Não queira saber do mal que faz
o mal-estar em querer
e em querer saber o mal que é
querer saber do mal
que é o que é querer
e então
querer saber.
Porque querer, e querer tanto
que faça moinho a moenda da carne
é o afastamento.
Dotado.
Muito bem dotado,
o dote das distâncias mais largas,
as que conjugam - retas paralelas -
de forma que toda relação venha a ser
sempre
uma outra coisa que não o que logo é.
E adia.
Eis o abuso do sacrifício
a desfaçatez do genocídio encarnado
o Império de logo mais
o adiamento,
a vontade que existe pelo hiato
cuja promessa é a perenidade da esperança
que todavia nego.
Porque, seja o que for,
- doing is being -
o que é é o que há.
Querer é foder.
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sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Acídia
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Refrator de Curvelo (na foto do perfilado, restos da reunião dos Menos que Um)
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07:22
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sexta-feira, 25 de abril de 2014
ENQUANTO LEIO CARL SCHMITT - uma nota de rodapé.
-->
Quaisquer restrições quanto à leitura de um
intelectual com um passado nacional-socialista e igualmente anti-semita merece
dois apartes feitos por pelo menos três intelectuais algo insuspeitos – ou pelo
menos suspeitos de outra coisa que não seja nazismo. O primeiro é de Marshall
Sahlins que, ao discutir que relativizar é uma forma de compreensão, ressalta
que não é por sua vez uma forma de advogar – sobre o assunto, vide aforismo Anti-relativismo3 em Esperando
Foucault, Ainda (2004). Assim, se
houver a suspeita de que eu esteja relativizando a relação com alguém cuja
atividade política tenha oferecido oxigênio para o nacional-socialismo alemão,
que esta suspeita cesse. Trata-se exatamente disso, desde que se saiba que o
ato compreensivo não é constituição de defesa. Exatamente, e aqui chegamos ao
segundo intelectual, permite que tenhamos uma perspectiva de inimigo menos
nociva do que a que herdamos da demonologia da modernidade clássica que se
dedica fundamentalmente na ampliação máxima do discurso sobre o patológico
deixando de se dedicar ao esforço ambíguo de aprender com o inimigo. Sobre o
problema é possível encontrar na historiografia de Carlo Ginzburg uma passagem
absolutamente luminar a respeito. Em seu ensaio Mitologia Germânica e Nazismo: sobre um velho livro de Georges Dumézil
(2009), Ginzburg discute sobre a recepção do livro Mythes et dieux des Germains do mesmo Georges Dumézil e de como
Marc Bloch e S. Gunterbrunner acolhem o livro com o mesmo entusiasmo,
ressaltando basicamente as mesmas características. Gunterbrunner, contudo, fala
desde o ponto de vista de alguém que valoriza o patrimônio espiritual
nacional-socialista e, por sua vez, Marc Bloch, mais caloroso na recepção, era
judeu e sua resenha fora publicada em 1940. O caso é que em um artigo de 1983
Arnaldo Momigliano detectara no mesmo livro de Dumézil traços insuspeitos de
simpatia com o nacional-socialismo, coisa que levara ao resenhista da Deutsche Literaturzeitung receber o
livro tão prontamente. Há portanto, uma série de questões a serem postas neste
embaraço da recepção de Dumézil. O desfecho de Ginzburg, no entanto,
interessa-me mais do que o resto do ensaio que, para todos os efeitos, é
excepcional. E é ele que cito aqui, pois defende uma ética de pesquisa que
incorpora com maior delicadeza aquilo que Sahlins defende em seu aforismo: “A distinção entre pesquisa científica e
teses ideologicamente motivadas, entre dados documentais e sua interpretação,
não só é possível como necessária. Ela permite utilizar determinadas pesquisas
numa perspectiva diferente daquela em que foram produzidas. Em certos casos,
porém, aqueles dados documentais, ainda que viciados por opções ideológicas,
foram obtidos também graças a elas.
Separar o joio do trigo só é possível através de uma crítica interna. Se nos
limitássemos, por exemplo, a uma recusa preconcebida de ordem ideológica em
relação às pesquisas que explicam longuíssimas continuidades raciais (Höfler)
ou arquetípicos (Eliade), estaríamos cometendo um grave erro. Isso vale a fortiori para a obra, ainda mais rica
e original, de Dumézil. Ainda mais esquiva, também: a continuidade inconsciente
entre mitos germânicos e aspectos da Alemanha nazista mostrava-se, em Mythes et dieux des Germains, como um
dado, sem remeter à raça nem ao inconsciente coletivo. Nos trabalhos
posteriores, Dumézil insistiu, pelo contrário, na continuidade consciente
daquilo que acabou por chamar de “ideologia”indo-européia das três funções.
Também essa tácita revisão autocrítica sobre um ponto central indica que,
depois de Mythes et dieux des Germains,
Dumézil virou a página.”(op.cit.:206). Levando ainda mais adiante, é
igualmente legítimo ressaltar o próprio desafio que o confronto com o inimigo
sem cair na tentação de prosseguir em seu extermínio ou mesmo da produção de
sua indignidade a qualquer custo. Há em Cultura e Imperialismo de Edward Said – o mesmo
Said que do ponto de vista de Sahlins, advoga desde o relativismo o suficiente
para afirmar que there are some things
that are better left un-Said - uma passagem que evoca algo além do respeito
intelectual. Evoca também o prazer em se deparar com o engenho de alguém que se
mostra digno de admiração, não a despeito da inimizade mas exatamente porque é,
antes de mais nada, seu inimigo: “(...) é extremamente
revigorante e inspirador não só ler o próprio lado, por assim dizer, mas também
entender de que modo um grande artista como Kipling (poucos foram mais imperialistas
do que ele) apresentou a Índia com tamanha habilidade, e como, ao fazer isso,
seu romance Kim não só derivava de
uma longa história da perspectiva anglo-indiana, mas também, à sua revelia,
anunciava que essa perspectiva era insustentável, na medida em que insistia na
crença de que a realidade indiana demandava, e até suplicava, uma tutela
britânica por tempo mais ou menos indeterminado.” (Said, 1995:22).
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Finais exemplares para um romance americano em tradução ruim
Foi então, quando caiu. Não exatamente como soa, mas de forma indecente o suficiente para deixá-lo triste. Talo sem água, pétalas murchas e o odor do tempo acumulado se fazendo em sebo e suco. Nada agradável de ver, especialmente quando reunido numa festa de ex-alunos, prédica de tudo o que violaria a santidade do funeral que pela queda dá sinais para além da óbvia aproximação. Já não era seu. A bem da verdade, pousado em minhas mãos e sem qualquer vigor ou movimento, a trama parece estar chegando ao fim. O barulho não incomoda mais e tampouco ouvimos o silêncio. Os papéis da diretoria espalhados no chão já não causam medo de sermos pegos. Não na idade em que estamos. Ainda que sem luz que não seja uma sobra azul escura projetada pela distância do prédio ao lado pude ler, em meio ao apocalipse morno e amuado em que se transformou o reencontro, o nome de alguns garotos que em nosso lugar teriam muito o que temer. Não há coragem naquilo que fizemos. Quase desejo sorte melhor aos rostinhos de quem ainda se assusta com um mero diretor de uma escola de segunda categoria, mas é sempre quando me lembro do que faria no lugar do velho inútil que se senta nesta mesa me descabelando em favores para conquistar um mínimo de intimidade entendendo estar ali, naquela cadeira o pouco de aventura que alguém como eu poderia ter. Cheguei a me esquecer de que estava acompanhado ao ponto de não estar mais, o que percebi tarde. Restaram-me as fotos sobre as quais e com as quais já não há mais nada a dizer. Aqui não cabe trama alguma. Que entre a merda do diretor.
Afaste-se, narrador.
Afaste-se, narrador.
Postado por
Refrator de Curvelo (na foto do perfilado, restos da reunião dos Menos que Um)
às
15:36
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Para falar em público
Sentado à margem do rio, perguntou-se sobre a possibilidade de o mesmo ser, como à moda dos geômetras, um poliedro. Porque, no traço, o octaedro deixa-se contar com as maquinações dos números em se encerrar por definição num oito que, apesar dos jogos ideogramáticos, em nada se assemelha com o infinito. Está lá, inteiro e auto-contido nas retas que lhe traçam o perfil. Não é um mapa, mas sua identidade.
Na beira, uma grama verde e curta, moldada pelo artifício de um qualquer que lhe dá a tosa. Não grande coisa, deixava-se correr pela imposição da inclinação do terreno até seu vir a ser: mar, represa, outro rio, quem sabe. Disposto no exercício da ignorância percebeu que não importando o grau de abstração e o esforço intelectivo, era preciso reconhecer: apesar das margens, um rio sempre sugere ter mais do que os parcos dois lados divulgados pela propaganda do governo; o governo seu e o dos outros. Não fosse assim, pontes e afogamentos, patos e peixes seriam, via de regra, proibidos.
Na beira, uma grama verde e curta, moldada pelo artifício de um qualquer que lhe dá a tosa. Não grande coisa, deixava-se correr pela imposição da inclinação do terreno até seu vir a ser: mar, represa, outro rio, quem sabe. Disposto no exercício da ignorância percebeu que não importando o grau de abstração e o esforço intelectivo, era preciso reconhecer: apesar das margens, um rio sempre sugere ter mais do que os parcos dois lados divulgados pela propaganda do governo; o governo seu e o dos outros. Não fosse assim, pontes e afogamentos, patos e peixes seriam, via de regra, proibidos.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Pelo Ladrão, por isso, surrealismo
Acontecer até o fim. Nunca sei se estamos falando de amor ou de uma reação química; consumir a relação por inteiro, dissolver as marcas um do outro, um no outro, levando em conta a estapafúrdia idéia de que amor ocorre em casais, como é estapafúrdia a idéia de uma reação química acontecer aos pares, feito Hélio e Carbono. Acontecer até o fim demanda coisas demais, laços demasiados, cortejos e enlaces, ensaios e mais ensaios antes de sabermos qual foi a que valeu, qual lance de dados fez as vezes de realidade, lembrando a golpes de martelo que sempre sobra algo, que o real escorre as formas deixando as pontas soltas correndo dependuradas do lado de fora da porta do carro. Realidade? Não conheço imagem melhor do que o nariz escorrer até o fim, frase que não faz sentido algum e justamente por isso, c.q.d..
sexta-feira, 24 de junho de 2011
01 ao pé da página
Gostaria de registrar isto. Isto mesmo. “Isto”. Isto é, antes de qualquer outra coisa, escrito. Na verdade, riscado, desenhado, configurado em pixels e binarismo, mas isto está escrito. Não recomendo literatura, não figura prosa, não culmina em verso. Ao menos não até ser tarde demais. Não está confuso, não é torto, não demanda paciência. Está um passo atrás – e não um passo à frente. Isto não conta com estofo, não fornece grandes linhas porque é pobre, menor, e desavisado. E tropeça. Não se filia, é meio adotado, não encontra linhagem e, ainda assim, não produz inovação ainda que composto num parque tecnológico. Não sendo apologia a Magritte, isto é assim mesmo. Mas ainda assim, tão pouco, tosco e primário, desajusta. Ficamos assim. Pode ser que aconteça, pode ser literatura de ficção, poema, ensaio ou algaravia. Mas o será, caso seja, se for, quando for tarde demais.
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