sexta-feira, 3 de maio de 2013

Mestre Eckhart, um abelhudo voando pelos mil platôs.


DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix (1980). Mille plateaux: capitalisme et schizophrénie. Minuit. Paris.
           

            E fiz meu caminho alternativo preferido. Saí do Metro Denfert-Rocheraut pela saída da rua Daguerre, endereço sintomático e portador de uma ótica chamada Daguerroptique, além de um ex-namorado de uma amiga recente cujos olhos nervosos me fazem anotar que lá há sempre algo para se ver, mas é problemático ser visto. Muitas das fotos que fiz, e algumas das primeiras agradáveis aos olhos, fiz nesta rua que me é sempre uma passagem agradável, ainda que eu dobre na primeira esquina, chegando à  rua Gassendi. Dela sigo em linha reta até a esquina da Moulin Vert, outra linha reta que me serve de endereço, até mesmo um tanto quanto metido pois me vi vizinho do antigo atelier de Giacometti.
            É bem após a esquina da Dagurre com Gassendi que passo em uma bouquiniste que evito entrar. Sempre. É das livrarias que impõe respeito. Não há prateleiras, mas um universo de pilhas. Bem ao contrário do monte de lixo feito papel que encontrava nos sebos ao redor da Praça Tiradentes no Rio de Janeiro, o que assusta é exatamente a qualidade do acervo. A rua Babylone, em um endereço colado ao Cinema La Pagode, há algo parecido. Livros esquecidos, ou cuidadosamente guardados das agruras do tempo, protegidos por imóveis particulares que os guardam de tudo, inclusive da invasão do Euro. Preços marcados em Francos fazendo da conversão monetária uma amiga inesperada. Infelizmente não é o caso da bouquiniste anônima da Gassendi. O proprietário é um sujeito enorme em todas as direções e, como de hábito, sisudo ao primeiro contato. Até que então, pergunto algo que terminou num convite. Est-que tu veux prends un verre? Não, obrigado, há gente me esperando. Mas levo esses três livros, a saber, Les cartes postales de Derrida; Journal d’un voleur de Jean Genet; e Mille Plateaux de Deleuze e Guattari. Ainda que não tenha a menor vontade de justificar esta compra, e que eu seja tudo menos um empolgadíssimo com vertentes desconstrutivistas de tudo aquilo que não sei como funciona. Aprendi também a nutrir alguma desconfiança de Jean Genet, especialmente sabendo da força dada pelo mesmo Sartre que mereceu a severa reprimenda tanto de Albert Camus como a sátira aguda proposta na figura de Jean-Sol Partre em L’Écume des jours, pela pena de Boris Vian. Hora de perder o ranço, acho eu. Mas em Mille Plateaux, que já havia lido em português, alguma coisa ainda me chamava a atenção. Muitas coisas, na verdade.
            Enquanto escrevo esta nota, estou em vistas de resolver um problema relativo à impressão que um momento da vida de alguém determina o corte e o tom da biografia desta mesma pessoa que, de fato se transforma “nesta mesma pessoa”, ou mesmo nesta “mesma” “pessoa”. Vivendo o corte denso entre as biografias de Allan Kardec e seu antecessor, Léon-Hippolyte Dénizrd Rivail me vi buscando alternativas para compreender a projeção do primeiro sobre o segundo e, no caso, especulando sobre os efeitos de inverter a relação entre figura e fundo, fazendo de Rivail a figura de proa. Nisso, referências como Alfred Gell e Ludwig Wittgenstein ofereceram um repertório interessante. O primeiro, com o ensaio penetrante sobre a noção de eclipsamento, ou sobre como a agência de outrem marca as relações objetivas que são obstruídas pela própria objetividade da relação. O segundo, com respeito à noção de familiaridade entre formas de sentido que compreendem algo similar às regras do jogo e seu potencial transformativo de quando do ato da interpretação. Tudo isso me sugere um cabedal interessante e intuitivamente aproximado do problema da rostidade, ou visagéité cuja noção vim a conhecer em português e que, no momento era somente uma noção sem direção. Sim, havia esquecido sobre o que o termo tratava ainda que permanecesse convicto de que o termo poderia dizer alguma coisa, intuição que segui como se por uma palavra de ordem. Afinal, é o conceito do momento semiótico da dupla contracultural da filosofia, coisa cara, rara. Comprei a edição francesa logo depois de recusar a bebericagem com o sujeito largo por todos os lados que vestia um chapéu de palha cheio de furos grandes de rasgados.
            Agora, lendo os capítulos elogiosos à linguística de Louis Hjemslev vi que não foram somente os bárbaros, selvagens e civilizados que sofrem as agruras da racionalidade revestida de procedimentos rigorosos de hermenêutica a dois. Ou papai-mamãe. Há mais do que isso no percurso quase que soviético da expansão da razão procedimental. Descubro que mesmo as abelhas são sobrecodificadas e, ainda assim, inconscientes do fato surpreendente de que voam. E voam por um ato místico, por aceitação pura das palavras de ordem.

            “Benveniste nie que l’abeille ait un langage, bien qu’elle dispose d’un encodage organique, et se serve même de tropes. Elle n’a pas de langage, parce qu’elle a vu, mais non pas de transmettre ce qu’on lui a communiqué. L’abeille qui a perçu un butin peut communiquer le message à celles qui n’ont a pas perçu ; mais celle qui n’a pas perçu ne peut pas le transmettre à d’autres qui n’auraient pas davantage perçu. Le langage ne se contente pas d’aller d’un premier à un second, de quelqu’un qui a vu à quelqu’un qui n’a pas vu, mais va nécessairement d’un second à un troisième, ni l’un ni l’autre n’ayant vu. » (1980 :97)

            Abelhas jamais foram modernas, ouso dizer. De alguma forma isso me ajuda a compreender a eterna fábula de que só voam porque não podem saber que não podem. Abelhas voam porque falam a língua do Evangelho, a língua que não é, a língua que não é mais. Moderna. Que o diga Mestre Eckhart que voava como se comunicam as abelhas. 

quinta-feira, 25 de abril de 2013

O silêncio de Franz Boas e a voz da tradição: nota sobre um exercício do espírito.

Franz Boas como peça de museu. 



Confesso que sofro de um certo mal-estar com a sociologia francesa. Assim como todas as notas relativas à reforma da humanidade com a finalidade de seu melhoramento contínuo, o desconforto segue sendo aquele que testemunha a delicada trama entre história natural, história da consciência e história da civilização. Não saber onde termina uma e aonde começa a outra, é aonde resido incomodado. Não é um problema pouco relevante e compreender o embaraço remete, de outra forma ao tipo de dilema que culmina na oposição criada entre valor e organização social (ou divisão social do trabalho) que reproduz em outra escala, numa escala global, o mesmo tipo de ruptura que João Calvino impõe na discussão sobre a simbologia na eucaristia. Até porque é desta divisão, quero crer, que muito do que se oferece como modernidade, ou constituição do moderno deriva, participando da composição que aparta as esferas: religiosa (aonde estabelecem residência o símbolo, o valor e a cultura; como a cultura religiosa), econômica (aonde residem o governo, a política e a economia ela mesma) e estética (aonde o rebotalho da experiência vivida encontra seu veículo expressivo sendo desprovido de relevância e conteúdo na organização da cultura, salvo se agenciado pela administração da mesma na forma de pastas e ministérios, secretarias e financiamentos). Obviamente que este é um esquema, uma caricatura, um fantoche.
            O caso é que o enquadramento para o qual atento estabelece não somente o apartamento entre esferas da vida – componente hegeliano que reproduzo desde a obra de Louis Dumont – mas uma ordem hierárquica que por se exprimir por via da economia política indica sua própria fonte, o da economia como fundamento das demais expressões da vida. Não é desprovido de interesse o fato de que a Revolução Francesa seja, antes de mais nada o momento histórico em que esta insurgência se dá fazendo proliferar discursos sobre a função de cada um na organização social da economia nacional, de onde brota o ressentimento com a ordem eclesiástica e com parte da nobreza. As distinções devem participar dos benefícios produzidos, incluindo a religião que é um termo que, ora e vez aparece como termo dispensável ainda que seja ela, em sua expressão igualmente econômica quem tenha instituído e codificado o controle da experiência e da imediaticidade como atestam os trabalhos de Keith Thomas, Ernst Troeltsch, Michel de Certeau, Paolo Prodi e Giorgio Agamben.
            É exatamente na formação de quadros funcionais da ordem estatística da experiência – minha forma de ser grandiloquente – que lemos em Émile Durkheim, por exemplo, que o que as sociedades fazem quando estão distraídas de si-mesmas não é outra coisa senão organizar a sociedade. E que, independentemente do que estejam fazendo, talvez uma sociedade organizada em papéis em funções, ainda que distraídas daquilo que lhes é mais sociologicamente característico, seguem no mesmo rumo, o do aperfeiçoamento das faculdades, da diferenciação evolutiva, do alinhamento entre racionalização das relações com o desenvolvimento de instituições que são, aos poucos, cada vez menos festivas chegando ao cúmulo de enviar convites para uma festa-BIO. Mesmo a festa tem a função catártica, um ladrão de caixa-d’água, uma forma de terapêutica sazonal à semelhança dos movimentos peristálticos em que se dejeta tudo o que não for mais possível manter. Sendo esta a palheta, sendo este o pano de fundo em que a definição de como as coisas são não se separam daquilo que algo deveria ser; de como é impossível discriminar, ao ler sobre a organização social Dogon aquilo que ela é daquilo que ela deveria ser, pois desde então estão divididos em papéis sociais funcionais que apontam o que fazem de verdade enquanto pensam fazer coisas como línguas secretas e deuses que residem na água. Ainda que o subterrâneo não fosse seu gesto preferido, há muito de Napoleão Bonaparte no exercício sociológico republicano. Por isso entendo, cada vez mais e melhor, o gesto silencioso de Franz Boas quando, num seminário sobre o futuro da teoria antropológica ao ter concedida a palavra, calou-se, levantou-se e saiu de cena. 

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O lado onírico que dá na mesma


“Bom. Acho que não me fiz claro.” – disse com a força de quem havia acordado de um sono longo transbordando convicção. A bem da verdade, tinha o hábito de dormir em meio às conversas somente para poder, em manobras sutis de manipulação da mente, interromper o falatório num despertar súbito com alguma intervenção precisa oferecendo a resposta mais adequada, o comentário mais decisivo ou mesmo somente a informação correta mesmo no mais delicado dos detalhes: “3 dias depois, 5 dia antes e 2,5 litros de água jogados de uma altura de 15 metros”. No caso, o assunto era outro, e sempre era outro. Havia dormido em plena conversação, tomado por uma espécie de torpor que já lhe era habitual, vindo a adormecer todas as notas musicais que permeiam a indócil música da perda de tempo usual das conversas inúteis. Escusado dizer que quase já não tinha amigos, que seus hábitos se transformaram em uma atitude hostil e que, ainda que preciso e, em determinadas horas quase que necessário, aos poucos sua narcolepsia premonitória o jogava em um estágio eremita de articulação social no qual tudo era quase a solidão relativa de seu pequeno apartamento, meia dúzia de encontros amorosos, uma outra dose de lembranças mais ou menos presentes na forma de encontros em bares e cafés, e a dose de cobranças manifestas em envelopes brancos e largos preenchidos com todo tipo de conexão entre bens e serviços. Cacofonia era prenúncio de sono e de, também, alguma nova solução seguramente tomada com um tom de voz e uma conduta considerada mais ou menos inconveniente. “Se não me fiz claro da primeira vez, vai a segunda, em nome da sua burrice”. Estapeou um dos assaltantes que logo lhe acertou o fígado com mais um tiro descuidado, dando tempo para que seu filho fugisse, dobrasse a esquina e perdesse contato com o evento atormentado que significou mais um episódio de sono de seu pai. No velório, em meio ao bavardeio impenitente que ora e vez assombra as beiradas de caixões, o óbvio aconteceu. Nada. "Morrer e dormir não é a mesma coisa. Esqueça". 

terça-feira, 16 de abril de 2013

Corte e dobra

Na caixa toráxica, curva e
enredada no mesmo suporte
em que me sugam o tutano,
aonde me sopram as vértebras nuas
e então ocas num som de flauta,
cala o silêncio em que se narra a história
grave
de um tempo futuro,
ansiedade
em responder em causa própria
a impossível felicidade de saber
desde quando.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Não foi um raio. Foi John Manuel Monteiro.


Um ano atrás. Ri como com a mesma força com que tive que conter a graça. Um seminário qualquer como os que ocupam a agenda de qualquer pós-graduação, povoada de reuniões e meias-decisões recheadas de vento, feito pastel de histórias infanto-juvenis. Entra no recinto John Monteiro. O que dizer? Lento. Lento, mesmo. Cuidadoso, é verdade, mas lento. Os passos dados à forma de escolher não somente as palavras, mas também a flexão adequada de cada fonema, o que é a forma de falar de um estrangeiro cuidadoso. Entrou no auditório nos mesmos passos de estrangeiro cuidadoso, devagar e, sobretudo, sorridente ao primeiro contato visual. E ao segundo. Ao terceiro, pessoa a pessoa. No quarto, e este era eu, sorriso dado com a flexão correta, sorriso que não se desfez por inteiro até que viesse, logo mais, a digitar sua primeira nota em seu computador de colo, quando outra flexão, lenta, se dá no rosto produzindo a forma inversa do sorriso, uma lua minguante de quem decifrava o que o palestrante disse, dizia ou viria a dizer. Quando havia passado por mim, passou também por uma amiga. Ela, mais antiga do que eu na Unicamp ainda não conhecia a figura de John por inteiro. Nunca o tinha visto. Vi que acompanhou a figura larga e alta do professor americano com a mesma lentidão com a qual ele mesmo descia a rampa que corta o auditório ao meio. Ao pé do ouvido, o assombro em tom de chiste: “Nossa! Um raio atingiu esse homem?”. Ri a sair leite pelo nariz, ainda que só pudesse fazer silêncio. Silêncio que se repete hoje, já sem graça, por saber que não. Não foi um raio, mas um carro.
O mal começo de uma homenagem que não sei fazer continua na forma das brincadeiras que a lentidão de John figurava nas conversas mais irresponsáveis. A forma de coçar a cabeça com a palma da mão voltada para baixo pousada suavemente no topo do crânio com os dedos apontando a testa é, seguramente, aquilo que mais ouvi repetição. Irresponsáveis é quando podemos agir desta forma. A lentidão de John nos servia da caricatura na sua variedade de formas e manutenção do ritmo, o estrangeiro cuidadoso. Talvez eu pudesse listar uma quantidade de piadas ouvidas ou inventadas para estas notas ao ponto de reduzi-las a um anexo de pesquisa. Mas para fazer tal lista, precisaria inventar quase todos os outros casos.
O curioso é que a malícia de tecer comentários desabonadores nunca teve muito sucesso com a figura de John. O veneno que destilamos diariamente no hábito de fazer fofocas e destruir a imagem alheia com o que lhes é, e nos é pior, parecia ter lhe afetado somente de forma colateral. A lentidão peculiar de gestos variados, por exemplo, ao invés da cegueira que atinge a tantos golpeados pela potência ofídica, pode ser encarada desta forma. Na integridade simples e no trato horizontal, John Monteiro tinha construído sua imunidade ao nosso veneno anti-monotonia adquirindo talvez uma única marca deixada por uma substância ruim, transformando-se em um passante que caminha lentamente. O caso é que John é, para além da caricatura, um estrangeiro cuidadoso que, para além da relação com o país o qual abraçou como historiador, professor e um perfect speaker da língua portuguesa, estava atento a ritmos um pouco mais sutis. Caminhava escolhendo a flexão de cada sílaba, lenta e cuidadosamente porque há de se fazê-lo da mesma forma que falar baixo é uma tática de se fazer ouvir. Devagar também é uma velocidade. O choque então está em saber que tenha partido tão rapidamente numa colisão provocada por um nativo descuidado deixando claro que perdemos alguma passagem de uma narrativa que acelerou sem nos darmos conta.

O falecimento de John Manuel Monteiro. Esta foi a razão de Raúl Contreras me escrever ainda hoje, tão cedo, razão pela qual escrevo mesmo sem ter propriedade alguma em fazê-lo. De tantos tão próximos, de tanto tempo juntos, eu confesso ter chegado no que parecia ser o meio da história e, coisas da vida, já estavam quase no fim da festa. Mesmo que longe de ter contraído maior intimidade, me sinto obrigado a manifestar eu ter sentido sua morte com o peso e as lágrimas que esse tipo de vento traz. Não sei definir com clareza como seria isto, e nem por quê.  Mas, assim como John, Raúl é alguém que conheço desde antes de tê-lo visto de fato, dado que sua figura já estava distribuída na trama dos amigos em comum que temos. E, de alguma forma via entre John e Raúl um ar de família, digo, uma parecença, uma coisa delicada que tem o odor da cautela, e que entendo como um certo carinho no trato, uma paciência na lida que vim a saber, pode ser um traço da Linhagem, os alunos que John nos legou, tantos deles amigos de momentos tão difíceis e caros. Legado raro. 
Se via Raúl pelos olhos alheios de um amigo em comum, igualmente um sincero admirador de John como professor, o mesmo se deu com o mesmo John que me foi apresentado alguns anos antes de finalmente apertarmos as mãos, por via de seu livro Negros da Terra que li quando ainda livreiro e esquecido de me dedicar à pesquisa em antropologia. Mais adiante, conduzido por meu orientador Ronaldo Almeida nos demos as mãos, no que John estendeu a sua, lenta, mas firmemente. E é aqui que as brincadeiras sempre acabam. Não porque as deixamos de fazer, mas porque elas perdem força, não conseguem seguir adiante. O aperto de mão, firme. O olhar, direto. A conversa, franca, doce. Lenta como deve ser, de assuntos outros, de paisagem euro-americana, de modernistas e seus intelectuais destacáveis conforme a preferência da casa. E de supetão, já não tenho mais com quem conversar sobre as aventuras de William James na floresta amazônica, tema que lhe serviu de mote para me presentear com um livro organizado por sua esposa, Maria Helena Machado, e traduzido por ele mesmo, com vistas numa conversa futura. Não deu. Fomos brutalmente interrompidos. E ainda assim, mesmo tendo sobrado à mesa com a conversa cortada sei que, no final das contas o privilégio foi meu, ainda que por tão pouco tempo. Mas saber disso é saber muito pouco. 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Dou fé que logo sei.


E então veio com a frase
“não creio, mas temo”;
a forma do, posta a crase,
à forma do mais ameno
orgulho. O silêncio à base
do recuo mais obsceno
foi dito pelo não-dito, azedo
o gesto, o último aceno.

Digo,

Chegar atrasado, sentar-se à janela, a janela,
em pleno adeus com sabor de volto já.
e não volta.