domingo, 22 de julho de 2012

Promener pour la méthode: OULIPO



1-

            Não há roteiro. A história toda fora um arroubo dramático para reduzir o plano e o caminho a uma sequência de ações. Poderia colocar tudo na conta do bardo inglês ou dos bastardos do século de ouro espanhol. A vida é sonho e o sonho se sonha nos palcos. A vida é regida por marcas delicadas sobre as quais é necessário saber preencher com som e fúria. Com isso não digo que o movimento seja, ou precise se dar ao acaso. Leis não respeitam este panorama, e não desenham alguém como centro necessário de algo, e nisso reside a beleza e o perigo dos modelos, das constantes e das Constituições. Põem e depõem, ainda que sempre a um custo muito alto, ou mediante formas aberrantes de sacrifício em geral auto-consciente. E é neste momento que eu gostaria de exemplificar tudo com estudos e anotações sobre Poincaré, Ampère, Leibniz ou Newton. Mas eu não sei voar. 
            Há duas semanas que tudo o que sei fazer é caminhar. Saio pela porta pesada do 53, Rue du Moulin Vert e decido, não somente se à direita ou à esquerda. Decido aos poucos quais formas de tout à droit comporão o pequeno mapa da cidade que disponho, ou que sei reconhecer em tempo real. É pouca coisa, mas para deduzir um modelo formal não é necessário um conteúdo de experiência fartíssimo. É preciso entender poucas coisas, as que são indispensáveis. É como a vida, é como eu posso evocar algo como cultura; modos de usar, talvez. Assim, Paris permite que a distância entre dois pontos, mesmo que por uma diferença pequena de grau, seja muito perto ou muito longe, ao mesmo tempo, ainda que pegue de alguma forma uma reta. Tudo depende, como já disse, a forma de tout à droit que você desenha e escolhe - porque, e aí está a marca, só se pode ir à tout droit. Basta imaginar, por exemplo, dois pontos de onde se espraiam radiais; 10, 20 cortando em fatias um desenho circular fechado em seus 360 graus, compondo em sua extensão uma malha de linhas cujos cruzamentos que são interrompidos por construções estratégicas, como um presídio, uma escola militar, um cemitério ou um complexo hospitalar. As grandes linhas retas se separam em caminhos alternativos, ângulos de 10º para pontos que, no começo da divergência radial estavam a 30 metros de distância e, por causa da interrupção feita por um hospital do tamanho de Cochin estarão logo mais a 500, 700 metros de distância, se tão pouco.

2-

            Quero me comportar com mais cautela exatamente como deveria agir  um ávido comprador de livros. Estou em meio a uma mini-Meca de bibliófilos, se é que bibliófilos preferem uma Meca a um mezanino que desaparece no dia seguinte. Na verdade, cheguei à fonte de muitos delírios secretos e ressequidos de um tempo que insisto em abandonar e que, ainda assim volta com a língua de fora e ares de abanar a cauda. Meu caso fica um pouco mais grave devido à força que a publicação da arte de ser intelectual  francesa exerceu em minha vida que teve sua gênese na francofilia que meus pais nutriram no percurso de minha infância, e no final da deles. Recebi a mesma francofilia traduzida em revistas automobilística impressas em Paris e de uma mãe franco-falante orgulhosa do feito que traduzia em alta voz os manuais de instrução de duas ou três caixas de Lego que transformaram meu irmão num futuro engenheiro brilhante, o mesmo engenheiro frustrado pelas carreiras nas letras clássicas, magistério e na vida de polímata esportivo.

          Mais adiante, vim a me tornar antropólogo num país marcado profundamente por uma antropologia completamente debitária da herança cultural francesa ou, melhor, de uma certa aliança francesa. Lévi-Strauss, Paul Ricoeur, Albert Camus, Jean-Paul Sartre, Pierre Clastres (surpreendentemente, o primeiro sobre quem ouvi falar) fazem parte de um panteão de leituras graves que fiz ainda aos 18 anos, em grande parte impulsionadas pela companhia de Celso Azzan Jr. e Mark Julian Cass. Ambos professores de primeira hora, o segundo o que me ofereceu minha primeira leitura de The Rebel, ou L'homme revolté, livro que insisto em prometer retornar sem qualquer efeito prático. Mas foi com a leitura de O estrangeiro que recuperei o fôlego literário que eu havia abandonado quando ainda era moleque e leitor das investigações severíssimas conduzidas por Sherlock Holmes. Camus foi um forte calor nas têmporas, sua dilatação mesmo. Mas um só Camus não faz Panteão e claramente fugi do tema, ainda que não tivesse algum.
            A marca franco-amiga seguiu potente porque, pouco tempo depois vim a me tornar livreiro naquela que, até então era somente a loja que mais sonhava em conhecer, livraria que já se fazia presente em boa parte dos livros que eu tinha. O sebo que existia na cidade de São Carlos, o casarão demolido tão claramente quanto o desejo de estudar na França, tinha fornecimento da Livraria Berinjela. Por causa de uma teimosia forte que me degenera os rins, fui parar na mesmo Rio de Janeiro que preenchia minha estantes, que fornecia livros ao outrora grandioso Outros Contos. A carne do esqueleto de meus estudos viria a ficar obesa, como de fato se deu. Toda a gordura proveniente do acesso fácil ao tempero literário foi afetada pela predileção local pelo lúdico, pelo jogo, e pelas regras.
            Convém, obviamente definir o que eu chamo de "predileção local". Jogos de todas as formas, de todos os lugares. O jogo de cartas em Da mão para a boca, de Paul Auster; as contratações sempre adiadas para o Botafogo; as apostas feitas nas campanhas vice-gloriosas do Fluminense na Libertadores da América; o apogeu e glória de Roger Federer; OULIPO. É este o tipo de predileção local que culminou na publicação de uma revista de poesia, da qual nunca participei ou li, chamada Modo de Usar, alusão ao romance de Georges Perec sobre a vida pelo ponto de vista do método, pelas regras do jogo. É este mesmo Perec o protagonista da cena que, até onde entendo das coisas, marca de forma indelével Paris não tem fim de Enrique Vila-Matas.
            Narrador abismado. Caminha por um café movido à Georges Perec. Chega muito perto do mesmo, como que para atestar sua existência em carne e osso. Uma polegada de distância, se tanto. A reposta vem à forma de Liceu:

“Jovem, o mundo é grande”.

            Afaste-se, narrador. 

domingo, 15 de julho de 2012

Promener pour la méthode: Afrique Phantôme


Do Pará à Paris o trajeto é, ainda que em linha reta uma encruzilhada constante. Obviamente que é uma forma trágica de desenhar algo muito simples de entender: Paris é uma cidade muito fácil. Com fácil é preciso que se entenda, é fácil desde que se seja minimamente iniciado em suas artes de fazer viver. A língua, os hábitos comensais e a distância entre partículas em trânsito definem um jogo muito preciso e por vezes enfadonho característicos de um universo que jorrou sobre o planeta a diversidade crônica da physique sociale. Não é preciso saber francês, bastando mostrar interesse na língua e esforço em pronuncia-la. Não é preciso saber daquilo que se come desse que se saiba manifestar admiração discreta. Não é preciso acolher os olhares alheios desde que se fassa soar os alarmes de merci, pardon, bon jour, bonne journée e sua versão soir.

É complicado perceber que em meio tudo o que mais poderia trazer alguma forma de sofrimento é me recolher à dimensão particular da experiência. Mais difícil ainda é aceitar que  reconhecer o papel de partícula não habilita a ninguém fornecer a forma do modelo nas bases do comportamento particular. No entanto é na disposição paralela destes dois mundos que a Paris que testemunho é uma espécie de mundo bizarro de si-mesma. A admiração subserviente por tudo o que veio a subjugar; o acolhimento atento por tudo aquilo que despreza; ainda ontem um sujeito peculiar chamado Laurent me disse, para resumir a ópera que a África hoje, é Paris. E Paris é África. Isso significa que temos 4 termos de relação que não se coincidem.

Era nosso terceiro dia na cidade. Minha esposa e eu fomos fazer o que comunidades fazem quando expatriadas. Reunimo-nos com convivas da terra natal, pessoas que já conhecemos e que toleramos, amamos ou, na pior das hipóteses, não odiamos. O ódio pelo irmão é acirrado quando se é estrangeiro, vale dizer. Fomos até Belleville guiados pela família nuclear de meu orientador até nos encontrarmos com uma segunda família no Parque de Belleville. Ruas estreitas alongadas na vertical num gráfico estatístico de altos e baixos abruptos, Belleville é uma parte alta de Paris. Vê-se tudo. É onde há cartões postais sucessivos num mero torcer de pescoço. De lá nos dirigimos a Belleviloise, casa de eventos em que há um por andar. O que não se cobra na entrada é assaltado num mero chopp.

Circulamos num lounge, aonde Laurent nos encontrou. E então, um restaurante a rez-de-chaussé. Vinho, dourado assado na brasa, arroz, molhos balsâmico, vinagrete e de espinafre acompanhados por um bourgogne. Tudo desenhado como uma tarde descolada e suave em um bairro de trabalhadores parisienses. Parisienses? Por isso que Paris é África. Paris é a África em geral, aquela que não existe a não ser que se invente uma série de dispositivos de distanciamento e, mais do que qualquer outra coisa, um jogo de lentes. Não é que não exista, mas para existir é preciso muita coisa, especialmente deslocamento de pessoas. Para a África seja Paris é preciso desalojar a África daquilo que ela nunca foi. E então, um show de artistas congoleses que desaloja da boca de Laurent um diagnóstico sobre a França dos trabalhadores, dos bairros operários, que não são franceses porque são árabes, africanos e até asiáticos, portanto Paris é a África.






Creio que talvez eu tenha me enganado. Talvez a partir do que me disse Laurent, Paris seja exatamente como a África. Fronteira desenhada feito um cotovelo, um nódulo, uma indigestão, e não como uma linha no mapa, justamente como faço no papel o desenho do mapa do estado do Pará, mas que não é, absolutamente Paris.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Promener la méthode: premier bon jour


Só se ao dizer arquitetônica eu puder dizer urbanismo. E ao invés de comida, culinária. Porque está, antes de mais nada, no método. A raiz está no método. Como a relação de corte, em que o íntimo é evitado a cada sorriso, a cada bon jour, monsieur. Ça vas sem nada acontecer, sem nada estar acontecendo. Mas segue. Na arte de não precisar ser pessoa alguma senão aquela que consegue, pouco a pouco trafegar no circuito, ser um elemento do sistema, ser uma pessoa pode ser antes de mais nada uma marca, um nódulo, a presentificação da impessoalidade. Só assim é possível elogiar dizendo que, por fim, c’est pas mal. 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Pelo ladrão, e saiu


Dois dedos, e parece ser uma dose. A sete palmos seria o fim. Em nove meses se trata de  um começo; conturbado, desabrido e equivocado. Em quatro tempos, resolvido. Noves fora, nada.



Ao fundo, na mesma sala há quem grite ser uma imposição, um sistema de regras, um modelo imposto, uma chave repressiva. Sigo com giz no rosto e nos cueiros dizendo algo sobre a arte combinatória, sobre a dificuldade de lembrar e digo que, assim como insistiu Johnathan Franzen, a memória é a forma do esquecimento e, por isso, é o que resta. O bigode roça nos lábios e narina, vívido e teimoso, corroendo a fala, como que por um filtro. Há insistência, ao fundo, de que é uma regra, a numeração imposta, o jogo de medidas. Pelo visto, não combinamos desde o começo das aulas. A coisa não anda, ele não vem, eu não prossigo. Cansado de magistério, azedume do tempo, nove anos. Nada.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Hiléia:Altamira; Yuto Sotozaki vai à Cotijuba I


Há um momento em que não há mais o que fazer, e pode-se lacrar o tempo com esta frase tanto por causa de seu término quanto pela exaustão das forças. Forte é o tempo em que um e outro coincidem. O dia começava a se encerrar em definitivo. Contava as horas passadas após um almoço já tardio enquanto as tiras de couro das sandálias sulcavam a pele dos calos do pé, vermelha e irritadiça, ao mesmo tempo em que o suor imposto pelo calor das ruas loteadas por mangueiras tratava minhas roupas com impiedade. Recebi, ainda assim no meio do caminho onde reencontrava o hostel, uma longa indicação daquilo que se espera de um turista, acrescendo à informação uma dose de otimismo indisfarçável – sugerindo que eu faria a pé o trajeto desde onde estava até o Mangal das Garças que, confesso, até hoje não sei como é. O que sei é que é possível encontrar uma rua cuja altura do asfalto há muito já ultrapassou as medidas da calçada. As margens da rua são valas, e a topografia pouco usual.

“É pra correr melhor a chuva” – poderiam ter dito. “É uma questão de respeito. O povo daqui não entende disso, porque já tá sufocado com os ares da cidade, mas aqui deixamos a rua correr a chuva. É melhor. Deixamos os valões em Terra Firme e Guamá, e aqui conseguimos salvar esta rua aqui. Queríamos que não jogassem lixo, é fato. Mas é melhor deixar a chuva correr em profundidade”.

O deserto em que havia me envolvido na caminhada, e que cumpria um regime solitário desde minha partida do hostel nunca me abandonou. A ausência serviu de companhia, a cidade começou a ser desenhada, e os pontos de encontro reatavam linhas outras dando luz e som às histórias de outrora, de quando dancei carimbó pela primeira vez na Casa das Onze Janelas. Festa de fim de congresso, recheada de conversas perdidas sobre a obra de Gilberto Freyre, o futuro da universidade, a cultura popular, a eleição da presidente da associação, o gosto ruim da cerveja, a comida cara, as roupas dos demais, descendo o nível de interesse até o ralo, por onde corre a água da chuva, as outras águas, e o tema das águas começa a afogar o verbo, a ponto de se eu não escrever o suficiente e exagerar na tinta, a frase borra, o texto escoa, e fim. Diluído, o texto corres sempre o risco homeopático de, apesar do efeito seguir na inexistência. E então, recomeça dissolvido num infinito d´água.

Infinito é como eu chamo o que não sei contar, ou o que não dá pra contar, ou que me afogaria pelo cansaço. Mas eu nunca havia visto as onze janelas à luz do dia, sozinho, sem a proteção dos vidros de um táxi. Se à noite a fronteira marcada pelo cenário suntuoso parecia intransponível, sob a luz do sol me pergunto quem é que invade esta fortaleza todos os dias e humilha sua imponência, que tem o tamanho de sua vulnerabilidade sensível, a mesma sensibilidade ao toque que senti só de olhar o tom ranzinza do chumbo que se comprimia num lado do céu, que desaguou. Meia hora sob marquise, o mais próximo e íntimo que me fiz do Museu de Artes, voltando para o hostel com a única finalidade de não ter mais o que fazer senão me render. Não havia mais o que fazer. Cansado no fim do dia.

Com a chuva, e a iminência da noite os percursos dentro do casarão se tornaram sensivelmente povoados. As filas de pessoas que vi na Av. Nazaré, que faziam um exame de seleção do SUS, ou coisa que o valha, também estavam por ali. Da Bahia ao rio Grande do Norte, pude cumprimentar com um só “boa noite” cada um de seus representantes quase sem saber que, sem distorção alguma são todos infalivelmente paraenses. E assim, e felizmente, e a televisão, a sala com sofás e o futebol e a conversa efêmera de todos os domingos, quando todos temos uma história em comum que, num corte seco se acaba num sem mais.

A cena se compôs muito rapidamente, com os candidatos ao redor da TV, esperando mais alguns confrades para uma refeição de rua. Todos queimados de sol, embolando os odores do abafado indisfarçável da cidade, da casa e da sala, do suor, suores antigos e os da pele, sob o signo da mesma água agressiva que oprime e nos faz resignar. Melhor não, melhor deixar correr, e corramos nós, os jogadores de futebol. Minados todos, e mais um se aproxima, o que me fez recorrer a um do you wanna sit? imediatamente. Seguido do assentimento, apertei as mãos de Yuto Sotozaki, que me disse estar no Brasil pela segunda vez, e que, apontou para o monitor de televisão, tinha jogado a Taça São Paulo de Futebol Júnior pelo Palmeiras, mas abandonou o futebol, no futebol teria que fazer só uma coisa na vida e queria fazer outras coisas, como estudar inglês. Veio a se transformar em professor que, foi como começamos uma jornada ao inferno local, precisava de um tradutor. Do inglês ao português – e uma cena para filmar. Yuto me apresentou um roteiro minúsculo que traduzi pouco depois, com o compromisso de levá-lo a uma praia extraordinária que veio a ser em Cotijuba. Por aqui o diabo não bate à porta, mas Yuto sim. Às 6:30 da manhã de uma segunda-feira.



Uma segunda-feira não me é há muitos anos. Os dias também se tornaram uma zona de repetição, um exercício entre o tédio e a paciência, um aquecimento das articulações que nunca passa do mesmo desenho. Acordar de manhã é um jogo enfadonho em que a sensação de repetição, ou pior, de um movimento sem atrito produz por fim, movimento algum, ou mesmo um movimento que não se converte em movimento. Inútil. O sabor espesso da saliva guardada entre os dentes cerrados e a língua semimorta reforça a tese, o sabor, e o tormento do ar parado ao redor. A tese, já anunciada da inutilidade marca o amargo da saliva dormida e o odor de coisas velhas traduzidas em repetição por via dos sonhos que nada mais fazem senão me situaram no absolutamente banal de uma fila de banco, por exemplo. Os dedos, os braços, os pescoço, cada uma das articulações começa o dia sem fé, recusando-se aos primeiros movimentos, servindo de uma ampulheta preguiçosa que trava a cada novo grão revelando que as dimensões não se comportam entre si, arrastando e suspendendo cada novo momento, até que finalmente abro os olhos pela primeira vez, pela segunda, pela terceira, devagar e sem saber o dia, como todo o resto, o que não sei. O futuro dura muito tempo, exatamente como deixou registrado um dos principais perturbados da história do marxismo, e esta sina tem muitos desdobramentos, todos eles movidos pela desesperança, ignorância e, com alguma felicidade, pela resignação ao tempo inflexível que insiste em não passar, ao menos não segundo a dose de obediência que se demanda de um cão. O tempo não é um cão.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Hiléia:Altamira, Gimpel, o bobo


Dentro dos meus poderes. Soa à clausura, ainda que eu estivesse em plena viagem, solto por aí, sendo que para onde eu apontasse fosse Belém eu estaria preso. Mas não é clausura. É o corpo. As ruas vazias do caminho de volta, desde o almoço com Alípio mostraram a quantidade desmedida de mangueiras, todas igualmente enormes que ornam a região central da cidade. Não por acaso, ao tentar contar uma história qualquer para um ou outro conhecido que já esteve nesta paisagem, uma história que exija reconhecer um endereço mais preciso, o chiste demanda saber se “é perto de uma mangueira”. Para todos os lados.

Tricotar entre ruas, em especial entre a avenida Nazaré e a rua José Malcher, com ambas simplesmente evacuadas surtiu o efeito de me mostrar raízes, tendo as travessas o efeito de me espalharem pela cidade possível, pondo algo de mim em circulação viva. Caso morto com estocadas descuidadas, escorreria em sangue pela corrente sangüínea logo na primeira chuva, coisa que não demoraria a acontecer; uma das duas, eu imaginei, ou ambas. O terreno da violência de Belém cultivado nos meus ouvidos desde muito antes, desde um certo atraso em vir, desde tudo o que li, e as cautelas que tanto preparam meus passeios, por fim não serviram de outra coisa senão para criar impulsos diferentes, futuros diferentes permeando as rotas e os encontros, raríssimos, que vieram a acontecer. Afinal, lá estava eu, lá estavam as ruas, lá estava o deserto de mangueiras e rotas ornamentadas por edifícios postos para pregar peças, assustar e esconderem-se de todos. Mais ninguém, e eu, com a mente vazia, e a casa do diabo. E lá estava, fantasiando minhas mortes possíveis; e começando a gostar da vida paraense e a morte que ela trazia engarrafada como um gênio maligno.



            Como cheguei até Belém de avião, e como tenho medo de voar ainda que tenha certa delícia por altitude, carreguei comigo minha vasta coleção de livros imperfeitos. Uma mochila deles que, não tardou, deixei numa casa delicadamente erguida no final do arco-íris. Nesta mochila arquivei meu estoque de leituras que teriam efeito profilático em momentos de crise – que foram vários. Assim, meus livros de René Girard, Juan Rulfo, Stanley Cavell, Eduardo Galvão e Alasdair MaCyntire me pesavam nos ombros a cada chamada de um portão de embarque lembrando ser esta uma viagem repleta de tarefas, algumas delas pouco confessáveis. Parte destas tarefas estava devidamente sinalizada pela presença, sempre heterodoxa de A morte de Matusalém de Isaac Bashvis Singer, escritor iídiche novayorkino com quem passei a travar longas jornadas de conversa e simpatia, jornadas também divididas com Amós Oz e Elias Canetti. Por toda uma zona que preza o artifício das línguas secretas, gosto de imaginar, à moda da imaginação adoentada, que ando meio judeu e, por não sê-lo sei, nos apertos de mão e símbolos dispostos na lapela, que não estou sozinho.
            A leitura dos contos de Bashevis Singer cumpria a função de toda leitura trágica ou teologicamente informada que sempre ponho no colo a cada vôo em que me sento. Uma vez dentro de um avião desejo, para fins de refreio de um ou outro faniquito, que a viagem seja a última e que ela termine na queda e na explosão que antevejo a cada vez que lembro ser minha hora de voar. Entendo que o medo seja em grande parte carregado pela antecipação de algo que, por ser contingente não pode ser antecipado. Este hiato me arremessa em uma zona infinitesimal em que o adiamento do infortúnio, do fim tantas vezes temido, transforma-se num castigo eterno, as tripas devoradas por abutres, corvos e urubus. Para sempre; a eternidade na antecipação de uma mente pobre. O mal que se busca evitar não chega jamais, até porque vir pode não ser de seu domínio. O que entendi é que para evitar o abismo, para contorná-lo me é imperativo desejá-lo enquanto for o momento de sua irrupção. Não esperar que venha, mas desejar que venha. A fenda na terra me fará saltar, diria aqui se fosse um profeta pregando no deserto.



            Voltei ao hostel na eminência de chuva forte (diria iminência, mas eminência talvez faça mais sentido) que, por força do hábito me faria parar. Não parei. Travei conferência longa sobre destinos possíveis, novos rumos cujo passeio me levou ao que acontece em crônicas ruins: detalhes pitorescos do aparelho urbano e chuva. Muita chuva. Domingo interrompido.



Alguém bate à porta. Por alguma razão, todos os contos de Bashevis Singer parecem começar assim. É assim que os ordeno, é assim que me lembro deles, é assim que eles não são. Alguém bate à porta. Porque está escuro, porque é noite, porque é inverno, porque há um incêndio, porque se está a amar. E então, alguém bate à porta – em geral é o diabo. No quarto sem janelas que já trazia marcas de acolhimento, comecei a pensar na porta. Sem janelas, uma porta. Ninguém jamais bateria àquela porta. Fechei o volume que lia, um conto em que alguém chegava até uma outra pessoa, batendo à porta mais uma vez. Não sei, na verdade. É como me lembro. Choveu de novo, mas com ímpeto e energia que só vi se repetir duas ou três vezes no percurso que viria a fazer. Dois dias depois, fiz o mesmo caminho, do quarto, subindo a escada apertada até a recepção, de forma a me espalhar na sala de TV. Choveu a mesma chuva que, impetuosa e indiscreta fez parar tudo. Na verdade, é difícil descrever um momento como esse. Uma tempestade amazônica tem uma marca indiscutível. Não é que não chova forte, de forma definitiva na cidade de Campinas. Perdem-se muros, árvores e calçamentos a cada vez que o céu pratica sua violência. Mas, ao exemplo dos passarinhos, a chuva, lá e cá, não são as mesmas. Em casa, gotas finas, de voz aguda, em meio a trovões esganiçados e repetitivos. Histeria destrutiva, pressa. Enquanto subia para ouvir a chuva no salão, e esta sensação se repetiu em cada oportunidade, o grave predominava como tom, e os golpes de vento eram feitos a punho cerrado, encerrando a questão. Os trovões não vinham em berro, mas em rumor. Tudo sob controle da chuva, enquanto o resto de nós, ou escondidos, ou escorrendo pelas travessas encarnadas.
            Obviamente que me peguei pensando. O momento patético do viajante literário que, pensativo e atrapalhado, olha para o teto, reflete e disserta. Ridículo. Escrevi em meu caderno verde:

            Tem que ver. Há uma leitura de que gosto muito – e escrevo sobre esta leitura debaixo da pior tempestade que já vi em território amazônico. E por isso mesmo que me veio à memória. Afinal, aqui, nada mais improvável do que qualquer coisa que Isaac Bashevis Singer tenha escrito. Gimpel, o bobo seria devorado e morto, ou simplesmente apodrecido. O velho manco aficcionado pela prosa do narrador, e que condena com frieza toda a poesia do mundo por causa da amizade não-contraditória que pôde nutrir com o nazismo; bom, ninguém pediria autógrafos tendo que atravessar uma chuva dessas, os livros ficariam molhados e se entregariam ao bolor da umidade posta ao sol abafado; seria um velhinho assaltado, como temia Alípio em nosso almoço; não seria. O que quero dizer é que Bashevis Singer faria suas personagens desistirem, lesos e inchados  pelo calor, desesperados ou sonolentos para aventarem qualquer cotejo ao Torah. E com isto não quero dizer que Belém é uma cidade particularmente cruel em um corte patológico. O que digo é que não há nada para uma personagem de Bashevis Singer fazer por aqui e que, talvez o melhor que fizessem fosse retornar à Val-de-Cães e, então, para a enorme casa internacional da geopolítica judia. Nesta chuva, uma coisa é certa. Nesta chuva, ninguém lê. Nesta chuva  o diabo não bate à porta.
           

terça-feira, 13 de março de 2012

Filosofia numa cacetada só, ou duas, vai, vol. 09


René Descartes
Fragmentação. Self dividido. Pessoa Fractal. Santíssima Trindade. Divíduo. Self Múltiplo. Menos que um. Todas operações de divisão desta kabbalah pitagórica que demanda como resultado qualquer número inteiro e racional que não seja 2, para prejuízo de René Descartes.