sexta-feira, 15 de outubro de 2010

votar na era da técnica

Estou assistindo ao espetáculo do fingidor que é tal como poeta, finge a dor que deveras sente. Não imagino outra forma de oferecer contorno à triste figura das conversas que sou obrigado a assistir, e tampouco no espetáculo lamentável em que a vida nas praças toma a forma. Já houve o tempo em que defender os seus significava exatamente isto, em idos tempos coronéis, e tal. Fico imaginando qual a sorte de coronelato e compadrio empresta afinação para o atual coro acusador que toma forma a cada período eleitoral, só não menos irritante que os acusadores inconformados nos quais se tornam, os eleitores de um candidato vencedor. Até consinto na idéia de que alguém tem que governar, mas é inimaginável que pelas mesmas razões eu tenha que fingir que gosto disso. Até porque, se mestre na arte de fingir acabo por adoecer, viver a dor de não saber aquilo que deveras sabia. Enfim, o que preciso escrever é que quando são muitos os feiticeiros, a feitiçaria é arte fácil. Entenda como quiser.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Falha de São Paulo eliminada? Eliminado?

Daí que eu recuperei o texto de fechamento de forma a evidenciar o evento antes que nem mesmo se possa marcá-lo. Até porque, com as eleições, há muita gente que acha que sabe como o país funciona, qual é a marca de seu poder constituinte. Na verdade, meu medo é maior, mais abrangente, e não assina por nome de Dilma, Serra ou qualquer outro. Pior, meu medo ensinou a lermos o nomes dos candidatos citados. Por isso retomo o texto. Não por concordar, não por conhecer, mas por perceber que o grave do espaço público é que é plenamente possível, em plena era do voyeurismo, fazer quase tudo por debaixo dos panos. A melhor forma de esconder é deixar à vista.











Os responsáveis por este texto não foram notificados quanto ao teor desta publicação e não têm qualquer responsabilidade, e o que faço, faço sem qualquer consentimento.


Há duas semanas resolvemos fazer um site de humor destinado à crítica da cobertura jornalística, o Falha de S.Paulo (www.falhadespaulo.com.br), uma sátira ao jornal “Folha de S.Paulo”. É um site com críticas? Sim, claro. Tão duras quanto as feitas pelo CQC, Casseta & Planeta ou José Simão, por exemplo. Hoje recebemos uma decisão liminar (antecipação de tutela, concedida pela 29ª Vara Cível de SP) que nos obriga a tirar o site do ar, sob pena de multa diária de R$ 1.000. A desculpa utilizada pelo jornal para mover a ação foi o "uso indevido da marca" (tucanaram a censura).
É chocante a hipocrisia da Folha. Se isso não é censura e um atentado inaceitável à liberdade de expressão, juro que não sabemos o que é. Chega a ser cômico: o mesmo jornal que faz dezenas de editoriais acusando o governo de censura e bradando indignado por “liberdade de expressão” comete esse ato violento de censura. Ato este, aliás, bastante covarde: o maior jornal do país movimentou um enorme escritório de advocacia e o Poder Judiciário contra um pequeno site independente. É muita falta de humor, de esportividade, de respeito à democracia.
Senhores proprietários e advogados da Folha, podem ficar tranquilos. Todos ainda poderão ser satirizados, menos vocês. Todos merecem liberdade de imprensa, menos quem não é da sua turma. E, como ao contrário de vocês, respeitamos as instituições e a democracia, vamos cumprir a ordem judicial.
Parabéns, Folha! A censura imposta por vocês será cumprida.



Lino Ito Bocchini e Mario Ito Bocchini



Se a acusação procede, e se houve uso indevido de marca, é porque embora haja desvio denotativo da marca entre os dois veículos, ocorre coincidência conotativa.



Melhor sorte aos Bocchini da próxima vez.

Temas Contemporâneos da Antropologia Social I – pergunte ao Melanésio

Muito se debate sobre as possibilidades de haver categorias ou conceitos que operem como transculturais ou, segundo o jargão britânico, cross-cultural categories [1]. Por exemplo, se cultura é uma categoria aplicável entre-culturas, isto é, se faz sentido ir a uma outra cultura e falar sobre ela como se de fato a mesma fosse outra cultura. Mas é óbvio que sim. Mais ou menos. Até porque, mesmo que tenham, não implica que signifique a mesma coisa[2]. Tudo por causa da merda das weltanschauungen que fazem da variação dos valores como alternação de pontos de vista sobre o mundo equalizando a diversidade da doxa como possibilidades de léxico sobre o mundo em comum, o mundo natural. Não é preciso dizer que o epicentro articulador das variações é a formulação de base sobre o mundo natural, base esta que acerta o relógio segundo o meridiano de Greenwich.

Assim, há uma série de termos canônicos utilizados para formular comparações entre formas institucionais, as mesmas que ora e vez permitem que se diga “lá, uma cultura; ali, aquela sociedade”. Nesta de apontar o dedo e tecer considerações de teor comparativo, o problema: há palavras-chave que sirvam de régua e, mais, rua de mão-dupla? Dá pra ir e voltar quando o tema das perguntas é “sociedade”, “estética”, “cultura”? Tem uma forma muito didática de encenar este problema. Pergunte ao melanésio.






No Brasil, em especial o das redes de relacionamento on-line como Orkut , roda a seguinte expressão: nunca fiz amigos bebendo leite[3]. E aí, melanésio? Qu'est-ce que tu me dit?





[1]

O livro organizado por Tim Ingold, Key Debates in Social Anthropology, é um exemplo importante disso pois, além de todo o mais, é exemplo de jogos de salão d academia britânica. Matriushka, coisas do gênero.
[2]

É aí que entra no jogo as aspas de Manuela Carneiro da Cunha; Cultura com aspas, recém publicado (lembrando que ao escrever este texto me situo em 2010).
[3]

http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=1518354

EPÍGRAFE

"Nesta tese espero ter correspondido a um diálogo reproduzido num clichet do conto de Borges em que disse para eu mesmo, mais jovem:

CUT THE CRAP."

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Mais um dia inútil na Terra da Carochinha

Sabe-se que é difícil encontrar com Carochinha. Tantas são as que conta, os desvairios que sua boca promove que ela mesma virou matéria sonora daquelas difíceis de se acreditar. E como é terra de Carochinha, e ela mesma virou som, tal o desmazelo com o que se passou a ter ao dizer qualquer coisa, ou mesmo todas as coisas. Sua credibilidade de Carochinha contaminou aos poucos o verbo solto feito perdigoto. Afinal, em terra de Carochinha. Não se poderia dizer nada sem incorrer na mais completa falácia, tudo inacreditável, e de todas as formas. Percebeu-se também que as reuniões se transformaram em mero alvoroço, contaminando tudo o que se dizia na fórmula mais completa da perda de tempo, dado que impossível acolher a conversação. Houve quem tentou por escrito, mas invariavelmente alguém acabava por ler em voz alta uma ou outra passagem, ou mesmo uma mensagem inteira. Esta é minha última tentativa. Peço, por tudo o que restou de mais sagrado, que leia este parágrafo no mais profundo silêncio e não comente com ninguém.

sábado, 18 de setembro de 2010

Clássicos para a Juventude de Prima Antropologia

Da diferença entre franceses e ingleses, que pode ser sintetizada na relação entre Mauss e Malinowski. O primeiro, francês, leu tudo quanto há, inclusive o que o segundo escreveu; promoveu um esboço de uma teoria geral sistemático da explicação de um monte de coisas a partir das investigações do outro sujeito, o mesmo Malinowslki que o agradecera num livro sobre Crime e costume na sociedade primitiva a boa leitura. Agradecimento de amigo.

Malinowski, por sua vez, é polonês.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

‎"O negócio é o seguinte. Somos independentes. Queremos saber se você é, quero dizer, se você está ou não está conosco."


Não resisti. Respondi:


"Depende."


(obrigado, Luís Felipe)