Existem muitas coisas que me incomodam ao recorrer ao expediente da história da antropologia
como se bastasse que ela se convertesse em crítica cultural para que pudesse se
desfazer das dificuldades que lhe dão forma. Isto porque, por se tratar de uma
atividade científica, e mesmo que não seja necessariamente ciência, a
antropologia como fruto de pesquisas de campo é, como o são as etologias, uma
disciplina cujo objeto privilegiado é o da comunicação. Obviamente que a
atividade comunicativa é determinante para a configuração da República das
Letras e suas línguas francas, seu sistema de correspondências e publicações e
a atividade, em franco declínio, da verificação de procedimentos laboratoriais.
No entanto, para além da comunicação pública que é característica da publicação
de resultados, as pesquisas em humanidades têm como ponto de partida a
atividade comunicativa fazendo com que uma infindável cadeia pragmática e uma
sucessão de círculos hermenêuticos (sujeitos determinando objetos determinando
sujeitos determinando objetos...) faça parte de seus percalços epistemológicos. Dito de outra forma, não é sem enormes dificuldades que uma
pesquisa em que é a própria vida vivida lhe serve de tema. Sua introdução no seio da pesquisa
científica lhe oferece uma profundidade permanente garantida por um ponto de fuga afiançado pela presença, dimensão esta que sequer a introdução dos instrumentos de medição
antropométrico e as pesquisas em genética conseguiram dirimir. Assim, antes de
adentrarmos em alguns outros exemplos em que o poder se apresenta como
enunciado nas tramas da descrição objetiva e da observação etnográfica - plano
em que a chamada crítica pós-moderna se estabelece - convém explorar, ainda que
brevemente, alguns dos itinerários possíveis pelos quais esta questão se
estabelece. Para tal convém percorrer algumas questões postas por Clifford
Geertz a respeito do problema da autoria em antropologia e alguns de seus
desdobramentos.
A epígrafe de Local knowldge, livro de 1983 (1999)
traz uma passagem do Sur le fils
naturel de Denis Diderot em que o mesmo discute a
emergência do gênero sério como
instituição do drama burguês.
Este gênero teatral combinaria elementos da tragédia, se necessário, fazendo com
que o herói entre em conflito com as virtudes e a estrutura do cosmos e a ordem
das paixões sem no entanto excita-las; ao mesmo tempo, em uma mesma peça, o ridículo e o elenco da falhas
humanas também dão as caras sem com isso ter como propósito fazer rir. Esta
imersão do drama na vida comum é o gênero
sério. Não seria surpresa dizer que, no final das contas, Clifford Geertz
está dizendo que devemos encarar a bibliografia produzida pela antropologia, em
grande parte sendo produção etnográfica, como um gênero sério.
Nem tragédia, nem comédia. Nem reflexão só-teórica, o que seria uma tragédia,
nem a ingenuidade de que a empiria, que a pesquisa de campo, resolveria todos os
problemas do pesquisador, o que é cômico ainda que raramente seja algo engraçado. No limite, é na elaboração da cena entre o estar lá da pesquisa de campo e do estar aqui da elaboração daquilo que um antropólogo efetivamente
faz - he writes down
como etnógrafo e write up como membro
de sua comunidade científica (Geertz, 1973:19-20). A afirmação de que antes de
mais nada o antropólogo escreve - e só - teve um efeito similar ao de um outro
elemento teatral, no caso, da aparente surpresa de M. Jourdain, o burguês
fidalgo de Molière, de que Há mais de quarenta anos
que faço prosa sem o saber! Fico-lhe muitíssimo agradecido por me haver
ensinado isso, diz o mesmo Jourdain ao Mestre de Filosofia para logo em
seguida ditar suas intenções para uma carta de amor para a Bela Marquesa, para
quem quer dizer que seus olhos me fazem
morrer de amor, mas escrito de outro jeito, de modo galante, com elegância.
O diálogo com o Mestre da Filosofia é cheio de ensinamentos, especialmente com
relação àqueles que Jourdain já sabia sem tê-los estudado.
No entanto, esta comédia
de costumes não acontece por mero capricho ou por simples despreparo. A
etnografia como gênero sério reflete uma mudança nas relações de força e poder
que fazem com que a tranquilidade com que pesquisadores como Malinowski,
Evans-Pritchard, Lévi-Strauss e Ruth Benedict escreveram não seja mais
possível. Isto se dá porque a relação entre quem escreve e quem lê, a função
autor e a recepção mudou drasticamente, oferecendo ao pesquisador embaraços que
seus antecessores jamais sonharam que teriam. Especialmente porque não foram
poucos os que apostaram as fichas na extinção das populações que por ventura
tivessem estudado. O contexto moral do
ato etnográfico não é mais o mesmo assim como não são os mesmos os
compromissos assumidos pela pesquisa de campo. O pressuposto da alteridade como
afastamento geográfico-linguístico-tecnológico
se desfez fazendo com que então viessem a se manifestar das mais diversas
formas.
Nada do esfacelamento da
distância logística e infra-estrutural acaba necessariamente com o conteúdo de
determinadas afirmações, métodos e descrições produzidas nas monografias
consideradas clássicas - lembrando que salvo raras exceções, a lista é bastante
polêmica.
Ao mesmo tempo este novo contexto moral não faz com que monografias antigas
tornem-se obsoletas ou simplesmente rejeitáveis por se utilizar de expedientes
que a média dos pesquisadores não consideraria adequada - inadequação que
perpassa os métodos de pesquisa de campo, o vocabulário utilizado e mesmo a
anuência daqueles que figuram como personagens da prosa etnográfica e seus
diversos modelos; implícitos e explícitos.
"Essa confusão entre objeto e público, como
se Gibbson de repente se descobrisse com um público leitor romano, ou se
M.Homais publicasse ensaios sobre "A descrição da vida provinciana em Madame Bovary" em La Revue des Deux Mondes, deixa os
antropólogos contemporâneos numa certa insegurança quanto ao objetivo da
retórica. Quem deve ser convencido hoje em dia: os africanistas ou os
africanos? Os americanistas ou os índios norte-americanos? Os nipologistas ou
os japoneses? E convencidos de quê: da exatidão dos fatos? Do alcance teórico?
Da apreensão imaginativa? Da profundeza moral? É bem fácil responder
"Todas as alternativas acima", porém não é fácil produzir um texto
que assim o faça."(Geertz, 2002:174).
Sem dúvida que a reunião
desses fatores põe em relevo algo muito importante que é a alteração do
público das monografias escritas por antropólogos e, assim, da mudança das
estratégias, recursos e limites de afirmação de suas pesquisas. É nesse sentido
que o gênero sério é lido como blurred genres, ou gêneros literários
borrados. Porque a banca de avaliação não é mais somente, e por vezes não é
necessariamente, a leitora daquilo que se escreve assim como os pares não são
necessariamente os principais receptores de um artigo. Uma vez que públicos que
outrora estavam afastados se aproximam com força e velocidade, é razoável
intuir que o mesmo se dê com os métodos de registro e os meios de reflexão
pelos quais a pesquisa produz seus artefatos. No final das contas a produção
etnográfica, especialmente no que tange a relação entre o antropólogo e seu
público, é compreendida como um processo descritível como interacionismo simbólico em
que ágora e theatron parecem ser fundamentalmente indistintos - o que é tão
sugestivo quanto suspeito vindo da parte de alguém que escreveu sobre o
Estado-teatro balinês (1991).
Convém compreender no entanto que esta sugestão, a de
que ágora e teatro margeiam a indistinção, é uma proposição irônica, ao invés
de cínica. Afinal, os riscos de estar entre lá e cá, afirma Geertz (2002),
valem a pena. Ainda que seja possível questionar severamente se voltar para cá é o melhor desdobramento
para a prosa etnográfica, como o faz Eduardo Viveiros de Castro, por
exemplo; ou mesmo convém voltar a passagem supracitada e perguntar, sem
vacilar, quem são os antropólogos
contemporâneos da afirmação de Geertz, coisa que o fazem Johannes Fabian e Roy Wagner; ainda que tudo isto esteja em questão, a
problematização da figura ou da função autoral não é simplesmente irrelevante. Mas para isso, estamos desde já avisados, a segurança da
etnografia como gênero literário/editorial/científico não está garantida porque nosso público nos espreita logo ali, na sala de aula, batendo na nossa porta na permanente margem incômoda da presença que até não muito tempo era a arma exclusiva do pesquisador.
 |
| Balinese Cockfight, Alred Palmer (1949) |
Bibliografia
AGOSTINHO,
Pedro. Kwarìp: mito e ritual no Alto
Xingu. E.P.U./EdUSP. São
Paulo.1974.
BURKE,
Kenneth. Teoria da forma literária.
Cultrix. São Paulo.1979.
GEERTZ, Clifford.
The interpretation of cultures. Basic
Books. Nova York. 1973.
_______________. Negara: o Estado teatro no século XIX. Bertrand Brasil/Difel.
Rio de Janeiro/Lisboa.1991 [1980].
________________O saber local: novos ensaios de antropologia
interpretativa.
Vozes. Petrópolis. [1983]1997.
________________Obras e vidas: o antropólogo como autor.
UFRJ. Rio de Janeiro. [1988]
2002.