sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O Enteado

O que se escreve, especialmente o que resta da relação carnal, é feito em silêncio. E se há filiação, se a carne treme quieta e quase anônima, é neste gesto que o resíduo flui de forma comprometedora, permitindo reconhecer não somente a bastardia, mas a evidência de que por escrito, só as relações bastardas são definitivas. Geertz e Cavell, Leach e Lang, Freyre e Nietzsche, Benjamim e Schmitt; dois exemplos de coisas que passeiam no silêncio e que, se jogo no colo de gente brilhante, por aí, com um bilhete com a demanda “DISSERTE”, o silêncio é jogado de volta, manifestando outra bastardia, essa mais difícil de confessar, e que também diz respeito a algo como a amizade, ainda que inconfessável.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Pelo Ladrão, por isso, surrealismo

Acontecer até o fim. Nunca sei se estamos falando de amor ou de uma reação química; consumir a relação por inteiro, dissolver as marcas um do outro, um no outro, levando em conta a estapafúrdia idéia de que amor ocorre em casais, como é estapafúrdia a idéia de uma reação química acontecer aos pares, feito Hélio e Carbono. Acontecer até o fim demanda coisas demais, laços demasiados, cortejos e enlaces, ensaios e mais ensaios antes de sabermos qual foi a que valeu, qual lance de dados fez as vezes de realidade, lembrando a golpes de martelo que sempre sobra algo, que o real escorre as formas deixando as pontas soltas correndo dependuradas do lado de fora da porta do carro. Realidade? Não conheço imagem melhor do que o nariz escorrer até o fim, frase que não faz sentido algum e justamente por isso, c.q.d..

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Filosofia numa cacetada só (ou duas, vai), vol. 08





William James




"O que eu queria, mesmo, era um universo para chamar de TU."






(retirado do Dicionário de Citações com Usos de Pronomes Cosmológicos de Cambridge)

Com o canto dos lábios perto do nariz

Já me disseram. Minha sombra está pequena. Não se move mais, não cresce, não estica sob a força do crepúsculo, não se espreguiça em momento algum da alvorada. Segue meus passos inteiriça e condensada nos movimentos pequenos e sintópicos, produzindo a forma bizarra de uma simetria especular desagradável. Minúscula assim, em um eterno sol a pino, o movimento dança o longo meio-dia. Uma japonesa pudica rindo contraída, dentre as faixas de um kimono cerimonial, de uma piada boa.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Jó segundo Eclesiastes

"Doutor. O que é que eu tenho? É grave?"

"O que você tem, eu não sei. Mas não é suficiente."

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Gárgula

A doçura já não vem à boca
torta e endurecida,
pelo tempo, morta.
Tão rija quanto o abraço
que não parte,
não toma forma,
e tampouco manifesta intenção.
O tempo fere a conta-gotas de uma tortura freqüente de um contador digital avesso à monotonia monitora do coração, de onde tudo vem, para onde tudo vai, à força de uma imposição.
E eu, guardião, sentado ao lado,
curvado e
desde sempre.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Hybris y Fontenelle

Sobre o Barão de Fontenelle, quem sabe mais adiante. Não tenho como falar sobre isso ou ele, agora, e tudo o que sei diz respeito a quem o traduziu. Não é pouca coisa, e diz quem faz coisas e converge depois de tanto tempo. Que há quem se dedique a algo quase desconhecido pelo fator-chave de que o esforço é merecido, e que após o trabalho meticuloso de verter um discurso francês de apresentação da astronomia, a nota justa se faz sentir. O trabalho chegou à termo pela sua própria confecção.

A ilustração de Fontenelle da pluralidade dos mundos, na verdade uma das várias alternativas que ele mesmo propôs, é como que um parque de diversões ou, mais simplesmente, uma caixa de areia para brincar de muitas coisas. A primeira que me vem a mente é que as órbitas circulares indicam o movimento em torno dos astros maiores e que, misteriosamente a força centrífuga não é suficiente para repelir os astros menores com o ímpeto do estalo. Os infinitamente menores estão presos, não podem rodar. Os infinitamente maiores giram em outra escala dentro da qual o círculo de Fontenelle se dá. Resta saber qual a plasticidade necessária para um corpo celeste poder singrar sem captura de escala alguma. Em outras palavras, qual tamanho eu precisaria ter para ser expulso da órbita terrestre?

Ser repelido seria, então ação da arrogância? Esta é uma pergunta de mecânica clássica?






(quando se anda em círculos,



há de se ter força,




suficiente



para sair.)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

"Apwonyko pwol"

Tirar um braço de ferro com Max Weber.
Fustigar o aço com dedos dormentes.
Tentar dois dedos de doce de leite.
Mover os ossos, virar o quadro.

Como nada disso adianta,
vale o detalhe distraído
o estouro dos dentes num sorriso colorido
pela faixa de cores que não vai muito além do amarelo,
e arrematar o desleixo de tudo isso,
todos os detalhes impossíveis,
e fazê-los dançar na mesma pirotecnia de sempre,
a mesma que explode em fogos empíreos,
- fugados os deuses –
movendo as sombras no frenesi possessivo das valsas do Ghondar;



Bahr el Ghazal.

O caminho da força está em ser cavalo
Sem virar eqüino.
Mas detesto o toque do tambor;
tourou et biti,
vou ficar fora da cena.












"This digression was made to explain the meaning of the expression "akonienko" in prayer. The phrase is in harmony with some other expressions used in prayer: "apwonyko pwol", 'may we be light', and "apwonyko koe", 'may we be cool'. Pwony means 'body' or 'self' and here it means 'self ' in the sense of the person as an entire person, body and soul. There is no reason why a Nuer entire person should want to be light or cool in a purely physical sense. What is intended is to ask that people may be light not only in the physical senseof physical well-being but also in the sense of pwol loc, of being light-hearted or joyfull, free from burdens and troubles; and that they may be cool in the sense of not being anxious or worried, cool in the sense of calm." (Nuer Religion - Edward Evans-Pritchard)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Para dizer que me lembro, e como




Hoje voltei à cena. É difícil lembrar. Não que seja doloroso. E se for, não é que seja traumático. É como fazer um alongamento mais sutil que envolve torções meticulosas do tronco com vistas a levar as mãos às pontas dos pés com as pernas estendidas. Difícil assim e, em geral, não consigo. Mas hoje voltei à cena, e a dor relaxa. Ou, de outra forma, foi a cena quem voltou de um longo passeio matinal em um dia frio me deixando na espera interminável de que, em algum momento a suspensão voltaria a ter sentido. Acaba voltando, como voltou. Ainda que a cena tenha voltado com hábitos estranhos, sugerindo que estou envolvido em uma conspiração que substituiu a cena original por alguém que então esquece ser canhoto.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Volksgeist como método e ética

Estou lendo artigos de Matti Bunzl sobre a tradição humboldtiana e sua convergência para a etnologia alemã e, após, sua absorção pelo Nimuendaju que foi para New York, também conhecido como Franz Boas. Estou surpreso com o tamanho do empreendimento dos alemães do XIX, do papel que teve a etnologia após a fundação da Universidade de Berlim, como formaram um quadro significativo de etnógrafos e geógrafos (dividiam a formação e uma série de outras coisas) antes de existir uma cadeira de antropologia em qualquer outro país considerado central para a história da disciplina, e como os caras saíram de cena logo após um período de fertilidade ímpar. O peculiar é que, ao invés da marca franco-britânica de fazer pesquisa da forma cômoda ao viajarem para as colônias e fumar cachimbo da paz, os alemães fizeram trabalhos em lugares cuja influência colonial alemã era zero, como Roraima, Xingu, Alto Rio Negro, Chaco Paraguayo e País Basco, por exemplo.
Vai entender; ou, aí tem história. Com ênfase.






(STOCKING JR., George (ed); Volksgeist as method and ethic: essays on boasian ethnography ans the German Anthropological Tradition. 1996 - o artigo de Matti Bunzl disserta sobre a tradição fundada pelos irmãos Humboldt e é precedido pelo artigo de Boas em defesa da geografia como atividade cosmográfica.)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Die deutsche ethnographie Amazonienforschung

Creio que é de conhecimento comum que a pesquisa etnográfica, especialmente aquela dedicada a ir ao mato ver índios e, por vezes, tomar flechadas, narra um capítulo bonito da aventura antropológica no país. Histórias de ombridade, coragem e dedicação. Nisso, ouvimos o nome de Curt Unkell, que terminou a vida meio yanomami, vindo a asusmir o sobrenome Nimuendaju. Entendido isso, e lembrando que o país sofreu a visita de naturalistas que fizeram as vezes de etnógrafos - como Spix e Martius -, pulamos um capítulo desta história. Ocorre que entre os naturalistas alunos ou confrades de Alexander von Humboldt e pessoas como Egon Schaden e Herbert Baldus, houve uma geração de ETNÓGRAFOS, que já assumiam esta alcunha-ofício, e singraram pelo Brasil central, e além produzindo uma fortuna teórica somente trazida à luz de vez em quando, e quase por acidente. Assim, segue uma lista de nomes, quase todos desconhecidos:




























Otto Zerris, Hans Becher, Günther Hartmann, Mark Münzel, Franz Caspar, Georg Grünberg, Dieter Heinen, Emil Heinrich Snethlage, Adolf Bastian (esse não; esse era professor de psicologia experimental - mas passamos um século ignorando seu papel), Karl von den Steinen (xingu-ólogo), Paul Ehrenreich, Theodor Koch-Grünberg, os irmãos Schomburg, Max Schmidt (que, duas décadas antes de Malinowski já defendia a etnografia de caráter malinowskiano), Fritz Krause, Hermann Meyer e Felix Speiser.




























São muitas as justificativas sobre a inexistência de traduções ou simplesmente a menção destas figuras como partícipes de uma história que, até então era narrada de forma quase que sem graça. A barreira da língua alemã é, quase sempre a motivadora maior da inexistência de remissões a uma geração que não somente inaugurou a pesquisa etnológica sistemática em solo brasileiro, como contribuiu de forma decisiva, ainda que ignorada para a consolidação de noções e fórmulas importantes para a pesquisa em antropologia social. Max Schmidt, por exemplo, elaborou o conceito de aculturação sociológica que, ainda que um completo desconhecido, permite que ponhamos a noção de aculturação de Herskovits no túmulo do pessimismo eurocêntrico ou, no mínimo, entre parênteses. Von den Steinen e Koch Grünberg são mais conhecidos, tendo seu tratado sobre o Xingu e seus diários de campo, respectivamente publicados em português, assumindo ao menos algum lugar no anedotário da disciplina no país. Mas, parece-me que estamos longe de conseguirmos ter uma idéia minimamente interessante do tamanho da aventura que foi, e é praticar etnologia no Brasil extenso.




























Boa parte desta história está no livro publicado há pouco, creio que em 2006, pela editora alemã chamada Curupira, de Marburg - o livro é Bildungsbürger im urwald - die deutsche ethnographie Amazonienforschung (1884-1929), de Michael Kraus. Resta então aprender alemão ou fazer uma reza braba para ver este livro traduzido por aqui. As informações que passo foram fornecidas por Peter Schröder e Edwin Reesink, professores da Universidade Federal de Pernambuco, a quem agradeço pela tarde agradável de conversê sobre a parte suicidada da atividade etnográfica de cujos cadáveres temos cuidado tão mal.




























































(mesmo que eu tivesse inventado todas as informações desta postagem, ainda assim valeria a pena.)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Até lá (so long);

De vez em quando, em geral entre as 6 da manhã e a meia-noite, eu fico fora de mim. Ou melhor, como diria meu tio, eu fico “fora-de-si”. E aí, escrevo o que não devo. Em geral, qualquer coisa. Deveria ser proibido de escrever qualquer coisa. Nunca chego a lugar algum, e quando chego, não interessa – o que pode ser bom. Não chegar onde se espera pode ser, por fim, uma boa idéia. Como, por exemplo, na eleição de mil e uma figuras geniais que proporcionam ao fiel a mais completa versão dos fatos ou, se tanto, uma versão do algo mais, do je ne sais quoi mais abrangente e, quando elege as razões críticas, quando tece acusações ao que não lhe serve, queima a mesma borracha que o acusado veio queimar. Dá para afirmar que a qualidade do que se diz é medida pela qualidade da acusação que se produz. É então que chego ao assunto sobre o qual é melhor calar. E escrevo sobre política. E mais, o universo de suas demandas.
E então vejo que estamos acostumados a pedir o que queremos. Pedimos como num oratório, mas o fazemos a pessoas que andam de carro, comem comida e estão afastados de nós a meia dúzia de paredes e duas dúzias de seguranças. Tratamos impostos como oferendas e pedimos que o mesmo jogo, o do retorno providencial seja cumprido e, neste ínterim, me pergunto: e se anularmos o atravessador, especialmente quando for conveniente?
Não há dúvida de que, não importando o gestor do Estado, a manutenção e aprimoramento da educação pública não deixarão de ser mero instrumento de alegação de apoio. Há muito tempo que o tempo e o espaço da conversa, da leitura dedicada e da atenção aos pormenores deixaram de ter importância no espaço público, vindo a ser praticados somente em reuniões mais ou menos secretas e por amadores. Tampouco é um fato escandaloso que seja assim, pois fazê-lo é verdadeiramente a prática da exceção. As instituições políticas não suportam esse tipo de atividade por muito tempo. Não há razão para susto quando vemos que o que ouvimos em uma campanha eleitoral, especialmente no que diz respeito à política salarial de professores, vem a ser descumprido. É função da campanha eleitoral mentir, especialmente para os grupos sociais mais frágeis e com menor pode de mobilização e impacto. Todavia, se a raiva me tinge o rosto, ao mesmo tempo é difícil dar as mãos com os meramente descontentes.
Lembro muito bem quem foram os primeiros colegas que decidiram pela licenciatura. Dos tardios, aqueles que se viram na sinuca de bico da necessidade de uma profissão em um mundo que detesta o exercício das humanidades – mundo talvez seja algo grave, mas certamente serve quando a escala é “país”; o resto é excesso hermenêutico -, ou seja, os que precisavam de emprego após a formatura, entendo e apóio o fluxo. Mas vejo igualmente o conluio de sanguessugas que, não suficiente terem aderido à preguiça que empola o pensamento humanístico desde a graduação, adentram no universo escolar com a única e exclusiva orientação de seguir carreira. Desisti imediatamente do magistério quando percebi que todos os meus colegas de graduação, aqueles que se dedicavam ao estorvo da vida de estudos e pesquisa mais aguerrida, se transformaram em professores e, em pouquíssimo tempo, administradores escolares. Tanto públicos quanto particulares especializaram-se em promover a miséria humana. Joguei a toalha, desisti sem sequer começar.
De repente vejo que tenho que assumir uma postura estranha, a mesma que me obrigaram a tomar de quando das últimas eleições: Serra ou Dilma? Na verdade, Serra ou Lula. Nunca considerei válida a escolha. Por um lado, ouvia a insânia da acusação do analfabetismo de Lula como razões para desmandos, muitas das vezes repetidos no fosso do governo de FHC, esquecendo que uma vez elevado a governo a alternativa é entre “medíocre” e “catastrófico”. Por outro lado, a acusação da cruzada conservadora e reacionária por via do governo Serra, o mesmo Serra que, tal qual FHC, era acusado de comunismo por toda uma ala igualmente descontente. É neste telefone-sem-fio que é a acusação pública que eu prefiro jogar a toalha e dizer: o que dispunha nas eleições não era de escolha, mas de resignação.
Da forma mais perversa que posso conceber, começamos a digerir algo que nos obrigaram a engolir. A idéia de que a atividade democrática opera por via do voto. Votar, ok. Sufrágio universal, aceito. A perversidade não está aí. O perverso está em transformar no necessário em suficiente. Se o sufrágio universal é condição necessária para o desenvolvimento de uma certa noção de democracia – diria noção incerta de democracia, mas seria acusado de obscurantismo; mais uma vez -, ao mesmo tempo está longe de ser um fator suficiente. E este é o ponto. Quando a dimensão da alternativa política se resume em quem eu posso votar, então fica mais visível dizer absurdos como “A CULPA É DO SISTEMA”. À Luhmann, diria que sofremos de legitimação pelo procedimento. Assim como é inaceitável ter passado pela última eleição como um eleitor satisfeito, e não como cidadão pleno que vê como ação legítima recusar os candidatos que os partidos eleitorais fornecem em suas listas, é inaceitável entender que no braço de ferro entre professores e governo, eu devo torcer de forma explícita por um dos lados. “Mas aí, você enfraquece o movimento.” Qual movimento? Não há movimento. Há queixa protocolada.
Movimento seria um processo de demissão em massa. Seria a abertura de escolas comunitárias que, por oferecer educação gratuita lutariam por isenção fiscal parcial para a lista de colaboradores. Movimento seria recusar o tempo estrutural do Estado com vistas em um tempo relativo à vida de quem a vive, estabelecendo diretrizes imediatas à prática pedagógica. Movimento seria tomar as rédeas dos poderes que temos e reorganizar as coisas com coragem suficiente para mudar de jogo, assumindo o risco de que podemos – ou de que será possível – perder e, talvez, fazer o que for contando com isto, a parte maldita, a perda.
Assim posto, o que posso dizer é: até lá.

domingo, 21 de agosto de 2011

Antropometria para Falcão Klein

http://www.yveskleinarchives.org/works/works1_fr.html





Des forces invisibles et inconnues. Por algum tempo, e quem sabe em plena duração, fora essa a forma de designar o conjunto de movimentos que fazem da vida humana algo meramente animal e, logo mais, algo além. E, por isso, e com algum incremento, humana. Defini-la custou muito papiro de cânhamo para que fosse dado o passo de abandonar o esforço analítico aristotélico tão bem disseminado. Matéria desnudada é matéria morta, define o empreendimento erigido nas bases sólidas do estagirita. Por em dois planos aquilo que só pode ser em conjunto, na forma tão delicada quanto perigosa do être ensemble, sugerindo a figuração da polis na composição do mais reles movimento. Isto porque, Aristóteles, a alma nada sente se não for no sentido do corpo. As afecções são matéria do corpo, isto é, a extensão da matéria, que se move por extensões por determinação daquilo que se move a si mesmo, a alma. No entanto, definido, mas sem retrato. Insatisfeita a linhagem contra-Estagira irrompe ao buscar não somente representar a morte segundo o que lhe é alheio, mas por trazer à luz os representantes da morte, de fato e de direito. Pôr à mostra os mortos exemplares de alma nua, com finalidade de dar visibilidade das forças invisíveis e desconhecidas. Num jogo mecânico, podemos ter as fotos de família que os espíritas ao redor de Kardec e Doyle promoviam, num círculo de civilidade que só reafirmavam a bela vida doméstica e as saudades do falecido pai. Contudo, há quem se dispusesse a mostrar outra alternativa de captura, fazendo da imagem do morto algo que deve mesmo ir embora: vapores, energia elétrica, luzes disformes, toda sorte de fonte que começa a cessar de agir por sobre o corpo em seu inverno mais rigoroso – rigor mortis. Se Hyppolite Barraduc fotografa cadáveres em sua última centelha, antecipando o momento fátuo do fogo, é peculiar que se permita existir a impressão nua das antropometrias de Yves Klein que repõe a exalação de mera energia quando ainda vivos. Imprimir a desfigura antes que se abandone o corpo que, todavia move até que deixado; deixar que se mova.










Da Civilidade Pueril

- Não ter relógio para me obrigar a me interessar por quem passa, ao menos o suficiente para perguntar as horas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

terça-feira, 2 de agosto de 2011

(ENQUANTO ISSO, na Liga da Justiça...)


... pois, que se espere o reino após o Juízo
Final, ou a acensão das classes populares
após a Revolução; ou a nova crítica que segue do cinismo da erado fim das outras coisas;







é assim, feito o fenomenólogo da Floresta Negra -demiurgo da consciência -,




enquanto isso, isto.




Os super-heróis se movem no movimento do movimento.


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Dois poloneses soltos no mundo




Ando me dedicando aos trobriandeses. E um bocado. Não aos que, hoje, estariam reclamando sua posição geográfica aliada a alguma forma de identidade social, cultural, ontológica, etológica - ou simplesmente, sua sobrevivência econômica. É uma dedicação trobriandesa àquele que, de alguma forma inventou esse negócio canônico de dizer sobre os outros povos na forma de “juntos somos um” sistematicamente. O sistema, os massim das ilhas trobriand, os que fazem kula, as personagens de Bronislaw Kasper Malinowski, cânone da variação etnográfica do relato. Este sujeito faz, via de regra, um par imperfeito da prosa polonesa com Józef Teodor Nalecz Korzeniowski. Ambos migrados, envoltos na figuração mezzo britânica, mezzo alienígena das formas abruptas do mar, ruminaram um inglês lento e cuidadoso, que trabalha numa crescente própria à inconstância marinha, esta alma selvagem ou, no mínimo, pagã, o que dá no mesmo. Ou quase. Desconfio, porém, que as semelhanças cessem por aí. Afinal, entre marinheiros mercantes e matemáticos há um mar. E não necessariamente o pacífico. Explico.
Ainda que seja incontestavelmente mais conhecido como antropólogo, campo no qual de fato se destacou, Malinowski fora matemático, como os interessados bem sabem, e que num surto de mal-estares fortes, foi internado em hospital e, assim, dedicou-se ao livro infinito de James George Frazer, The Goulden Bough. Foi sua segunda febre, fazendo do mesmo Frazer prefacioador de sua obra maior. A despeito das viagens e territórios inóspitos, da profunda absorção da camaradagem entre viajantes que só tem a relação entre-si – ao menos até o primeiro assassinato, fuga ou ato de espionagem; e nisso, Malinowski é o espião; mas o ponto central é, a despeito de todas as semelhanças entre um e outro polonês, eu nunca sonharia com Korzienowski. Já com Malinowski...
Pois foi em um salão universitário que balbuciava à congresso científico, movimento e pessoas passando. E o sujeito estava lá, o espião da Coroa em plena Melanésia, no meio da sala. Reconheci pelos óculos, os mesmos estampados na capa da edição brasileira de Os argonautas do pacífico ocidental, ainda adornada pela curva oblíqua que sua cabeça fazia, acrescentada somente de restos brancos de cabelo e numerosas rugas e manchas de sol – quando não, quase melanomas. O terno azul marinho não combinava com a minha memória em preto e branco, típica de quem tem a memória mediada por cristais de prata muito velhos. Azul marinho, e uma camisa branca acompanhada por um sorriso franco, fácil e branco à prova do tempo. E, não sei como, nem porquê, veio falar comigo, o brasileiro, sobre sua última descoberta, que estava enveredando para uma nova frente, e que pensava que a etnologia americana era farta, fértil, e que estava muito entusiasmado com O índio no mundo dos brancos de Roberto Cardoso de Oliveira. Sorri feliz porque vi. Era a mesma edição que disponho em minha biblioteca e, como Malinowski, sempre pensei que ali tem algo a mais, a despeito da simplicidade do argumento. Taí o velho polaco que não me deixa mentir. Ali, tem.
Imagino que, se for um leitor atento, terá percebido que isso em nada tem a ver com os dois poloneses, que falta amarrar este pequeno vôo (na verdade um salto). Confesso, então, que Korzeniovski, também conhecido como Conrad, Joseph Conrad, era só um pretexto. Mas, convenhamos. É Joseph Conrad, é um baita pretexto. Ou então Malinowski é seu secret sharer que, a despeito de tudo e da possível semelhança, fugiu da mesma forma que veio: ilegal e nu.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Pro Zé Antônio, meu comuna preferido

Ainda livreiro, aporrinhava clientes como o Aviário Portella em busca de sacadas literárias que um gesso formado sociólogo jamais teria. Aviário tecia elogios ao amigo Pablo que colecionava as Cantadas Literárias da Brasiliense, enquanto ele mesmo fazia pouco caso da única coisa que eu conhecia, de fato, no ambiente literário: o trabalho de Luis Costa Lima. Na época, era enorme a plêiade de figuras que destilavam impedimentos e preferências literárias as mais variadas que, exatamente por ter que antecipar macacos velhos em suas preferências já destiladas há décadas, fazia uma corrida contra o relógio de leituras mil, chegando a ler um romance por dia. Devorei poetas para atender (sic) Carlito Azevedo; jornalismo literário por causa do Marechal Costa e Silva; li sobre samba, mulata e futebol por causa do padrinho Zílio Tosta; devorei Eisenstein e Vertov por causa de Hilda Machado e Henry Grazinoli; conheci Boris Vian junto com Paulo Camacho - com quem vim fazer um curta metragem, felizmente inédito. Há uma semana tomei coragem para começar a ler Teatro de Sabbath, traduzido pelo mesmo Rubens Figueiredo que me ajudou, por telefone, a confirmar a tradução de "rubbing the buttocks" que havia encontrado em Naven de Bateson; antes deste, li outros dois romances de Phillip Roth. Um deles, já com conhecimento de causa, o que não tem graça. O outro foi Complexo de Portnoy. Foi um começo.

É que, na verdade, nunca entendi porque é que alguém leria um romance engraçado. Aviário foi um dos primeiros a sugerir, com ênfase adequada, que poderia ser bom. Mas nunca levei a graça a sério. Não em romances. Pensava ser este o reduto das formas breves. Mas, enfim, tinha que ler algo engraçado, dado que é imperativo vender quando se é comerciante. E, no meio da enorme e vasta fauna afetiva que órbita pela livraria Berinjela até hoje, havia uma doce figura que destilava uma erudição literária monumental suficiente para calar o mais falante dos poetas, o mais matreiro dos jornalistas. Passeava com gosto e saliva por Homero, Virginia Woolf, Muriel Spark, Machado de Assis, Conrad, Roth, Euclides da Cunha, Safo, Proust, Joyce, Mirisola, como se não houvesse desnível que sua memória e prazer prodigiosos não superassem. E se eu precisava ler algo engraçado, um romance engraçado, mas respeitável – afinal, é perigoso vender livros na Berinjela -, perguntaria a Zé Antônio. O que ler, Zé? E nunca esqueci a brochada-mor em Israel que me fez gargalhar às 2 da madrugada, fazendo acordar minha esposa que dormia em um dos 4 cantos possíveis do apartamento quarta-sala que alugávamos na Praça Sarah Kubitchek, em Copacabana. Mas na mesma dica, veio a cautela. “Se vai levar esse Roth, leva um outro. Este é engraçado, mas é neste outro que a coisa acontece.”

“Mesmo, Zé? Então vou levar.”


O exemplar que ora leio de Teatro de Sabbath é o mesmo que Zé Antônio me passou em mãos, como se o vendedor fosse ele, o que me faz lembrar que cada página que leio, é uma página que foi um pouco dele. E isto é bom, porque ele fica. Mas há algo que dói demais, agora. É que cada página que eu vier a escrever, por uma razão ou por outra, é uma página a menos que ele lerá. Se há algo na morte dele que é imperdoável é o fato de eu não ter sido um redator veloz o suficiente para arrancar dele, ao menos uma vez, o sorriso de quem saboreou o prato e pôde desenhar no gesto a mais meritória das aprovações, sempre arte-finalizada com o mesmo nanquim verbal:

“Gênio.”

sábado, 23 de julho de 2011

Freakin´ jester ghost

Há quem prefira remeter a coisa toda para os vermes, para o sulco na terra aonde jogamos os corpos, fazendo fremir a putrefação. Há quem prefira fazer a coisa toda incorpórea, lamentando a alma como a forma própria da saudade, praticando a arte memorial, como se a imagem fosse um eterno epitáfio. Há quem faça a coisa diferente, e se contente em morrer e deixar que isso seja, por fim, tudo. Mas, mesmo assim, mesmo que seja assim, a coisa não encerra o jogo de cena que a morte impõe quando morrer é o tema. Vejamos coisas insuspeitas – que, na verdade, pertencem mais à fantasmagoria do ouvido. Porque, ainda que jogado por terra, há quem volte. Em meados dos anos 90, Faith no More gravou I started a joke(http://www.youtube.com/watch?v=MUTo6kSZlPI). Não suficiente, filmaram um vídeo clipe que, tal como o imagino, trata-se da aplicação do ponto de vista da audiência futura disto aqui: http://www.youtube.com/watch?v=RRNTQvXSsfA




É nestas horas é que tenho medo de fantasmas.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Flutuação, inércia e atrito zero: em quê concorda o dissenso







Sempre leio que a população indígena brasileira está morrendo, informação esta que é agravada com uma taxa de mortalidade infantil acrescida de mais de 500%. Já li que são as reservas que empobrecem e expulsam índios que já não são tanto. Li também que somos nós que os impedimos que o sejam. Índios. Trata-se do desenrolar da história do capital, trata-se do atravanco da mesma por parte da tradição caduca e romântica. Para estes, que nunca fuçaram os assuntos indígenas, salvo quando o tema é economia nacional, recomendo o silêncio. Mestres em dizer que há índios que já não são índios, parecem muito seguros em formular proposições baseados em nada, ou pior, em muito pouca coisa. Índio que veste roupa e come enlatado já não é índio. Daí, a pergunta: diante de qual tribunal essa fórmula pode ser defendida? Quem foi chamado para depôr? E, num só golpe, quase todos os indígenas mexicanos, bolivianos, peruanos, argentinos e, surpresa, brasileiros, por razões diferentes, deixam de existir. Numa só canetada, permitindo que quem quer que tenha assinado a carta de extinção passeie só, liberal e auto-definido em sua autonomia de consciência. E isto tem nome. Chama-se Reynaldo Azevedo – ou José de Alencar, cuja profundidade da ressonância poderia ir mais além. De outro lado, a figura do índio nu e entregue aos meios naturais demanda esforços nada desprezíveis para serem encontrados fora desta definição, que só preza por ela mesma. A morte das crianças está indissociavelmente conectada à destruição de reservas, sem que possamos definir que esta conexão não é exatamente adequada. A história indígena no país – daqueles que, de quando do genocídio, extermínio e exclusão foram índios por bem; e que para fins administrativos se transformam, à base da canetada, em coisa diversa como “campesino”, “favelado”, ect. – parece não ter lugar que seja seu. Nem o passado escravocrata criou um legado tão perverso quanto este, a de que o lugar institucional, e por isso histórico, de um enorme coletivo de pessoas, é o de ser o que já não é, não foi e não será jamais. Nem em nome de sua defesa. Índio fora da floresta é excluído, injustiçado, etc.. E este é o blog do Sakamoto – ou José de Alencar, cuja profundidade da ressonância poderia ir mais além. Invariavelmente, a noção de existência autônoma, e a elaboração de que índio é o que for, mesmo que não, não tem sequer valor cognitivo para o debate público. Sequer os mortos são tratados assim. Pergunte aos argentinos. Até porque, índio morto - ainda que assassinado - é antes índio do que morto ou assassinado.












Há quem diga que a foto que ilustra este desagravo é sem graça, ocidentalizada, e pouco representativa da diferença para a qual tento apontar. Já eu diria que uma reação como essa, comum e repetida, não é nada além de uma versão de C.Q.D.. Há quem diga que a diferença só importa quando ela é intolerável, ou quase isso. Pois bem. Intolerável parece ser a idéia de que alguém possa estar tão perto e, ainda assim, tão longe quanto uma kaingang estudando vestindo um suéter, tão parecida com uma colega de sala que tive na graduação e, ainda assim, não. Não o suficiente. E um abismo de alguns centímetros se abre que, ainda que à primeira vista indique uma diferença de grau, após a zona do infinitesimal, sugere ser uma diferença de natureza.












Uma kaingang, de suéter, soa à traição.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

"Quando vou escrever, e sei que é a hora, me sobe a claustrofobia de estar aqui dentro e me afobo."



Ecuménico Fizsco

Os que estão para morrer











ou Kirk Douglas.

Recentemente. Há quem diga que há uma injustiça em curso. E que mesmo o espiritismo que rejuvenesce os cofres cinematográficos e reconstituem a pauta, meio desmilingüida da caridade, se esforça por manter subterrâneo, a sorte de ostracismo dos mortos da pátria. Ainda que sejamos inculcados por uma forma peculiar de imaginação perversa, como a verve anarquista de antropólogos de agora fazem por bem, e por vezes, ressaltar, imaginamos os mortos vivendo a boa vida. Isso acalma. Nem sempre isso é bom. Afinal, há aqueles para quem a morte implica em outra coisa e, mais, em quase nada.












Há quem me fale de Macabéia, de A hora da estrela. Há quem diga ser condição mais geral, abrangente e ofensiva. No diário de Lúcio Cardoso, em 14 de agosto de 1949, lemos: Na expectativa do trabalho. Numa tranqüila manhã (odeio essas inversões que adjetivam o substantivo; não vejo, salvo exceção, quando é que a tranqüilidade é sobredeterminante quando o ponto versa sobre marcadores temporais), de sol violento e frio, regressando da missa numa pequena capela erguida num outeiro sobre o mar – o poder, a verdade dessa vista de cartão-postal! – reparo as pessoas que passam em roupas de banho e trajes esportivos, ávidas de gozarem a delícia da manhã. E é estranho constatar como parecem deslocadas na harmonia do ambiente, muito gordas ou muito magras, com roupas exóticas e evidentemente mal-feitas. A tristeza, a miséria da carne humana é tão visível, que chega a me causar uma espécie de mal-estar. Na radiosa manhã são quilos e quilos de ambições e sonhos frustrados, de matéria sequiosa queimada pelos desejos mais disparatados, pela gula e pelo egoísmo, que se arroja cega pelas estradas, em automóveis, carroças e bicicletas, tudo enfim o que mais confortavelmente pode transportar essa massa condenada em sua sôfrega busca de esquecimento.

A carne quantificada caminha objetivamente. A paisagem é mais generosa que o cenário triste e rame-rame da odisséia pobre de Macabéia. Na verdade, é mais generosa porque é uma paisagem, e já não há drama e sim uma marcha, como a que encaminha a vaca para o brejo. O cartão postal, todavia, não é decadente. Disto implicaria um juízo moral que, ainda que apareça, não é a fonte do juízo mesmo. O que desenha a figura é a carne que busca o esquecimento – cuja fonte e direção não se dizem. Ser esquecido ou esquecer, neste caso, indifere. Dá no mesmo. O sentido providencial da sentença rumina o mesmo rumo que Lawrence Ferlighetti dá em seu The Old Italians Dying que por anos têm morrido por toda a América. Por anos os italianos velhos vêm tomando sol e morrendo, dia a dia. They are almost gone, now/They are sitting and waiting their turn and sunning themselves in front of the church/ over the doors of which is inscribed/ a phrase which would seem to be unfinished/ form Dante´s paradise/ about the glory of the One/ who moves everything…/ The old men are waiting/ for it to be finished/ for their sentence on earth/ to be finished(…). Ainda que pese o peso da espera, há na velhice marcada pela imobilidade da paisagem na qual lhes resta a marca de amantes – de Mussolini e Garibaldi – e sua forma essencial do odor – alho e pepperoni, ambos exalados por bocas dentadas em cor-de-milho -, com os olhos cotornados por sombrancelhas selvagens; há na velhice a forma chave de petrificação pela autoconsciênscia de que o tempo, este já se foi, e que estamos em tempo de partir com ele. E não estou falando de uma viagem qualquer. E tornar-se quase-pedra antecede o momento de dissolução pelo fim, que é o mesmo que finalidade, cuja marcha está precisamente marcada pela pequena turba do cartão-postal, o outro, à beira da praia no diário de Lúcio Cardoso, de quem diariamente nos esquecemos. Como fazemos com todos e tudo, afinal.


















O outro mundo é aqui. Mas daqui a pouco.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

01 ao pé da página

Gostaria de registrar isto. Isto mesmo. “Isto”. Isto é, antes de qualquer outra coisa, escrito. Na verdade, riscado, desenhado, configurado em pixels e binarismo, mas isto está escrito. Não recomendo literatura, não figura prosa, não culmina em verso. Ao menos não até ser tarde demais. Não está confuso, não é torto, não demanda paciência. Está um passo atrás – e não um passo à frente. Isto não conta com estofo, não fornece grandes linhas porque é pobre, menor, e desavisado. E tropeça. Não se filia, é meio adotado, não encontra linhagem e, ainda assim, não produz inovação ainda que composto num parque tecnológico. Não sendo apologia a Magritte, isto é assim mesmo. Mas ainda assim, tão pouco, tosco e primário, desajusta. Ficamos assim. Pode ser que aconteça, pode ser literatura de ficção, poema, ensaio ou algaravia. Mas o será, caso seja, se for, quando for tarde demais.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Meu Avô






Cresci já faz um tempo e, não tarda muito, começo a encolher os centímetros que a velhice toma para si e esconde no bolso de trás. E, confesso, tenho torcicolo procurando orientação num momento como este, porque não tive avô. Quero dizer, tive. Dois. Um, avô natimorto. O outro, distante nas Minas Gerais, aparecia em refúgios temporários para tomar café na varanda, comer mamão com aveia de manhã e partir em meio às histórias da linha telefônica que conseguiu com minha avó, não a casada com ele, sem nunca ter pago. Sabe, linha telefônica, nos idos anos 60 custava o mesmo que dar entrada em apartamento. Num vai e vem periódico, meu avô não foi aqui.

Mas eu passei muito tempo ligado em televisão, de mil e uma formas e, ainda há pouco, percebi que estive na boa companhia de um velho durão, mas gentil nas horas e formas mais adequadas, e que me convenceu que há variedade do lado de lá. Este, por fim, faz quadro a quadro a coletânea de todos os sexagenários que me deram as mãos em momentos descolados entre si, e que só tem em comum a minha memória. Assisti a Gran Torino e vi que Clint Eastwood é o avô que eu não tive. Não Clint, mas nos quadros em que aparece, aos poucos, como Walt Kowalski et al. As lágrimas que não perdi até então com a velhice viril dos avôs que mal tive devem rolar em pouco, me diminuindo o volume e me fazendo, um pouco menor, um pouco mais velho.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Proto-história positiva de umas coisas aí.

Porque parte da história narrada pelo ponto de vista progressivo - e positivo, mais de bem com a vida, e entusisasmado com as propriedades mnemônicas da vida coletiva moderna, tem o hábito de narrar o progresso segundo a chave de como chegamos até aqui, e como foi chegarmos até aqui. Daí a pergunta cética: "Chegamos? Chegarmos?" - do tipo que acha engraçado quando dado time termina bem uma partida e um torcedor, em frente ao seu televisor, sussurra: "Ganhamos!". A história do progresso me soa, por fim, a uma grande torcida fazendo !Hola!.






(entenda-se bem que não tenho time de futebol, mas em filosofia da história, eu sou botafoguense.)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Via de mão única

"Ficou combinado que minha mãe me guardaria os sacos que serviam para embrulhar os cereais que ela comprava. Ah! com que entusiasmo, voltando para casa, à noite, eu explorava esses tesouros dados como restos de discursos, como fragmentos de anais! E com que irritação chegava ao final da página rasgada sem prosseguir a narrativa, que nunca continuava na entrega seguinte que minha mãe me fazia em forma de sacos ou canudos, embora lhe tivesse recomendado para trazer as lentilhas sempre do mesmo comerciante."









retirado de "A Noite dos Proletários - arquivo do sonho operário", de Jacques Ranciére, no capítulo em que disserta sobre a descoberta da leitura por quem não deveria, ou não poderia, por via de embrulhos de jornais (Goscinny & Uderzo escreveram que os peixeiros foram os primeiros advinhos ao lerem, não nas tripas, mas nas embalagens de jornal, as novas do cosmos) ou maiêuticas de mão única.

Com a mãe.





Ranciére recupera histórias de mães que não sabem ler e que, ainda assim, ensinam seus filhos a dar seus primeiros passos na República - ensinamentos da mãe claudicante. Proposta de um esforço fora do sério, e que sabe, quando sabe evadir, promove uma ou duas mil pequenas reviravoltas na vida de alguém.





Rompido o cordão umbilical do tipo romance, encaixado em versos do bom e velho Miguel Torga, o mesmo narra já em Coimbra, em 3 de stembro de 1941, um determinado envio. Correio.

"Carta de minha Mãe./quando já nenhum Proust sabe mais enredos,/ a sua letra vem/ a tremer-lhe nos dedos.// - "Filho".../ E o que a seguir se lê/ É de tal pureza e de tal brilho,/ que até da minha escuridão se vê."

terça-feira, 31 de maio de 2011

Direitos Autorais e Reserva Criativa em Debate







Em geral, são auto-anunciadas como quase alguma outra coisa. Dão as caras, oferecem-se de corpo inteiro como algo que não lhes define inteiramente, e que, logo mais, podem atingir o ápice de quase ter sido o que de outra forma, não seria possível. Contudo, há graus de realização da arte da cover band. É possível fazer um cover insultante e pretensioso que promove releituras que mais dissolvem do que remetem. Há covers incômodos que não conseguem praticar aquele solo em particular – como BasketHead já o fizera como guitarrista do Guns´n´Roses num show em que, surpreendentemente, Guns´n´Roses soava como cover de si mesmo. Outro foi o evento vexatório quando, em 1992, percebeu-se que New Kids on the Block era uma banda que não fazia senão mera alusão do que poderia ter sido. E por fim, aquilo que é o paradigma negativo da história, Milli & Vanilli, que devolveram um Grammy porque, de fato, ao se apresentarem não eram senão a banda cover de Milly and Vannily.








Dos diversos graus em que é possível praticar a falsificação da própria presença, a hipocrisia atinge novos planos quando o ilusionismo participa do evento. Imitar a voz, convidar o resto da banda e fazer as vezes do original até ser tarde demais. Veremos, surpresos, Crosby, Nash & Young cantando Miley Cyrus e seu clássico Party in the USA.

http://stereogum.com/714621/crosby-nash-young-jimmy-fallon-cover-party-in-the-usa/video/

domingo, 29 de maio de 2011

“Olha. Desculpa, tá? Não estou lá muito certo, não sei porque vim, mas sei que precisava. Desculpe, faz muito tempo, acho que até o suficiente para que diga que nunca estive aqui...” do que seguiu um silêncio enorme, extenso e palpável no fundo azul da espera, em que quase tudo, todos se submeteram, sem imaginar o lance incerto do zunido desobediente que em nada alterou; zunido silencioso, forma aguda de impertinência, uma moto. “... e não...”



“Você tá péssimo.”



“Olha. O que eu vim dizer é que, o que eu quero deixar claro é que... bom. Eu estou partindo de vez. E não me olhe assim, não é isso que você entendeu. Estou partindo de vez, mas estou mesmo é me desfazendo, sabe? Quebrando aos poucos, digo, decantando. Estou a alguns dias de ser um poema de Augusto dos Anjos.”

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Autobiografia como contorcionismo







Lee Friedlander, Paris.










(temo não haver mais nada a ser dito, salvo que, fora o aspecto de contorção, há aí uma mímica suicida, não? temo então que isto diga um pouco mais sobre esta história toda, que isto tudo é muito temerário, que dói, que é preciso ter preparo físico e que sou avesso à minha autobiografia.)

Menos que um def-ghi







Ditado é um exercício peculiar de auto-engano. Forte, como todo modelo bem-sucedido. Bem-sucedido porque impõe seus próprios termos, o que em nada tem a ver com o suporte ao melhoramento da espécie humana, dado que isto é coisa bem diferente. Daí vem alguém e lhe diz “almoxarife”. Mas o que a pessoa diz, em geral a pessoa é professora, é “Ahn..., bem, alll... mooo... xaaa... riii... feeee...” e, como que por sedução aprendemos a escrever com um incompreensível corte de vogais. E está feito o exercício. Não importa muito a extensão e a audiência do ditado. Ele só se transforma quando atinge a dimensão do dístico, o que mostra que, por fim, o primeiro plano da vida adulta é o auto-engano, o que permite que se finja sentir a dor que deveras sente. Se em cavalo dado não se olham os dentes, antes um passarinho na mão do que dois voando. E finalmente o ritmo faz parte do ditado, e é enfim como se diz. A coincidência toma parte, não segundo as regras impossíveis do acaso, mas da sincronia e da sintopia; a convergência; a conjunção. Assim. “Almoxarife”, tal como dito na confirmação do que fora dito com vagar, na voz que tartamudeia, confirmando ao ouvinte que ele de fato está a ouvir algo e que, para marcá-lo bem é preciso dizer outra coisa, diferente, a mesma coisa. O ditado precisa de um ponto de fuga, é necessário saber olhar para o outro lado. Para um outro lado.





Por exemplo: def-ghi. O termo designa disparidades e contradições. Juan José Saer, ao prosear em O Enteado, aponta para a palavra (sic) que, repetida para o narrador por diversos indígenas vermelhos em seu romance de viajante perdido na descoberta das Américas, diz um monte de coisas sem que seja excessiva, isto é, sem que tenha perdido distinção e nada mais exprima. Assim, def-ghi diz respeito a: 1) pessoas ausentes ou adormecidas; aos indiscretos que, ao visitar a casa de outrem, demoram-se excessivamente; 2) pássaro de bico preto e plumagem amarela e verde que, quando domesticado dava-se à repetir as palavras das pessoas para regozijo da aldeia, feito um papagaio; 3) objetos de alguém que substituem o mesmo numa dada reunião, cumprindo inclusive o papel de comensal; 4) o reflexo na água; 5) coisa que dura; 6) criança que, ao brincar com as demais, separava-se para interpretar uma personagem; 7) pessoa que ia espiar os inimigos. O sobrevivente de uma nau que atingiu a costa americana de quando do século XVI, e que fora conduzido pela população autóctone até o seio da aldeia de forma demorar-se o suficiente para aprender a língua, ou parte dela e, como sói aos antropólogos, sempre de forma risível e que, invariavelmente está lá junto aos inimigos de seu povo. E nenhum dos termos destacado, e todos em consonância, permitindo ao narrador falar, basicamente sobre aquilo que falavam para ele, e sobre ele a cada momento quando repetiam, apontando-lhe o dedo: def-ghi.
O narrador que, já tendo retornado de forma a marcar o momento no qual a prosa é destilada, encaminha o encerramento já sob o efeito das notícias do fim dos índios que lhe fizeram def-ghi e que, numa só palavra lhe forneceram um relato inteiro. E então, após já dar sinais desse juízo por antecipação, arremata: “Como eles eram o único sustentáculo do exterior, o exterior desaparecia com eles, apartado, pela destruição daquilo que o concebia, na inexistência. O que os soldados que os assassinavam nunca poderiam chegar a compreender era que, ao mesmo tempo que suas vítimas, também eles abandonavam este mundo. Pode-se dizer que, desde que os índios foram destruídos, o universo inteiro ficou derivando no nada. Se esse universo tão pouco seguro tinha, para existir, algum fundamento, esse fundamento era, justamente os índios, que, entre tanta incerteza, eram o que se assemelhava mais ao certo.(...) O céu vasto não os cobria, mas contrariamente, dependia deles para poder desdobrar, sobre essa terra nua, sua firmeza raiada.” .
Igualmente def-ghi, em uma situação em que a extensão do cosmos é o da intimidade, o que explode um no outro, Karen Blixen abre seu jogo, o tabuleiro povoado de acácias de sua Fazenda Africana dizendo, mais à forma de uma administradora, exatamente algo que coincide: “Em geral, eu e Nairóbi mantivemos excelentes relações e, certa vez, ao atravessar de carro a cidade, não pude deixar de pensar: Sem as ruas de Nairóbi, o mundo não estaria completo”.




terça-feira, 10 de maio de 2011

Pergunte ao Melanésio II


















Uma das maiores preocupações da antropologia, enquanto disciplina moderna, está em elaborar analogias funcionais. E se não funcionais, ao menos analogias que funcionem. Grosso modo, o impulso em se orientar por analogias e seu grau de universalidade permite ao analista extrapolar os dados rumo a um plano simbólico comum, o que também já foi mais chamado como espírito humano. De alguma forma, os símbolos teriam traços distintivos essenciais em sua figuração, permitindo que houvesse conexão de ida – da emanação do arquétipo até o simulacro – e de volta – permitindo, via atividade litúrgica ou ritual; não são sinônimos; do simulacro até o arquétipo. Repetindo: em tese, o símbolo tem ida e volta. Em tese. Ida e volta. No entanto, tudo o que o exercício etnográfico fez foi complicar este esquema, em muito sugerido nas vulgatas de religião comparada - lembrando ao fiel mais impaciente que nem toda comparação se fez na base do cuspe-e-cola.





Como é de conhecimento comum do antropólogo descolado – e aí, vai procurar por aí um antropólogo descolado que tenha, de fato lido Os Argonautas do Pacífico Ocidental ou monografia de peso semelhante -, Malinowski dedicou-se em descrever o sistema do Kula por via dos trajetos de navegação, assim como a vida das wagas, as canoas utilizadas para a navegação no arquipélogo Trobirand e adjacências. O kula, na visão de Malinowski é sinônimo de cultura massim, e por via dele são movimentados os fundamentos da economia nativa, entendendo então que é nele que a vida social circula e o código cultural mais específico se exprime. O kula é caracterizado por um sistema complexo, porque extenso de honrarias que não vou me deter em descrever. Malinowski o fez melhor. E depois Annette Weiner. E depois Marilyn Strathern – muita gente. Tô fora. Detesto aglomeração. Mas há, lá pelas páginas quase 200, um parágrafo bacana que é daqueles que confundem o setor das analogias plásticas universais. Malinowski disserta sobre eventos sobrenaturais que podem impedir uma expedição do kula:

De todas as crenças, a mais notável é a de que há no mar enormes pedras vivas, as quais ficam à espera das canoas, correm atrás delas e, saltando, redusem-nas a pedaços. Sempre que os nativos têm razões para temê-las, todos os membros da tripulação se conservam em silêncio, pois que as risadas e a conversa em voz alta atraem as pedras. Às vezes elas podem ser vistas à distância, saltando para fora da água ou movendo-se sobre o mar. Com efeito, foram apontadas para mim quando deixamos Koyatabu(1), e, embora eu não visse coisa nenhuma, os nativos, é claro, genuinamente acreditavam tê-las visto. De uma coisa, no entanto, estou certo: a muitas milhas em nosso redor não havia sequer um recife aflorar nas águas. Os nativos também sabem muito bem que essas pedras vivas são diferentes dos recifes e dos baixios, pois que elas se movem e ao avistarem uma canoa, passam a persegui-la, estraçalham-na de propósito e esmagam a tripulação. Esses hábeis pescadores também jamais poderiam confundir um peixe voador com qualqur outra coisa, embora ao falar das pedras eles com freqüência as comparem aos golfinhos saltadores ou às arraias de ferrão”. (edição Os Pensadores de 1978, página 180)

No caso, e estritamente no caso melanésio, parece que se há um imaginário a ser considerado, o mesmo tem vetor. Isto porque uma pedra saltadora pode se assemelhar com um golfinho ou com uma arraia, mas o contrário não pode ser verdade pois, se assim fosse, os trobriandeses pescariam pedras, o que seria ridículo. Sem saída, pergunto:















E aí, melanésio? Qu´est-que tu me dis?


(1) Sim, a palavra tabu é melanésia. Koyatabu é “montanha proibida”, um endereço da expedição do kula que Malinowski descreve, ainda que à sua forma polaco-escocesa. Tem um traço de Sterne nessa história aí.






quinta-feira, 5 de maio de 2011

Prosa como Fogo Amigo



















Tenho um amigo. É verdade. Não é um grande amigo, pois essa é uma das coisas em que o grau não interfere. É-se amigo, ou não. A disposição é plena. Enfim, não aceito teses e listas dos melhores amigos; sobre melhores amigos; coisa que o valha. Antônio Marcos Pereira é meu amigo e, pelo visto, anda procurando a si-mesmo. Não sei bem o que é isto, mas parece que é o que ele anda fazendo. Tanto preparando uma aula quanto lendo Flaubert, não me parece fazer outra coisa, e gostaria de dizer algo sobre isto. Primeiro, que li O Enteado por sua causa; por sua causa e em causa de meu outro amigo Adevogado. Segundo, que entendo essa história de manquer toi-même como algo completamente diferente que manquer moi-même. E em terceiro lugar, que não me movo de mim because I ain´t no Peter Pan.









Meu amigo é muito bem provido de prosa. E fez um exercício bacana de hipnose em que procura se induzir, sair de si à francesa, como diz o próprio título de algo que ele escreveu. Diz quem “você é” em relação ao ofício que ele mesmo – você, meu caro AMPereira – produz. Veja só que engraçado. Basta mudar o pronome, mover os períodos em seu favor para que a prosa assuma ares de hipnose. Meu amigo é muito bem provido de prosa. Ele gosta de Oulipo. Ele faz voleios com Perec na cabeça e, não por acaso, é um homem que dorme. E por isso, fortemente deslocado. Deslocado? Leia você mesmo.

É um momento de pequeno horror, você sabe que as frases não são suas, mas você não sabe de quem são, e afinal você também duvida, pode ser que sejam suas mesmo, um artifício de combinatória qualquer que você ignora e, de repente, elas saltam aos olhos porque fazem sentido, porque lhe dizem que tudo que você pensa é usado e de segunda mão, tudo que você vive é mais ou menos caótico, mais ou menos obscuro – e, no entanto, digamos, tudo bem, lá vai você escrevendo a vida de um Autor que você admira e, afinal de contas, de onde vem a admiração senão de um momento de clareza fugaz mas ainda vívido na memória no qual, ao ler, você percebe uma zona de obscuridade em si mesmo, descobre que sabia algo que efetivamente não sabe, mas não importa, pois naquele momento você não se envergonha, você não sabe e nisso, sim, você se dilui, igual a todos e capaz de se esquecer de si mesmo por esse momento que seja, pelo menos.


Quero perguntar muitas coisas para responder logo em seguida. Isso porque as perguntas são retóricas e, mais, porque quero dizer algumas coisas para AMPereira, meu amigo. Quero perguntar se o pequeno horror serve como versão masturbatória da petite mort francesa, que não deixa de ser uma forma de sair de si. Isso porque o conteúdo seminal da obra ainda lhe vem como pertencimento que qualquer teste de DNA repete como assombração. É esta zona que faz com que sair de si tenha como garantia que é possível voltar à morada que é, por fim, inescapável ainda que renegada. É por isso que seu ensaio é, antes que uma confissão, um show de hipnose solo; e é por isso que eu escrever “você” aqui é tão diferente de você ter escrito “você”, lá. Esta é uma epístola; aquilo é um exercício de espelhamento, com relógio do avô em pêndulo.

Seu ensaio, meu amigo, diz respeito a sair de si para fazer o exercício básico da biografia como atividade de pesquisa e, mais, de prosa. O ensaio de meu amigo é um parêntese em sua vida como biógrafo de Juan José Saer, escritor cheio de vozes e que, ainda assim, não me vem tão bem. Mas por isso mesmo, li. Nadie, nada, nunca, em português, traduzido pelo mentor de outros tempos do meu amigo. Mas decidi seguir até o entenado, também sugerido pelo meu amigo Adevogado, porque sou antropólogo, e os antropólogos gostam de ler coisas de gente sozinha com índios. Ainda que seja muito falsa a afirmação, e ainda que os antropólogos, em geral sejam lesmas preguiçosas com a atividade da leitura, li. E no exercício de ler O Enteado, traduzido por José Feres Sabino, encontrei meu amigo AMPereira dando uma banda nos trópicos. Saca só:


Nunca se sabe quando se nasce: o parto é uma simples convenção. Muitos morrem sem terem nascido; outros nascem apenas, outros mal nascem, como abortados. Alguns, por nascimentos sucessivos, vão passando de vida em vida, e se a morte não viesse interrompê-los, seriam capazes de esgotar o ramalhete de mundos possíveis à força de nascer uma vez após outra, como se possuíssem uma reserva inesgotável de inocência e abandono. Enteado também, eu nascia sem saber, e, como menino que sai, ensangüentado e atônito, dessa noite escura que é o ventre de sua mãe, não podia fazer outra coisa que começar a chorar. Do outro lado das árvores, vinha-me, constante, o rumor das vozes rápidas e estridentes e o odor matricial desse rio desmesurado, até que por fim adormeci” (na edição da Iluminuras de 2002; pg. 41)


Adormeceu, AM? O exercício lhe permitiu pegar no sono? Porque, ainda que cansativo esta voga de encontrar zonas obscurecidas em si mesmo, e ainda mais, deixar-se diluir, e se deslocar como só a água faz por frestas no chão da vila onde residiam os poemas de Herberto Helder; ainda que cansativo, não costuma deixar ninguém dormir. Você conseguiu dormir, meu amigo? O sono lhe fez bem? Você se esqueceu de si mesmo? A hipnose aconteceu e esta seria a razão de ela lhe ser desejável? Moveste-te de ti?


Encontrar com os índios, me parece, é exercício diferente. Não buscando a si mesmo, nem esquecendo de nada, ser enteado, ou seja, no seio alheio é, mais que tudo, ver o que não se pode esquecer. Há quem diga, e o nome de quem diz é pouco popular, que a diferença só é importante quando ou beira o insupotável, ou é insuperável. Como quando, por exemplo, vemos a carne de nossos amigos ser devorada, assada por uma tribo de velhos imberbes e jovens sedentos e, por alguma razão vemos nossa carne sendo poupada enquanto ouvimos Def-ghi. Sua carne foi poupada, não, meu amigo? A minha, até então, foi.


E por alguma razão, no exercício do meu amigo, esquecer de si é algo diferente de esquecer de mim. É porque, e meu amigo sabe disso, não importando como, não é possível que eu me esqueça de mim, entendendo que qualquer um possa dizê-lo ("eu me esqueço de mim"); não sou eu falando, mas alguém que pode falar em nome de "eu". Meu amigo, enquanto eu se esqueceu dele; deu um jeito de declarar que "eu me esqueci dele" - dele quem? - "eu". Daí a hipnose. Daí o deslocamento. Daí o sono induzido. E houve de acordar.


Todos estavam ali e eram, aparentemente, reais: os assadores tranqüilos e experientes, a multidão, a qual algo intenso e sem nome consumia por dentro como o fogo a lenha, e , envolvendo-os, embaixo, em cima, em torno, a terra arenosa, as árvores que nenhuma brisa balançava e de onde os pássaros, como vôos imotivados e súbitos, entravam e saíam, o céu azul, sem uma só nuvem, o grande rio que tremeluzia e, sobretudo, subindo , lento, já quase no zênite, o sol árido, chamejante, do qual parecia que essas fogueiras que ardiam ali embaixo não erma mais que fragmentos perdidos e passageiros. Terra, céu vazio, carne degradada e delírio, com o sol em cima, passando, desdenhoso e periódico, pelos séculos dos séculos: assim se apresentava, essa manhã, ante meus olhos recém-nascidos, a realidade.” (idem.; pg. 51)


Percebeu que comecei a falar de nós, e não mais de você, meu amigo? Nos encontramos sem que eu tivesse que me mover de mim, porque não sei nada dos truques de hipnose. É assim que se sai de um sono de se esquecer de si?


Acho que é hora de revelar que, sim. Pode ter sido eu. Posso ter devorado uma ou duas panturrilhas de seus companheiros de viagem.


E daí que eu li sua forma clara e límpida de não ensinar nada em outro ensaio – sendo os ensaios a forma maior de elogio dos canibais. E li que correu atrás de você mesmo. Parece que no sono, e ao acordar, ficou ainda mais difícil. Efeito delicado este, o de esquecer-se de si e ver que, nisto, deu vontade de correr atrás de você. Parece que você faz falta.


Eu? Sair de mim? Não. Prefiro sair dali. E aí, elogio o nomadismo pela enésima vez nesta vida.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Germano Gemelo

No me quiero en un tiempo híbrido
dado que no sé lo que hacer con él.
Porque resido como algo así
ni tanto, ni tan poco.
Tampoco soy célula firme
aunque definida
híbrida.

Fuera yo hecho para un tiempo ambiguo
Que no sabe seguro lo que eres o lo que quieres
y se lo sabe, lo dice al decir
“por lo menos
Dos”, que a todo íntegro divide.

Así puedo decir para donde voy sin necesidad de decirte para donde was!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Minhas Cosmicômicas Parte 2

Steps to an ecology of mind



(parte 2) “The universe, message-plus-referent, is given pattern or form – in the Shakespeares sense, the universe is informed by the message; and the form of which we are speaking is not in the message nor is it in the referent. It is a correspondence between message and referent.” (Cybernetic explanation, pg. 408 de Steps to an ecology of mind, edição de bolso).

Obviamente que os sentidos de universo, informação e forma tem um peso particular nas passagens que Bateson de fato faz menção. E seriam termos vazios se não tivessem apontado os meios pelos quais o escopo da totalidade, ou a parte que o todo compõe de forma que estejamos falando de uma pesquisa possível, um ponto de partida que coadune empiria e um princípio teórico em uma das ciências da vida: a antropologia. Ora, é na introdução do livrinho que urge ser traduzido que lemos, e aqui eu traduzo, o seguinte:





A ênfase está nas mediações e nos mediadores (ainda que distinga seus modos de planejamento dos de apresentação), embora a informação nunca seja simplesmente transferida, uma vez que paga pelo seu transporte com um pesado imposto em transformações, mesmo quando mantém uma constante no caso das ciências em ação.”

No que pesa na dimensão crucial da correspondência como conceito de harmonia, que encontra um eco na poesia simbolista nunca investigado com ênfase, a primeira anotação a ser inscrita é que os mediadores, ou a mediação são/é a correspondência entre mensagem e referência. Dito isto, mantenho alguma distância, pois o que é alvo primário de preocupação é a noção de que “o universo é informado pela mensagem” no qual a informação e conhecimento têm estabelecido a seguinte relação: conhecimento é a informação que ocorre quando a informação tem como correspondência, entre mensagem e referente, a referência e o contexto no qual ambos operam correspondentes, ou em correspondência. Em outras palavras, num conversê cibernético em que constem os termos de retroalimentação e estocase. E aqui a cibernética começa a oferecer as bases da explicação. É o que afirma Bateson, meu primeiro passo para chegar até Charles Beaudelaire.

(acuma?)







terça-feira, 5 de abril de 2011

Parte 1 de minhas Cosmicômicas

Steps to an ecology of mind



Tudo começou quando li "Cybernetic Explanations". Percebi que... Não. Não percebi. Li, dado que escrito e aqui eu só sigo instruções. E em uma dada altura, Bateson cita Shakespeare, dizendo que o universo é informado pela mensagem. Não se leia aqui, por favor, que a mensagem opera como um jornal impresso entregue na porta do universo - dada a conjuntura, é bem possível que alguém faça esta interpretação. O que está sendo dito é que ao informar, a mensagem traz o universo consigo, como determinação da informação. (fim da parte 1)

sábado, 12 de março de 2011

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ficção ilegal sobre a Sigla do Arco-Íris

Há tempos em que se chamaria encruzilhada. Hoje moral, já foi coisa de caminhada, com traços de outras rodas que não a do mascate que lhe lançou uma maldição fraca, das de brochar por uma ou duas noites, ou de sangrar nas vestes um sangue ruim. Antes ainda, ou ao mesmo tempo e depois, ouve de cruzar dois paus com vistas na santificação e, após algum período de convenção, multiplicação. Mas hoje, encruzilhada moral.

Gosto de pensar no casamento. Até porque, sói aos casados. Mas não assim. Penso na diligência diante do erro e das coisas que se pode fazer quando da contingência – e como há coisas demais a reconhecer. Pense-se em algo a recriminar. Algo a aprovar. Daí, ao constituir o crime e a boa conduta, fazê-la valer como ordem. Nada mais impossível do que isto em tempos de então, essa onda que não passa. Vale adiantar essa conversa, pois tem a vê, embora eu não saiba como, com o reductio ad absurdum do nacionalismo, esta forma de confundir mapa e território.

Então seguimos com a forma. Há criminosos. Há os de-bem. Não basta, e não se vive assim, não mais. Há o permitido, há o proibido e há a reserva. E aí, assim como houve de eu escrever sobre os pepinos, há a reserva. E nisto, começo a revelar que esta mensagem é uma confissão.

Não sou homossexual, ergo não apoio o modo de vida. Apoiasse, praticaria.

Entendamos esta afirmação.

Não quero viver com intimidade demais. Exijo certa distância e trato formal, na maior parte dos casos. Vivo por via dos graus de separação e entendo isso como atividade de guerrilha. O casamento em que me entendo é assim, uma marcação de distância ainda na intimidade. Há coisas que não quero saber e, assim, não faço questão que saibam. Não é assim com todos de forma homogênea, mas na desigualdade da distribuição de cada uma das culturas à qual tanto se referiu Eric Wolf. Assim, homens e mulheres, diferentemente, e por perto. Maior intimidade às mulheres. E assim me sinto vivo.

Mas o que faz com que eu não legisle em favor disso? Não tem nada a ver com apoio a uma causa, uma bandeira, um desejo de maioria como a que se manifesta por todos os cantos. O que está em questão é outra coisa. Por quê eu não legislo em meu favor e abro meu peito com uma pintura em favor ao casamento heterossexual e contrário ao homossexual – sem jamais defender que homossexualismo seria crime?

Não que eu goste de Jean Willys, mas há coisas em que há de se ter razão. O casamento como marca reguladora do sexo consentido é coisa séria, e diz respeito a outra coisa que não a bimbada dada no dark room de uma rave. Diante da igreja católica apostólica romana, ao menos na única cerimônia que gostei, o casal casa firmando acordo com a comunidade, dispondo o casal às regras do entorno, que são de ordem moral e, por isso de censura a uma variação respeitável de condutas; sexuais inclusive. E isto, em tese, inviabiliza o casamento civil no qual constam dizeres muito mais sutis do que a união fatal – ainda que a inspiração carregue tanto a cerimônia morna quanto o envolvimento do casal. Mas o movimento tem dois lados. O casamento civil é pautado pelo desejo manifesto de casar ao mesmo tempo em que não assume compromisso com o desejo extra-conjugal, ou qualquer outra regulagem da vida exterior ao desejo de residir e dividir os bens de cada um. Não há dote. Há o que há e só, ainda que nada. E isto é importante, pois não há legislação sobre a atividade sexual de qualquer – salvo quando da violação do corpo alheio. Assim, homossexualismo não é, e não pode ser proibido, exatamente como qualquer aventura nas ancas da vizinha.

Mas como a disputa parlamentar deste ano quer demonstrar, e aí Jean Willys é um papel de tornassol tagarela, a união civil homossexual também não é legal no que diz respeito aos direitos econômicos, aqueles mesmos que não impedem que um homossexual seja contribuinte. Ora, se o Estado na forma da lei não discrimina a vida sexual de alguém enquanto contribuinte – e esta é uma das formas em que se pode identificar que o homossexualismo não é encarado como crime -, o mesmo Estado ao estabelecer critérios assim diferenciais de dedução de impostos não reconhece o suporte e arrimo financeiro em caso de união homossexual. E aí a coisa se mostra como a única face perene da noção de cidadão de segunda classe, mascaradas pela parafernália tosca da retórica de Jair Bolsonaro que não tem coragem de dizer palavra pela ilegalidade do homossexualismo, coisa que ele não quer.

O impedimento do pleno reconhecimento dos direitos econômicos de todos os cidadãos no Brasil de 2011 tem sua face mais expressiva – e exatamente por isso, é uma careta – na lógica da reserva que impede que sequer seja formulado um projeto de lei que tornasse ilegal o exercício da orientação homossexual. São contabilizados os possíveis contribuintes e a parcela da População Economicamente Ativa, oferecendo o resultado de um país inviável em todos o sentidos no caso de um projeto desses vir à luz. Nisto, então, é melhor não mexer. E mais. Fazê-lo seria invalidar os princípios do casamento civil e, por conseguinte, levar de volta às mãos da igreja a legislação da vida sexual. E a pergunta que não quer calar, ao menos aqui... na verdade ela está quietinha, mas eu quero escrevê-la, é: qual igreja vai controlar a ordem matrimonial? Mas isto também não importa. O que importa é que o regime de casamento, os termos de adesão de contrato, legisla sobre o direito econômico que, por sua vez não pode legislar sobre a vida sexual do cidadão, salvo quando crime e, todavia, o faz ao restringir seu pleno acesso a um grupo significativo de cidadãos. Aponta para a população que é, até então, a da cidadania de reserva – nem plenamente legal, nem plenamente ilegal. E isso é o que não pode ser.

Da minha parte, voto pela legalidade plena de forma que se diminuam as fileiras da polícia secreta do mau-humor.




(mais sobre isso, vide o Aforismo de Merda, na postagem abaixo)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Da série "Aforismos de Merda"

Há muitas idéias, várias das quais não sabemos para quê. Ainda assim, é melhor tê-las, ao menos enquanto um grande monte de mato e ervas receber o nome de reserva.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Fantasmas assim...

http://www.boston.com/bigpicture/2010/08/russia_in_color_a_century_ago.html?ref=nf

Vi estas fotografias e escrevi, logo em seguida, para meu amigo AMPereira, professor da UFBA e biógrafo inédito de um turco-argentino por aí:

"Juro que ver essas fotos foi uma das experiências mais difíceis de "suspention of disbelief" que já tive. Não havia tantas cores, salvo quando mediadas por um pincel. Isto, caro AM, é algo que não pode ser. Assim, talvez sejam as fotos de fantasma mais genuínas que já vi na vida."

Só gostaria de compartilhar. Até porque, é lindo. Tarkovski certamente aprendeu por aí, assim, desse jeito. Atentem para o moleque sentado no gramado, sozinho, e o cachorro dormindo, que AM jura ser sua encarnação passada - até então o dado mais verossívil que disponho sobre estas fotografias.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Critério da Maioria

Há séculos que isto é um problema, em especial quando o conceito de massa saiu das cozinhas para atingir considerações sobre a vida política. Massa, a.k.a. pretume de gente, indistinção da vontade, ação anônima, etc. Há quem tenha entendido que a irresponsabilidade da ação civil, em sua coloração política tenha seu problema aí. Há quem chame de anomia cada ação em que esta força indistinta fala "não", ou pior, “sim”, por aclamação. A questão é sempre: quem?


O problema é revestido por um outro verniz, muito diferente de qualquer indisposição com a ação civil que, por si só não assume esta forma. A ação civil numa sociedade em que é possível a irrupção das massas não tem correlação necessária entre si, digo, entre ação e ação de massa. A massa opera quando se manifesta a ordem catastrófica do critério da maioria, quando a mera contagem de cabeças define, ou faz aceitar as mais estapafúrdias resoluções – ou recusá-las. A maioria quer, portanto é assim que será feito. E é difícil recusar esta marca sem que se pense em tirania – e mais difícil ainda entender que a manifestação da maioria pela maioria é, à sua forma, tirania por si só. E a maioria se manifesta de diferentes formas, a maior parte – olha a maioria - delas confundindo o que tem o apelido de “a voz do povo” com cacofonia histérica de bandeirola. Sem haver quem diz, não há o que ser dito, na era do relativismo irresponsável.



Peguemos um caso de, digamos, benfeitoria majoritária. Um projeto de investimento que define diretrizes de consumo energético numa lógica de consumo irresponsável. Irresponsável porque investimentos são contabilizados como gastos – mas que não se conte o investimento do projeto como gasto; este sim, é investimento; na era das massas, o investimento que é investimento é chamado de “investimento estratégico” -, futuro é pensado como crescimento (olha a massa!) e população é entendida na lógica da maioria – razão idem. Daí aparece a noção de um investimento em prol da maioria, que para tal exige o sacrifício de uma minoria. E aqui eu peço, por favor, que não entendam minoria segundo o jargão universitário. Estou falando de partes maiores e menores de uma contagem de cabeças numa paisagem povoada por pessoas. Próximo passo: exige-se o sacrifício, cujo número é de 40 mil pessoas, em nome do bem das demais contadas em milhões. Daqui, entende-se um sistema sacrificial delicado, cuja lógica é a de trocar corpos por pepinos e, daí, oferecer à maioria sua própria substância: a maioria. Que, diga-se de passagem, não é ninguém. Explico-me.



Há na obra de Claude Lévi-Strauss (o da antropologia, e não o da calça) um esquema semiológico de redução do ente sacrificado disposto em ordem cósmica em que o mesmo apareça como substituto. Isso mesmo. Como substituto prototípico e só. Assim, pode-se colocar um pepino no lugar do destinado a morrer num ritual, desde que se ressalte a economia semiológica que defina a relação metafórica e faça a conexão precisa que demonstre em lugar de quem que o pepino está sendo sacrificado. Sei que parece absurdo, mas é pedagógico, tanto em O Pensamento Selvagem quanto, espero, aqui. O que entra em questão quando a ordem da maioria é posta é que é preciso desenhar com clareza a situação que relaciona a minoria a ser sacrificada, feito um pepino, em nome dos demais que, por causa de sua situação inconteste de maioria, deve permanecer com seu futuro inatingido – entenda-se futuro como crescimento. Da massa.

No caso de sucesso começa-se a entender quem é a maioria, e qual é seu corpo, nunca pronunciado. Ele é um corpo diretivo que tem suas prioridades definidas segundo esta mesma lógica sacrificial que permite que se opere a morte em massa, desde que em nome de algo maior. Maior. E porque deste jeito? Não sei. Mas gosto da história contada por um alemão chamado Simmel, de que o sacrifício é um adiamento da satisfação do desejo com vistas na consumação futura. Este mesmo alemão convertido em protestante narra uma historiazinha em que há etapas de concretização do sacrifício como formação da atividade simbólica que constitui sentido, digo, atividade simbólica. E aos poucos, a massa começa a aparecer de forma irreversível. Assim, se eu cometer penitência, a mesma passa a ter valor; mas no caso em que há pessoas demais e que eu existo somente como mais um, o sacrifício é essencialmente subjetivo, pessoal e intransferível, aniquilando o efeito do exemplo de comportamento para a ordem coletiva. Então, o que é objetivo, isto é, disposto à ordem comum é coisa que ultrapassa a ação pessoal e se transfere para sacrifícios envolventes, que conduzem aos adiamentos perigosos grupos de pessoas cada vez maiores. Se quatro pessoas afetam mil, 40 mil afetam milhões. Foi assim que este alemão cristão-novo aplaudiu o começo da Primeira Guerra. A sociedade de massas requer sacrifício de massas para gerar distinções históricas que permitam a narrrativa de um antes e de um depois sacrificial, como seria o caso judeu, ou mesmo da juventude alemã. Mas na lógica da maioria, quem é sacrificado é o pepino – isto é, outros milhares em nome dos existentes milhões. E daí percebemos que a maioria é sempre o futuro em nome do qual estamos para morrer, pois a maioria não tem corpo. Ela somente espera a morte do pepino.

Tá bom, eu sei. Nada disso faz sentido. É uma história absurda. Mas é nela é que se enquadra a lógica da ereção da usina de Belo Monte, essa coisa absurda desenhada para as bandas do Rio Xingu. Índio é pepino.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Clichet que vale o que cobra

Antecede uma invasão. Um galpão onde estão guardados mil e uma faces de uma história de um grupo de viajantes, desses que não viajam por países, mas pelo tempo em que foram amigos. Já sobraram por aí mil e uma lembranças narradas efusivamente, cujo ardor das palavras reconstituem os sons e as formas da graça que fazem rir a qualquer espectador numa verdadeira história de espertalhões que antagonizam com mafiosos de outra safra, malvados, os da rua de cima. Muito já se passou e a trama faz força para seguir ao seu clímax. Por isso, dispostos a dissolver o suco que jorra da amizade, os antagonistas da rua de cima procuram o elo mais fraco da corrente, aquele disposto a trair seus camaradas. Ele é pobre, ao contrário dos amigos, e está enterrado em dívidas. Triste, miserável, quase sem-teto. Ele faz a guarda das mil e uma faces da história futura, como se por um erro de juízo dos amigos que sempre o consideraram forte e fiel. Sofre por causa de um fraco por bebidas de alto valor e certa raridade; risco no jogo; toda a sorte de divertimento ilustrado, à moda dandi, entretenimento de cultivo. Os mafiosos o compram aí, fazendo com que deixem que passem sem luta ou alarde, conseguindo acesso ao galpão. Eles entram.

“Entraram, moçada.”

Por fim ele aparece ao lado dos amigos vitoriosos, sorvendo sua cerveja de 300 pratas a garrafa, diante dos olhos incrédulos dos mafiosos.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Folha nossa

Tenho andado meio à moda serviço público por aqui. E estou criando laços de amizade

que abraçam a força algumas sugestões de Denise Bottman, tropeça na cabeça de Bonifácio de Andrada e toma, ou tomaria uma cerveja com os irmãos Bocchini.


Houve um tempo, e não exatamente long time ago, que um ambiente digital se dispôs à paródia. Lino (redator-chefe da revista Trip) e seu irmão, Mário (Mário?) montaram um site batizado com o nome Falha de São Paulo. Piada feita, a Folha de São Paulo moveu uma ação contra a Falha.

Mover uma ação contra a Falha, em geral, teria como pressuposto uma forma qualquer de disciplina do corpo visando a correção do espírito, ou mesmo algum tipo de dispositivo pedagógico que reproduz ou inventa uma forma de ordem. Lamentavelmente não é disso que se trata. Como o site se dispunha a fazer paródia, buliu de perto com a logomarca da Folha, que fez passar a piada adiante, tornando-se ela a própria Falha. Queixou-se na justiça de violação dos direitos sobre a marca. Os irmãos Bocchini fizeram sua defesa, com a qual estou fechado. Mas gostaria de ir além, pois há algo que me incomodou.

No processo, disponível no site http://desculpeanossafalha.com.br/ , a Falha, digo, a Folha reclama de danos morais e, não suficiente, recorre à seguinte locução: uso indevido do conteúdo do jornal. Em primeiro lugar, gostaria de saber quais danos morais, e a quem a paródia produziu e em que medida a Folha de São Paulo, ainda que sem parodiar - o que não é verdade; parodia - não faz o mesmo, exatamente porque o fator político da liberdade de expressão não é outro senão o de causar danos morais importantes. Afinal, publicar charges de políticos arranham sua imagem pública, assim como colunistas como Eliane Cantenhêdee Clóvis Rossi não economizam no verbo quando alguém lhe é desafeto ou alvo. E não deveriam, ainda que ache a leitura do que ambos escrevem um saco. A liberdade de expressão é importante porque lesa. E o papel da paródia numa democracia moderna passeia por aí. Tavinho sabe disso muito bem.


Mas o incômodo maior participa da noção de mau uso do conteúdo, pois aí teríamos um universo de considerações a fazer. Imagine-se produzindo uma pesquisa documental sobre as práticas de jornalismo no Brasil contemporâneo. Você escreve uma tese sobre comunicação, capital político e jornalismo e, a partir disto, mostra como a Folha de São Paulo alia ao lay out colorido a uma forma de oportunismo semiótico. Além disso, descobre como o oportunismo do veículo colaborou para se constituir uma relação de aparelhamento do espaço público e a demolição de projetos coletivos por via de ação sistemática contra iniciativas civis de pequeno e médio porte, apoiando a forma de centralização executiva que é marca do país, seu próprio desenho político-institucional. Você publica a tese na qual encontraríamos, além de outras coisas, a fotocópia de algumas páginas do jornal, com manchetes, etc. A Folha considera ser uma Falha do pesquisador chegar a tais conclusões e reclama ser este uso indevido do conteúdo, e não obstante traz em suas páginas a exata logomarca do diário.


Afinal de contas, o que é "uso indevido do conteúdo" de um jornal? E o que fazer, a quem devo processar pelo "uso indevido do conteúdo" estatístico, conceitual e jurídico que a Folha de São Paulo, e o jornalismo em geral pratica diariamente? Ainda faço isso, quero dizer, pego uma matéria "x" que mostra como um evento é determinado por duas variáveis - método utilizado à exaustão pelo jornalismo em geral -, o que estatisticamente é mais que impossível. É uma Falha. Parece-me mais que o erro dos Bocchini foi simplesmente o de terem deixado sua paródia por demais evidente.



Tavinho tem calos nos pés.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Autorização

No ano passado, o deputado do PSDB de Minas Gerais, que responde pelo nome de Bonifácio de Andrada, encaminhou o projeto de lei 7913/10, que carrega consigo a brilhante idéia de que as livrarias não podem se recusar a vender nenhum livro de qualquer autor. E caso venham a fazê-lo, devem se reportar à Câmara Brasileira do Livro (CBL), relatório este endereçados ao editor e ao autor da obra em questão. A reportagem que faz emergir esta notícia é do Estadão de hoje, 13 de janeiro de 2011. O projeto de lei é de 17 de novembro de 2010. Bonifácio de Andrada.




A redação do projeto de lei, já disponível no site da Câmara dos Deputados (http://www.camara.gov.br/sileg/integras/818871.pdf) sugere que 1) a mesma, como adendo à lei 10.753 opere em favor da livre circulação da produção intelectual nacional. Disso segue a afirmação de que 2), no caso de uma se livraria recusar em oferecer um determinado livro, deve reportar-se à CBL como exposto acima. Somado a isto, segue que 3) toda livraria será protegida pelo Poder Público, o que permitiria que o mesmo cometa este abuso de interferência muito semelhante à forma de distribuição de impressos do século XIX.




A idéia torpe de Andrada - ou de seu ghost writer, vá lá - é que as livrarias não são meros negócios, pois correspondem a uma atividade indispensável para a vida cultural nacional. Comentar esta verdadeira freada de bicicleta que é este projeto de lei permite que algumas coisas possam vir à baila. A primeira delas é a de uma legislação que não compreende o mercado livreiro em nenhum nível, principalmente no que diz respeito de ser, sim, um mercado. Paga-se impostos, e muitos, nesta atividade. Legislar uma atividade econômica alienando-a de sua própria atividade é patologia bacharel. Mas o mais bizarro é que além de serem contribuintes por comercializarem uma mercadoria depreciada no país, o ilustre deputado almeja que os livreiros do país se resignem a acumular às tarefas diárias o serviço de bibliotecário entendido como funcionário público, redigindo relatórios nos quais constem razões de recusa de uma mercadoria.


A produção agrícola é parte fundamental, para não dizer fundante de qualquer cultura. É daí que vem a palavra. Assim, se um feirante se recusar a vender a batata de um fornecedor porque a espécie vegetal que ele oferece não tem saída, ou porque é cara, ou seja o que for, o feirante precisaria escrever ao Ministério da Agricultura, ou órgão que o valha.



A disposição de obras produzidas no país é papel tanto de livrarias como de bibliotecas - cabendo a ressalva de que o tipo de política pública para o qual mira o deputado não é compatível com nenhuma das duas. Mas fundamentalmente, bibliotecas públicas que, em geral, cumprem esse papel mal e porcamente - como a maior parte das livrarias, por sinal. Afinal, sem a recusa de exemplares, colocar livros em qual espaço? Como constituir um acervo? Mesmo a Fundação Biblioteca Nacional tem um espaço tímido para as funções que promove - além do fato de eu não conhecer nenhuma biblioteca pública que não seja setorial, que não promova descarte de exemplares por economia de espaço; e ainda assim, todas muito maiores que as livrarias que conheço.



O projeto de lei ignora a difusão digital do livro - que oferece riscos ao comércio livreiro, como a queda de liquidez do mesmo; ignora a disparidade entre responsabilidades fiscais e exercício do comércio nas pequenas livrarias; a complexidade da distribuição de livros das editoras pequenas e das editoras universitárias, nunca contempladas com uma medida administrativa razoável que impactasse no preço do livro impresso - ainda que se entenda haver outras prioridades na gestão de infra-estrutura nacional.
A bem da verdade, o presente projeto de lei simplesmente ignora.



Seria muito mais interessante que os livreiros conhecessem e cultivassem interesse pelo material que vendem; que soubessem conversar; que soubessem receber e indicar. Que conhecessem seu ofício. Desejo o mesmo aos deputados, tremendamente deslocados, crianças soltas no mundo, bebês em tiroteio.



Segue daqui um recado amigo, ou no mínimo irônico:



Caro Bonifácio de Andrada;



Para desfilar suas frustrações como autor recusado, e de forma tal que faça da frustração uma atividade pública, escreva um blog, e não um projeto de lei. Just like me.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Durante a seca ou na iminência do inverno



Acho que foi lendo Bruce Chatwin, o migrante clandestino da seara alheia, escritor de O Vice-Rei de Uidá, Utz e Na Patagônia... foi lendo Chatwin, quando figura do escritor de O rastro dos cantos. Todos estes romances tem outros títulos, é bem verdade, e sua tradução embora aqui o seja suficientemente. Na verdade, Utz é como tal, ainda que o sentido escorregue pela língua logo mais, quando digo algo sobre Utz. Afinal, a tradução aparece somente quando acontece. E agora traduzo minha viagem, mais uma, e minhas viagens, num princípio acumulativo que me permite afirmar, ao contrário da simplicidade elegante dos informantes de Chatwin, de que não basta o nomadismo sem o comércio das coisas. É nele, como modo de vida, que o peso escoa.


O rastro dos cantos é um elogio do nomadismo que nenhum pensador contemporâneo e trôpego formularia, pois apresenta aquilo que o próprio Chatwin desenvolveu numa medida menor, porque biográfica: recusar um endereço. Há muitos nomadismos em voga que formulam princípios de uma certa beleza sem custos, ou que todos os custos estariam atrelados a uma forma qualquer de desbunde anarquista, anti-estatizante. Mas não ficar tem um custo próprio, me parece, e demanda certa ciência; digo, certa cultura.


Estou de mudança. Levo livros mais do que os móveis, ainda que mobilidade seja igualmente uma marca do papel encadernado. Mas mais que livros, os mesmos são a marca de minha estadia, de meus tempos diversos e do espaço que ocupam, cujo efeito sanfona é tudo menos regular. Neste jogo, no pormenor destacado, os livros operam reminiscências fortes, o que fiz da vida, com o tempo. Traduzindo, o que fiz com meu dinheiro. Como conquistei e como o fiz circular logo mais, me fazendo desconfiar de que sou, homeopaticamente meu próprio financiador, círculo a ser fechado quando – e se – eu publicar meu primeiro livro. Sem marcas de qualquer exatidão ou movimento certeiro, a mudança tão elogiada pela sociologia local, que se estende por toda a América Latina – isto é, até Paris – é minha forma de permanência. Empacotar, desempacotar, cuja freqüência é sempre proporcional ao tamanho do pacote. Viagens solitárias, para fins de curto prazo, pouca bagagem. Longas viagens, minha vida inteira. E no entanto, sedentário.


O nômade é o que vende, é o que se desfaz e, para fins de contato, não se esquece. Sabe que vendeu, sabe que passou, e esta medida mnemotécnica é uma artimanha dos caminhos. Não é meu caso. Lembrar me ensina muito pouco, porque a coisa está na busca de um bom lugar, e não do melhor caminho para seguir. Não reconheço nenhum nomadismo por aqui, não tenho conhecidos nômades. Minha casa vai nas costas. O cheiro do endereço segue comigo.

Tudo isto escrito, exatamente desta forma, porque assisti a Le Concert e, supostamente o motor de ambas as histórias, é o mesmo: o peso que se carrega com a mudança.