quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Sparring forçado acerca da doença moral.


“Confesso que não entendo bem. Li quando era mais novo numa edição daquelas que levamos a sério porque parecem feitas no escuro, às escondidas enquanto as tropas passam na rua. Quando comprei já estava cheia de vincos.”

“Você sempre fala um negócio horroroso nessas horas.”

“É. Estou tentando lembrar como foi que eu escrevi sobre o livro. Algo do tipo: capa em vinho com um projeto gráfico apressado feito por quem queria gritar ao invés de desenhar.”

“Sério?”

“E li aquilo que parecia uma daquelas traduções de urgência, um plano secreto... com 3 mil exemplares impressos. Esse tipo de segredo posto a público.”

“Se quiser esconder um segredo, revele a verdade? É sério que estamos falando sobre isso?”

“E aí tinha aquela história sobre revelar a potência do corpo quando da doença.”

“Olha. Não acho que é a melhor hora.”

“Dá pra conversar feito gente ou vai ficar me censurando? Incrível!”

“...”

“Porque gosto da idéia. Nem me lembro de quem é o livro...”

“Nietzsche. Ecce Homo.

“Não importa. Não importa quem era. Aliás, a única coisa lúcida que este sujeito fez foi abraçar o cavalo açoitado antes de simplesmente vegetar. Mas eu acho que isso começa a fazer algum sentido pra mim, digo, só haver saúde na doença. Porque algumas coisas ficam mais urgentes quando se está aqui, sem urgência alguma. Tempo tirado da caixa d’água a golpes de colher de café. E nisso, de comer e dormir, eu fico suscetível. Desde sempre. Uma camada da pele evapora e tudo começa a transitar, não importa a distância, tudo fica mais sensível. Ficar doente sempre me transformou num pervertido moral e começo a acreditar que a perversão é a evaporação de uma camada da pele. Tudo dói mais, tudo reverbera e transborda. Ficar doente tira dois palmos de altura da borda da piscina, sabe? Não tem mais certo e errado com clareza porque entra tudo, de perto e de longe, e sai tudo. Vulnerável e insaciável podem ser postos no dicionário de sinônimos. Sempre arrisquei delirar em febre por causa de um toque a mais. Cada micro-orifício da pele é um foco de dor e uma zona erógena. É o que a evaporação de uma camada da pele faz e é ela que precisamos restabelecer quando a doença vai embora. Senão viramos doentes morais querendo tocar a tudo e a todos com tudo o que temos, exatamente como quando da doença.”

“Gênio. Você é simplesmente genial.”

“Sei que isso não é assim, diabos. Sei que não é assim e que não é real, que a pele não evapora. Mas a figura faz sentido, digo, que doente o corpo fica permeável. Fico imaginando a hora da morte, especialmente de uma morte violenta como o corpo deve ficar poderoso antes de se desfazer imediatamente. Deve ficar calcinado pelo próprio vapor que libera.”

“Vou procurar um cavalo pra você.”

“Vá se foder.”

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Notas da Torre de Observação: La faiblesse de croire


DE CERTEAU, Michel. La faiblesse de croire. Seuil. Paris. 1985.

Serão cinco anos envolvido com a mesma pesquisa. De uma forma geral eu tenho evitado fórmulas expressas que definam movimentos abrangentes, com envergadura muito maior do que consigo, de fato, cobrir. Ainda assim, quando li o artigo de Michel de Certeau sobre a moralidade das práticas e que ele faz um passeio peculiar sobre a França moderna, o mesmo De Certeau sugere uma passagem interessante que em muito tem a ver com as correntes marinhas mais profundas para as quais quero chamar a atenção algum lugar do futuro, quando souber fazê-lo. Ao descrever uma série de transformações que acompanha parte de uma historiografia consagrada sobre a modernização das instituições que conta com nomes como os de Lucien Febvre e Robert Mandrou, em um dado momento leio a passagem que afirma a transformação não tão lenta assim das considerações sobre heresia e seu risco para a ordem do mundo sendo lentamente transferidas para a problematização da alteridade. A modernidade, aqui, marcaria a cessão da forma territorial da igreja para a constituição do espaço administrado com vistas na otimização das relações de governo em que o cálculo dos prejuízos das guerras civis, enormemente marcada pela empreitada das guerras religiosas, transforma em ordem civil alguns dos predicados que poderíamos encontrar na Lettre sur la tolérance de Voltaire. Nisso, o movimento de reconhecimento da pluralidade religiosa fortemente tematizada nas sessões parlamentares sobre a liberdade de culto público durante a Revolução francesa confere à divergência religiosa o pressuposto de diversidade de opinião. O primeiro efeito disso, desejaria o Iluminista de primeira hora, seria de exterminar com a justificativa religiosa para a violência de larga escala.
            Ao ter o discurso e a vida religiosa mitigada ao plano da variedade das formas de vida presentes a serem administradas por uma outra estância, impessoal e terrena, a interrupção fundamental da coesão doutrinal chamada heresia é diluída junto com o peso da doutrina professada. Nada mais de casos como a dos valdenses ou dos cátaros, e nada mais de massacres em nome da cruz, reduzida a mera justificativa. Há quem goste de chamar este período de democratização e, outros, do gérmen da pluralidade religiosa. Como não sou bom em prognósticos retroativos, prefiro chamar este movimento de criação de um novo problema. A questão das seitas religiosas e a suspeição ao seu redor constitui um outro desdobramento a ser considerado nesta história, a mesma suspeição de toda forma de experiência que não pode ser livremente comunicada, como a loucura, a epifania, a certeza e, porque não, o amor.
            O tratamento daquilo que o Estado francês – que em meio ao século XIX se encontrava em desabrida instabilidade dado à sucessão de processos revolucionários que reforçaram a tese de repúblicas repressoras e monarquias algo mais condescendentes – opera de forma particular ao dar vazão à acusação que utiliza o vocábulo seita. Na verdade, parece haver uma tensão entre a declaração que afirma todos serem irmãos diante Deus e a Natureza, signo de universalizado, inclusive do ponto de vista da mediação técnica na generalização da pedagogia de massa, contraposto ao nacionalismo de igreja que tanto parece se esforçar em encontrar o estrangeiro como agente fora-da-lei, e vice-versa. O estrangeiro figura como inimigo e, nos momentos específicos, como falso filho da pátria, isto é, como traidor que somente pode sê-lo na medida em que pode ser descoberto – porta uma identidade falsa, ainda que seja nascido na França e filho de franceses numa linhagem de quinze gerações. E aquilo que parece precisar de um severo descortino das camadas de arquivos para demonstrar as implicações tem, numa determinada passagem de Michel de Certeau, um desenho que quero compreender melhor dado que considero promissor. Trata-se do ensaio de abertura de La faiblesse de croire, do ensaio chamado Une figure énigmatique. A tradução é minha. Desculpem.
           
            “A atualidade dá à vida religiosa uma nova fisionomia. Os religiosos e religiosas heroicos, veneráveis, odiosos ou excepcionais, povoam a história. Todavia todos parecem portar um sinal que assusta. Como o padre, ainda não exatamente pelas mesmas razões, o religioso intriga mais do que provoca temor ou respeito. Ele se junta ao selvagem e ao feiticeiro no Folclore que é o próprio interior da França. Sua personagem tem mais valor como enigma do que como exemplo. Porta a figura da estranheza, ainda que ambígua que designa a cada vez um segredo importante e um passado revolvido. Ele fascina como qualquer coisa escondida ao mesmo tempo em que tem o estatuto de objeto obsoleto, tal como uma relíquia de sociedades desaparecidas. Quem é esta, a figura enigmática? “(1987:25)

            De acordo com o signo da estranheza, do que é escondido, a figura selvagem do estrangeiro mesmo que em seu próprio país, ou do campagnard sorcier presentes no arco de estudos que vão desde Jules Michelet e Anatole Le Braz até os mais recentes esforços de Jeanne Favret-Saada, identifica o povo que segue estrangeiro em seu próprio país, da mesma forma que o religioso que vive a religião sem necessariamente organiza-la na forma de uma igreja, se transformando assim num embaraço comunicativo do tipo que diz que Jesus falou comigo. Ele interrompe uma certa ordem na medida em que atravessa relações de diferenciação de papéis sociais e faz apelo a uma unidade imprevisível com Deus – este estrangeiro por excelência, insiste Marcel Gauchet. Uma vez posta a ordem em que são distribuídos os papéis, toda relação imediata com o sentido refaz o percurso da heresia ou, no caso mitigado, da heterodoxia. Mas não se trata mais de uma relação com a hierarquia da igreja, mas de ser parte da população. 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Com a carne moída


Tudo isso, enfim,
porque
não consigo dormir,
não consigo acordar
do sono intenso
do sonho imenso,
encruzilhada sem ponto,
sem nó,
e é só
por isso que o caso segue, assim, e eu sangro para dentro – não por dentro – deitando o sangue para todos os lados, desde que sob a capa fina da epiderme que é para evitar que vaze o caldo pardo, que entorne – transtorno líquido – sobre-efeito sístole-diastólico da pressão que demora sem explodir antes da meia-noite, fronteira meio dia, meio não.
Que seja para usar de uma faca, uma lasca de ardósia, uma caneta bico de pena, ou mesmo uma folha de papel sulfite, só para fazer sangrar o mundo afora dando a minha carne à carne que me assombra desde dentro e que em vôo solo em cada ponto-cego distrai – eu, já desatento – do mero aceno ou da mais presente memória
e que só faz seguir
a presença desencarnada
a quem então ofereço meu sangue,
sacrifício tenro de um corpo
meio-morto, meio dia
em meio à noite,
que quer acordar
e dormir,
e só. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Discurso de Morte de Matei Candea


“Hoje eu morro pela ação da forca. Estou diante de vocês, agora, sem máscara que impeça que vejam meu sofrimento derradeiro, pelo quê peço paciência. Logo mais, minha face será coberta para que não se veja que sorte de espetáculo meu rosto fará diante de vocês. Abusado, pode ofendê-los e então, antes que o momento de borrar a visagem com um capuz fedorento, peço, repito, um tempo de sua atenção. Porque não quero declarar inocência e tampouco pedir perdão, não pretendo chorar e tampouco negar, alegar falta de clareza em algum momento ou passagem do processo. Seria ocioso, desnecessário e não seria, de outra forma, honesto. Não sou inocente, ainda que não seja culpado daquilo que irá me matar, e isto quero notar. Não quero pedir perdão no momento derradeiro porque há muito troquei minha horas de sono pelas preces, pela redação das cartas em que pedi perdão sem nunca realizar o pedido de absolvição. Não tenho mais forças para chorar, o que se tornou um exercício ocioso desde então, chegando mesmo a me fazer acreditar que seria incapaz de produzir uma lágrima a mais. Não tenho mais fôlego para este último soluço. Não tenho como negar aquilo que é fato, é evidente e nunca neguei, assim como compreendo que o processo que me trouxe até aqui foi conduzido na mais profunda normalidade. E talvez, por isso, pretendo dizer minhas últimas palavras atravessando os seus olhos com os meus. São minhas últimas palavras, peço atenção. Não se trata de eu merecer ou não a pena, e nem se o mundo ficará mais leve, mais seguro com a minha ausência. A bem da verdade, essa alternativa é decididamente peculiar e não há muito a dizer quanto a ingenuidade de uma hipótese como esta. O caso é que farão comigo algo muito semelhante daquilo o que fiz, o que parece ser uma compensação adequada, no que no final das contas é de fato, uma soma, e não uma subtração. Serei mais um morto. O que quero saber, e morro sem jamais ter ouvido algo a respeito, é se estou em vias de morrer por ter sido condenado porque eu não tive forças de fazer a coisa certa na hora certa, ou se falta a vocês esta força que me faltou no derradeiro momento. Sei que agora é tarde. Nem espero que pensem sobre isso, a roda deve girar. Mas não estou seguro quanto a quem está em julgamento no ato de minha morte. Mas desconfio que aqui, amarrado a uma tábua prestes a morrer pelo pescoço, acabei me transformando num alvo fácil, e isso decididamente fere até mesmo minha condição animal. Isso não se faz.”