sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Hjman

Há forças em sair do lugar e forças em ficar. Nelas se enervam todos os desdobramentos do filho pródigo, inclusive as tramas que não podem ser escritas para toda revelação. Há forças em ir e ficar, mas não são compatíveis e nisso há uma lição indispensável. É a fome indisposta com a epidemia que, no entanto acontecem ambas. Ao ir perde-se a família e o familiar, e a mais tola reminiscência da rotina é pura investigação e tocaia. Ao ficar tudo é família, mesmo a mais sórdida interrupção assume ares de velha história. Há quem more lá, há para quem por quem se passa é que a morada funda. Nascem o vagabundo e o artífice da vila.

“Estrangeiro rouba nosso trabalho.”
“Vilarejo que interrompe passagem.”
“Veio para roubar nossas crianças.”
“Veja como maltratam suas crianças”
“Come do nosso pão e se vai antes de plantar o trigo.”
“Calculam o peso da farinha para deixar estragar por estratégia.”
“Amaldiçoado!”
“Bem-dita! Estava cansado. Cheguei! Trago na testa os caminhos de lá até aqui. Não te conheci, jovem, mas passei por aqui mais de 10 vezes. Nunca cheguei da mesma viagem. Mas sempre me sento aqui, em frente a esta padaria que, salvo morte ou peste, abriga as mesmas almas que se desprendem de água e pão para recompor meu bom-humor e minhas forças. Há histórias que tenho que contar a Hjman. Ainda mora aí?”
“Toda sua vida.”
“Este capítulo eu sei. Digo, pergunto se ainda é vivo. Mas isto respondeu sem querer.”
“Quem é o senhor?”
“Hjman. Também.”

Das definições de vagabundo todas estão embalsamadas nas páginas de livros pesados que viajantes não levam e, quando leves os dicionários, não carregam nada mais que a versão corrente. Que corra é bom, mas é curta demais e não preserva as histórias que um vagabundo deve saber contar para levar adiante esta tradição, em sentido forte. Há versões de andarilho, preguiçoso, traiçoeiro, sanguessuga, nômade, cigano, pobre, estranho, estrangeiro, iconoclasta, sombra-noturna, escapa-jegue, camelô e (há um nome antigo para vendedor ambulante ao qual não me recordo e que deve figurar aqui nesta passagem entre parênteses; aqui jaz um lapso).

Nada há na vagabundagem qualquer oposição à morada. O mesmo não pode ser dito com relação à Lei.

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