ou arwak. Pagando na forma da perda da saúde e da orientação espacial, a disciplina científica da antropologia compõe sua glória de ser e fazer antropologia no exercício de ir ao longe, o que faz com que a herança dos missionários católicos soe tão ultrajante na mesma medida em que parece justa. Missionários, naturalistas, antropólogos dividem, no âmago, a mesma missão teórica. Ir – por muito tempo -, voltar, contar.

Não suficiente esta marca, a de que a glória da antropologia está na jornada longa, há uma barreira interna, digo, de que aqueles que ficam por perto dificilmente fazem o caminho da roça e, muito menos, da floresta, tão fortemente desestimulada pela história da Chapeuzinho Vermelho. Existe a classe de antropólogos que estão para a observação do que está por perto. E se há algo a ser dito hoje, é que há antropólogos em todos os lugares. Todos os lugares. Shoppings, listas de e-mail, festas da uva, academias de ginástica, redes sociais e, até mesmo em lugares insuspeitos como universidades e unidades de atendimento de saúde mental. Codorna é mestre em antropologia social por ter produzido uma longa dissertação sobre o sofrimento da depressão em uma universidade do interior paulista. Fui em sua defesa, vi destilar seus argumentos, me deixei não convencer por alguns deles. Meses após assistir sua defesa,  tenho notícias do salto. Codorna estava no Rio Grande do Sul trabalhando como contratado da FUNAI. Seu trabalho travava relações com a população guarani no mesmo estado. Nunca entramos em detalhes sobre o que fazia, mas o que sabia fora suficiente para me satisfazer.

Tempos depois, vingado o trauma do falecimento de um amigo em comum, a distância que Codorna começara a percorrer veio a se tornar intransponível. Ou quase. Foi selecionado para trabalhar, também em regime de contratação em Altamira, cidade de base do consórcio Norte Energia na construção da Usina Elétrica de Belo Monte. E aqui, e espero ser perdoado pela utilização do mesmo recurso que utilizei para escrever sobre a FUNAI, pois deixarei que a auto-identificação faça as vezes da apresentação deste consórcio.

“Conheça a Norte Energia

A concessão para a construção da hidrelétrica, no município de Vitória do Xingu, foi objeto de leilão realizado no dia 20 de abril de 2010. A outorga coube à Norte Energia S.A por um prazo de 35 anos.
A Norte Energia S. A, composta por empresas estatais e privadas do setor elétrico, empreiteiras, fundos de pensão e de investimento e empresas autoprodutoras, firmará contratos de comercialização de energia elétrica no ambiente regulado, com as concessionárias de distribuição, no montante de R$ 62 bilhões, relativos ao fornecimento de 795 mil MWh.
Para explorar o potencial hidrelétrico, a concessionária recolherá à União, como pagamento pelo uso de bem público, o valor anual de R$ 16,6 milhões, além de cerca de R$ 200 milhões que serão pagos à União, ao estado do Pará e aos municípios impactados, referentes à compensação financeira pela utilização de recursos hídricos.
Com estimativa de iniciar as operações no dia 31 de dezembro de 2014 e a comercialização do serviço em fevereiro de 2015, Belo Monte será a maior usina hidrelétrica 100% brasileira e a terceira maior do mundo. Sua construção deve gerar cerca de 20 mil empregos no pico das obras.
A UHE de Belo Monte terá capacidade instalada de 11.233,1 MW de potência e geração anual prevista de 38.790.156 MWh ou 4.571 MW médios e reservatório com área de 516 km quadrados. A conclusão do empreendimento está prevista para 10 anos, com início de operação da última máquina em 31.01.2019.
Para compatibilizar os interesses energéticos com a sustentabilidade ambiental, a área alagada foi diminuída. A usina teve o reservatório reduzido em relação ao projeto inicial e a área de alagamento diminuiu 60%. Enquanto a média nacional de áreas alagadas pelas usinas hidrelétricas é de 0,49 km² por MW instalado, Belo Monte impactará apenas 0,04 km² por MW instalado.
O empreendimento integra o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que é uma prioridade do governo federal. Sua entrada em ação propiciará mais oferta de energia e mais segurança para o Sistema Interligado Nacional (SIN), com melhor aproveitamento das diferenças hidrológicas de cheia e seca entre as diversas regiões do País.
A Norte Energia S.A não conta com isenções de impostos diferentes daquelas concedidas às outras usinas ou a qualquer empreendimento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ou daqueles localizados em área de atuação da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).
A Licença Prévia de Belo Monte foi concedida pelo Ibama em 01/02/2010, tendo como um dos requisitos a realização de audiências públicas as quais foram realizadas e contaram com a participação de cerca de 5.000 pessoas. Conforme a própria denominação, esta Licença exige o cumprimento de um conjunto de condicionantes dentro de prazos estipulados. Adicionalmente, para efeito de obtenção da Licença de Instalação, os planos socioambientais devem ser detalhados e constar do Relatório do Projeto Básico Ambiental (PBA).
No caso de Belo Monte, as ações socioambientais propostas no EIA/RIMA foram consolidadas em Planos (19), Programas (53) e Projetos (58), abrangendo as áreas de gestão ambiental e institucional, meio físico, meio biótico e meio socioeconômico. Ressalta-se que grande parte das condicionantes reforçam ou complementam o conjunto de Planos, Programas e Projetos propostos no EIA/RIMA.
Os benefícios do projeto Belo Monte transcendem à implantação de uma fonte de geração renovável e econômica para suprir necessidades do Estado do Pará, da região Norte e do Brasil. A exemplo de outros aproveitamentos hidrelétricos, existem benefícios associados à preservação ambiental de áreas na bacia hidrográfica, além do aumento dos indicadores de desenvolvimento humano nos municípios abrangidos. A inserção regional do projeto UHE Belo Monte vai alavancar o desenvolvimento na região.
Somente a título de pagamento da Compensação Financeira pela Utilização de Recursos Hídricos (CFURH), mais conhecida como royalties, a Norte Energia S.A contribuirá anualmente com cerca de R$ 160 milhões, sendo R$ 70 milhões destinados ao estado do Pará e outros R$ 88 milhões aos municípios da área de influência da usina.
Adicionalmente, a UHE Belo Monte está inserida no Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável (PDRS) do Xingu, que faz parte da parceria entre o Governo Federal e o Governo do Estado do Pará, tendo como objetivo promover o desenvolvimento sustentável da região, com foco na melhoria da qualidade de vida dos diversos segmentos sociais, a partir de uma gestão democrática, participativa e territorializada.
A participação da UHE Belo Monte está associada ao Eixo Temático 2 – Infraestrutura para o Desenvolvimento/Energia, no qual aportará, segundo o Edital do Leilão, cerca de R$ 500 milhões.”

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Não gosto de me enxergar como covarde. Na verdade, se há algo que me dói é reconhecer não somente meus momentos de recuo, mas também sua quantidade generosa. Já saí de uma cidade com o rabo entre as pernas e não gostaria de repetir a cena. No entanto, repeti. E por isso, nunca mais perdoei Belém. Obviamente que isto é, no mais somente um lamentável vício europeu de condenação de algo que, lamentavelmente não pode ser o responsável pelo que fez. Ainda assim, essa forma de condenação de toda uma cidade que não leva em conta nenhum de seus moradores foi a única forma que tive para reagir contra uma cidade na qual cheguei e da qual parti, na ida e na volta, na calada da madrugada. Como fazem os covardes, os ladrões e os sertanejos.
A dois quarteirões do congresso, me diziam, tome um ônibus. Ainda assim será perigoso, e deverá tomar um táxi para que esteja garantido. Cinco minutos de caminhada impedidos por um bairro que nunca soube qual era. Nunca pude dizer grande coisa sobre o Guamá. Na verdade, nem pequenas coisas senão aquilo que me ajudava a respirar a atmosfera repressora de sua fama, corroborada pelo cartaz que avisava sobre o problema do tráfico de órgãos. Dois ou três cidadãos com o branco dos olhos avermelhados serviriam de amostra para aquilo que se transformou na média – e isto seria a cidade. Sem mais. Poderia dizer a mesma coisa sobre Guamá quando fizer remissão ao rio. Por isso, deixarei de me repetir.
De volta a Belém, dois anos depois. Ainda covarde, chego num vôo que pousa à uma da madrugada. A mesma sensação eterna de chegar ao litoral, o mormaço úmido de quem sai do ar-condicionado de um avião, entrega às testemunhas a minha desorientação. Desta vez, sigo para a Cidade Velha, em muito afastada do bairro de outrora e, ainda assim algumas das precauções são exaustivamente repetidas. Cautela – e o alvo da cautela é sempre uma parte invisível da população, praticante de roubos, furtos e outra sorte de violência. Turista, estrangeiro, tanto faz. Com tanta gente invisível a única certeza que sempre tinha é de que eu, em minha figura jamais passaria desapercebido. E isto terá se mostrado real da forma mais banal. Estrangeiro, turista e visível.
Minha única missão em Belém, além de ser o portal de chegada aérea no Pará, seria a de esperar o sinal verde de Codorna. Enquanto voava para lá, ele mesmo estaria em viagem de campo, visitando alguma aldeia parakanã, araweté, ou sabe-se lá de quem mais, o que impossibilitaria minha estadia em Altamira. Deveria esperar. Belém seria meu porto de espera e, por causa disso meu ambiente especulativo sobre os rumos de minha viagem futura. Afinal, para Altamira por chão, ar ou água? Aos poucos percebi que Belém estaria, com o perdão da rima, além. Qualquer decisão seria contaminada pelo simples fato de estar lá. Um quarto sem janelas, banheiro sem chuveiros e a sensação de que tinha atravessado uma membrana qualquer, a sensação física de fronteira que faria da viagem algum tipo de filme ruim. Espero que não cheguemos tão longe com tudo isso. Ainda não tinha amanhecido na Cidade Velha, o que em nada impede já ser tarde demais.
O dia seguinte, reclamou Ana Paula, recepcionista do hostel, deveria ser regado com as mesmas cautelas de qualquer lugar. A palavra chave parecia ser evitar. Pleno domingo no centro da cidade implica significa, no final das contas, que se tenha muito cuidado. Afinal, as ruas estão vazias. Procure sempre movimento. Assim, no movimento, após um café da manhã na padaria que depois me serviria de rotina, segui rumo à Praça da República, onde se encontra o Theatro da Paz, vizinho do Teatro experimental. Dia de feira de artesanato. Fui além. Segui por toda a Avenida Nazaré até sua conversão em Magalhães Barata para visitar o museu do Museu Paraense Emilio Goeldi, o que me pareceu obrigatório, ainda que pudesse ser decepcionante. Evitei, contudo, todo tipo de encontro e deixei de lado aquilo que mais poderia ser prezado por um possível leitor, neste exato momento: uma máquina fotográfica.
Assim, toda a visita foi movida pelo percurso lento de um leitor. Cheguei ao museu, devidamente cercado por seus muros e mais as centenas de árvores que lhe fazem roda, filtrada na ciranda íntima das onças e pássaros guradados em seu desenho. O museu, como tal, se encontra ao centro e, para não frustrar meu pessimismo, se encontrava vazio pela metade. Passeei pelas amostras de material coletados por gente da estirpe de Curt Nimuendaju e de Eduardo Galvão, e tive melhor dimensão do projeto institucional do museu que, como todas as atividades científicas mais graves do país, se congelaram durante a Primeira República sem qualquer revogação.
Pela primeira vez desde que a antropologia se tornou minha profissão, mesmo sem conseguir tirar disso conseqüências mais práticas, assisti a uma exposição de coleções com algo mais do que mero interesse. Vi na coleção de tantos indigenistas e antropólogos algo mais grave, ainda que sem conseguir nomear, apontar ou mesmo intuir o quê. Identificar diferenças por via de peças, sem me reportar ao meu próprio milieu de formação, reconhecendo nas máscaras algo mais apurado do que sobrevivências ou representações de valores serviu de aconchego para o coração sempre egocêntrico de um estudioso. Que se entenda que, mesmo antropólogo, não faço parte dos viajantes que tanto trabalham na fixação das glórias da disciplina. Na verdade, sou daqueles que, à moda da física teórica busca rearticular diferenças no seio do mais visivelmente doméstico refazendo distâncias curtas em cadeias infinitesimais, ampliando a figura potencializando diferenças mais banais. Daí o tamanho do meu prazer, o de reconhecer o que não é de minha obrigação. Aí reside a alegria no florescimento da orientação em um universo estranho. Infelizmente a lembrança do que vi e reconheci, hoje reside nas peças que não fotografei porque era melhor evitar. Afinal, em Belém. A cidade poderia, como da outra vez ficar com tudo. Preferi ceder ao medo e entregar o que tivesse antes mesmo de consegui-lo.

 Desconfio que, a partir daqui perderei o pouco respeito que já tive. 

quinta-feira, 1 de março de 2012

Hiléia:Altamira I - Introito

Odiar todas viagens, todos os viajantes. Ressalva antiga que Claude Lévi-Strauss imprime em seu Tristes Trópicos e que contrabandeia uma precaução profilática. Odeio todos os viajantes e suas viagens. A mesma profilaxia que contrabandeada, que vem dentro de uma frase notadamente antipática, revela que todo remédio provém de um veneno; todo veneno provém de um remédio, o que justifica o eterno retorno à filologia grega, pharmákon. Lévi-Strauss, quando se permite ao exercício da manifestação de opiniões pessoais, em geral soa como um velho rabugento. O tipo acaba se tornando inviável para a sensibilidade sempre jovem que rumina na paisagem vigente, na maioria crentes na figura da Terceira Idade, Melhor Idade, e outra forma de plastificação do tempo na forma de cartões de crédito dos bebês chorões formados à base de talco e suco de pêra. É difícil, de uma forma geral ouvir o que uma ressalva mal-humorada tem para oferecer. No meu caso, reconhecidamente nascido com 72 anos de idade, com cavanhaque e rabo-de-cavalo, é nos momentos de rabugice que reconheço em Lévi-Strauss um companheiro de praça, um parceiro de jogos de gamão.

Como reconhecer um viajante? Esta pergunta se relaciona com o parágrafo anterior por via de uma máxima dos debates sobre preconceito racial. Imaginando um debate acalorado entre favoráveis e desfavoráveis às cotas para negros em universidades, o contrário declara não reconhecer raça e que toda política cotista é, por fundamento racista, no que é respondido pelo pró-cotas: “quer saber quem é negro, quem não é? Pergunte a um policial!”. Ignore, peço gentilmente, a questão das cotas em si. É o dispositivo de identificação, persecutório, se quiser, para o quê chamo a atenção. Basta odiar os viajantes e todas as viagens para reconhecê-los, ainda que não com justiça. E isto ocorre especialmente quando o reconhecimento se dá inter-pares. Viajantes, que se detestam, reconhecem-se no primeiro jogo de olhares. Não obstante serem estrangeiros, estranham-se entre si fazendo de todo primeiro contato um exercício necessário de constrangimento. Se é possível aplicar às sensações alguma forma matemática, digamos que é o momento esponencial do ser-estranho.

Ainda assim, e esta é a razão de retomar a frase de Lévi-Strauss, este sujeito que é estranho e que, no limite não tem outro futuro possível senão estranhar-se ainda mais, este mesmo sujeito volta da viagem tomado pela arrogância diagnóstica. Sabe sobre tudo o que viu, anota dois ou três caderninhos, se tanto e consegue dizer como é que vivem por ali, por onde foi, como é aquele lugar, produzindo uma forma de história natural de improviso que nada faz senão apagar os traços que levariam um segundo viajante aos mesmos lugares e pessoas. É desta forma que ao viajar, não se chega a lugar algum. Há quem chame isso de turismo. Mas não é por tecer mais uma frase idosa de tão mal-humorada que redijo esta abertura que, até então nada fala sobre a viagem até a Hiléia, já muito devastada pelo cenário que me levou para Altamira. Não é uma condenação do turismo, ainda que isto tenha lá algum merecimento para tal. O que chamo a atenção é para a arrogância de todos os viajantes que, ainda que de forma inocente, parecem dar conta do que viram, e fazem do relato irresponsável uma sucessão de anedotas que parecem ser algo melhor. Por mais solene e grandiloqüente que eu venha a parecer, é assim que escrevo. Viajei e, reitero, nada do que eu escrevo deve ser lido como algo diferente de uma sucessão arrogante de anedotas de viajantes. De Altamira, do Xingu, dos heróis e vilões com quem travei contato, eu nada sei. No limite, estas são linhas cujo conteúdo deve-se odiar – como fruto de uma viagem, como produção de um viajante – e ao entender que este relato é, antes de tudo, veneno, é que a sua forma terapêutica talvez se manifeste.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Prelúdio para o tempo na Hiléia

Não escreverei um libelo sequer,
se quiser, não queira
que libelo é gritaria que beira o descabelo,
o mero barulho sem gorjeio, uma reunião de foliões
em tempo extendido do mesmo carnaval.
Mas, ainda assim,
no cair dos dentes,
ainda chega quarta-feira de cinzas e
alguém tem que ceder,
alguém tem que descer. Então, que suba.

Se escrever, se for pra dizer,
que seja em silêncio.




(em respeito aos convivas de Altamira, que sabem do que estou falando)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

E eu, que parto para a Hiléia hoje...

Hoje acordei em meu próprio medo. Acordei em seu meio e estou, como não poderia deixar de ser, um pouco afogado. Parto hoje para Belém com vistas em seguir viagem para Altamira. Somente amanhã, já acordado e devidamente hospedado na Cidade Velha que começo a bolar a próxima etapa da viagem. Confesso que tenho vontade de fazer a viagem de ida de barco, mas ainda desconheço como são feitos os serviços deste tipo de transporte, e não tenho idéia de como funcionaria a escala em Vitória do Xingu, anteposto para seguir viagem até Altamira. A outra alternativa, segundo consta, será tomar um ônibus ainda em Belém, seguindo por 900 km de viagem cujas estradas estão, em mais de 70 % em estado de terra crua. Agora chove. Amanhã, deve chover. Depois, o mesmo. E assim segue a vida por lá, em caldos e caldos de rio. Braços fortes, margens distantes, bancos móveis e curvas delicadamente planejadas para que a distância entre 200 metros sejam mediados por 3 quilômetros de caminho sinuoso. Não faz parte dos meus planos vencer um rio que seja, o que me faz esperar que um deles possa cooperar comigo.

Há dias que durmo mal e passo os dias buscando antecipar o que poderá ser esta viagem. Confesso que não tenho as melhores lembranças de Belém, e tampouco carrego com muito carinho os relatos de tantos amigos que como eu, envolveram-se em outras tantas histórias do Pará. Foram dias de seguir perguntando o que diabos farei em uma terra que o diabo mesmo talvez não faça lá muito sentido, especialmente nas ocasiões de maior tentação.

Viajo para tão longe, pagando do próprio bolso que andava furado até a bem pouco tempo. Vou visitar um amigo que trabalha em uma panela de pressão e que, ainda assim foi duramente assediado por colegas dos tempos universitários que cederam à idéia de que um governo qualquer que fala em nome do povo está acima do bem e do mal. A covardia dos poucos amigos que pavoneiam em ares condicionados dos dutos de Brasília nunca tomou o cuidado de testemunhar e formular, com a devida cautela, um mínimo de reflexão quanto às conseqüências de algo tão peculiar e perigoso quanto a Aceleração do Crescimento. Estamos em um ambiente em que, e isto é visível, o futuro desejado está logo aí, bastando executá-lo. Doce ambigüidade da palavra, poder executivo, poder executor.

Viajo para tão longe para escrever aos poucos, num ritmo tão lento quanto é o prazo que a compreensão demanda para algo assim: a mudança de tudo para tanta gente, como é de acontecer nos braços de rios-alvo de barragens construídas à base de concreto e monólito.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

E eu, que ainda nem cheguei na Hiléia...















“Até o outro lado do rio. E não tem essa frescura de mesma pessoa, mesmo rio, duas vezes. Tem que nadar até lá, na água fria". No que apontou para uma diagonal longa e contrária à correnteza. “Porque se não for assim, você vai parar na Ilha dos Açores, moleque”. Basicamente, chegar até o outro lado do condado sem percorrer longos trechos à pé; o nadador de John Cheever sem interrupção; sem Cheever, sem narrativa, só braçadas.

Sem querer fazer uma outra comparação, e sem conseguir evitar, os rios gregos devem ser fios d´água para que alguém como Heráclito possa ter se transformado em clichet. Agora que vejo o Guamá de perto, cheio de placas para turistas, exclamando por amor ao bom Jesus para que não nadem, essa história de um mesmo homem não poder entrar no mesmo rio duas vezes, aqui, tem outro sentido. Aqui, é porque não haverá uma segunda vez. Basta olhar o tamanho daquele redemunho.

Afinal, é impossível se recuperar da visão da chuva a 5 quilômetros, chovendo na outra margem. Este não é, ainda, o grande rio. Vê-se a outra margem.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Hjman

Há coisas das quais não é possível, mesmo com esforço tamanho, se desfazer. A vergonha, para mim, é o momento da repetição do equívoco, do qual quem se lembra, sempre, são meus intestinos e quaisquer que sejam os órgãos que controlam os frios na espinha. Da infância, nem tanto, a menos se tiver a arrogância cavalar de considerar primeira fase dos tropeços como encerrada. Nada seria mais tolo e, sugestivamente menos infantil.

Quando o portão da casa de meus pais ainda se pintava em verde, e havia uma barra diagonal para trancá-lo com alguma estabilidade contra o vento, vivi uma nesga com minha mãe. Daquelas que revoltam um garoto de sete anos. O assunto da querela se remetia, certamente a assunto dos mais graves ao redor do qual nunca mais circundei. Demasiado polêmico para o tempo, devo tê-lo jogado ao porão do trauma. Dali, do debate acalorado, segui para o meu quarto e arrumei uma trouxa na ponta da vara para simplesmente seguir meu caminho, para fora de casa. Desejava, antes de mais nada partir. Nunca consegui me impor ao íngreme portão verde, chapado e sem frestas, ainda que a barra diagonal estivesse lá. Nem um triângulo de apoio me permitiu sobrepujar aquele obstáculo boçal.

Sempre que minha mãe ou algum de meus irmãos mais velhos, fazem qualquer esforço para fazer pouco caso com alguma história de minha infância, esta é decerto das mais repetidas. De como ela reflete meu ímpeto, de como mostra como sou dado a coisas bobas, e de como arrumei minha bagagem na ponta de uma vara, tal qual o Pica-Pau, ou Woody Woodpecker, o fizera nos episódios em que errava pelo Mississipi. No meu caso, naquele momento, nunca me perdoei por não ter conseguido ultrapassar o portão. Tinha na cabeça que teria que voltar para casa mais cedo ou mais tarde, de que eu não daria conta, de que passaria fome – porque não consegui roubar chocolates, ou coisa que o valha. Não teria problema em fazer o que fosse necessário para dormir quentinho e confortável. Mesmo pedir desculpas fazia parte do repertório das ações futuras. Mas nada se comparou ao momento em que voltava sem jamais ter ido, impedido por um portão fechado. Hoje, gosto de lembrar, não somente ultrapasso o portão em dois ou três movimentos de pernas como eu tenho a chave do portão, e não há qualquer desculpa para não partir, ainda que eu tenha que voltar, ainda que eu queira voltar. Até porque, até onde consigo entender em tudo o que me aconteceu por aí, esta tem sido a minha melhor maneira de ficar.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Flutuação, inércia e atrito zero: em quê concorda o dissenso







Sempre leio que a população indígena brasileira está morrendo, informação esta que é agravada com uma taxa de mortalidade infantil acrescida de mais de 500%. Já li que são as reservas que empobrecem e expulsam índios que já não são tanto. Li também que somos nós que os impedimos que o sejam. Índios. Trata-se do desenrolar da história do capital, trata-se do atravanco da mesma por parte da tradição caduca e romântica. Para estes, que nunca fuçaram os assuntos indígenas, salvo quando o tema é economia nacional, recomendo o silêncio. Mestres em dizer que há índios que já não são índios, parecem muito seguros em formular proposições baseados em nada, ou pior, em muito pouca coisa. Índio que veste roupa e come enlatado já não é índio. Daí, a pergunta: diante de qual tribunal essa fórmula pode ser defendida? Quem foi chamado para depôr? E, num só golpe, quase todos os indígenas mexicanos, bolivianos, peruanos, argentinos e, surpresa, brasileiros, por razões diferentes, deixam de existir. Numa só canetada, permitindo que quem quer que tenha assinado a carta de extinção passeie só, liberal e auto-definido em sua autonomia de consciência. E isto tem nome. Chama-se Reynaldo Azevedo – ou José de Alencar, cuja profundidade da ressonância poderia ir mais além. De outro lado, a figura do índio nu e entregue aos meios naturais demanda esforços nada desprezíveis para serem encontrados fora desta definição, que só preza por ela mesma. A morte das crianças está indissociavelmente conectada à destruição de reservas, sem que possamos definir que esta conexão não é exatamente adequada. A história indígena no país – daqueles que, de quando do genocídio, extermínio e exclusão foram índios por bem; e que para fins administrativos se transformam, à base da canetada, em coisa diversa como “campesino”, “favelado”, ect. – parece não ter lugar que seja seu. Nem o passado escravocrata criou um legado tão perverso quanto este, a de que o lugar institucional, e por isso histórico, de um enorme coletivo de pessoas, é o de ser o que já não é, não foi e não será jamais. Nem em nome de sua defesa. Índio fora da floresta é excluído, injustiçado, etc.. E este é o blog do Sakamoto – ou José de Alencar, cuja profundidade da ressonância poderia ir mais além. Invariavelmente, a noção de existência autônoma, e a elaboração de que índio é o que for, mesmo que não, não tem sequer valor cognitivo para o debate público. Sequer os mortos são tratados assim. Pergunte aos argentinos. Até porque, índio morto - ainda que assassinado - é antes índio do que morto ou assassinado.












Há quem diga que a foto que ilustra este desagravo é sem graça, ocidentalizada, e pouco representativa da diferença para a qual tento apontar. Já eu diria que uma reação como essa, comum e repetida, não é nada além de uma versão de C.Q.D.. Há quem diga que a diferença só importa quando ela é intolerável, ou quase isso. Pois bem. Intolerável parece ser a idéia de que alguém possa estar tão perto e, ainda assim, tão longe quanto uma kaingang estudando vestindo um suéter, tão parecida com uma colega de sala que tive na graduação e, ainda assim, não. Não o suficiente. E um abismo de alguns centímetros se abre que, ainda que à primeira vista indique uma diferença de grau, após a zona do infinitesimal, sugere ser uma diferença de natureza.












Uma kaingang, de suéter, soa à traição.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Durante a seca ou na iminência do inverno



Acho que foi lendo Bruce Chatwin, o migrante clandestino da seara alheia, escritor de O Vice-Rei de Uidá, Utz e Na Patagônia... foi lendo Chatwin, quando figura do escritor de O rastro dos cantos. Todos estes romances tem outros títulos, é bem verdade, e sua tradução embora aqui o seja suficientemente. Na verdade, Utz é como tal, ainda que o sentido escorregue pela língua logo mais, quando digo algo sobre Utz. Afinal, a tradução aparece somente quando acontece. E agora traduzo minha viagem, mais uma, e minhas viagens, num princípio acumulativo que me permite afirmar, ao contrário da simplicidade elegante dos informantes de Chatwin, de que não basta o nomadismo sem o comércio das coisas. É nele, como modo de vida, que o peso escoa.


O rastro dos cantos é um elogio do nomadismo que nenhum pensador contemporâneo e trôpego formularia, pois apresenta aquilo que o próprio Chatwin desenvolveu numa medida menor, porque biográfica: recusar um endereço. Há muitos nomadismos em voga que formulam princípios de uma certa beleza sem custos, ou que todos os custos estariam atrelados a uma forma qualquer de desbunde anarquista, anti-estatizante. Mas não ficar tem um custo próprio, me parece, e demanda certa ciência; digo, certa cultura.


Estou de mudança. Levo livros mais do que os móveis, ainda que mobilidade seja igualmente uma marca do papel encadernado. Mas mais que livros, os mesmos são a marca de minha estadia, de meus tempos diversos e do espaço que ocupam, cujo efeito sanfona é tudo menos regular. Neste jogo, no pormenor destacado, os livros operam reminiscências fortes, o que fiz da vida, com o tempo. Traduzindo, o que fiz com meu dinheiro. Como conquistei e como o fiz circular logo mais, me fazendo desconfiar de que sou, homeopaticamente meu próprio financiador, círculo a ser fechado quando – e se – eu publicar meu primeiro livro. Sem marcas de qualquer exatidão ou movimento certeiro, a mudança tão elogiada pela sociologia local, que se estende por toda a América Latina – isto é, até Paris – é minha forma de permanência. Empacotar, desempacotar, cuja freqüência é sempre proporcional ao tamanho do pacote. Viagens solitárias, para fins de curto prazo, pouca bagagem. Longas viagens, minha vida inteira. E no entanto, sedentário.


O nômade é o que vende, é o que se desfaz e, para fins de contato, não se esquece. Sabe que vendeu, sabe que passou, e esta medida mnemotécnica é uma artimanha dos caminhos. Não é meu caso. Lembrar me ensina muito pouco, porque a coisa está na busca de um bom lugar, e não do melhor caminho para seguir. Não reconheço nenhum nomadismo por aqui, não tenho conhecidos nômades. Minha casa vai nas costas. O cheiro do endereço segue comigo.

Tudo isto escrito, exatamente desta forma, porque assisti a Le Concert e, supostamente o motor de ambas as histórias, é o mesmo: o peso que se carrega com a mudança.