Paramos,
então. Não por um minuto de silêncio em respeito à memória de ninguém. Não
porque estamos correndo de uma viatura policial que apareceu enquanto fazíamos
uma zoada pelo bairro. Não porque ouvimos alguém gritar conosco enquanto,
vestido de uniforme, apontava uma pistola em nossa direção. Estamos de costas,
não sabemos do que se trata, ainda não nos viramos e a cena, para que tenha
poder, está carregada de suspense. Ainda não sabemos do que se trata. Ao não
sabermos do que se trata, no entanto, temos desenvolvido o ato de reflexo de
parar. E paramos. Em nome da lei. A paralisia movida pela autoridade de uma voz
que se levanta na paisagem informa uma série de coisas que nos orienta. Nossa
orientação básica, a de pararmos em nome da lei, sugere num sussurro
verdadeiramente inaudível que estamos sujeitos àquilo em nome de quê age a voz
que emite o comando de pararmos. Esta voz que grita é, por sua vez, um
representante da lei que não vimos ainda, mas que se proclama como tal. Afinal,
se a voz grita em nome da lei, é como seu representante que age. Não sabemos se
ela, a voz, é uma representante legítimo, se a reconheceremos, uma vez
identificada, como representante da lei. Afinal, é só uma voz - tudo aquilo que
a lei não é, mas sem a qual a lei não pode ser. A única coisa que sabemos é que
neste momento, em que uma voz emite o comando para que paremos de fazer o que
estamos fazendo em nome da lei, corremos um risco. No caso, de desobedecermos a
lei que, todavia, não sabemos qual é. O comando não diz qual lei representa,
então induzimos que é A Lei, toda a lei, que está sendo representada por aquele
que nos fala. Não sabemos quem é e tampouco refletimos sobre como isso seria
possível, como é que alguém poderia representar todas as leis como se fosse
somente uma, A Lei. E no entanto, numa relação que transformou o risco em ato
reflexo, paramos. Não queremos correr o risco de que seja, mesmo, A Lei. Porque
se for, entraremos em confronto com uma autoridade, isto é, alguém que age como
representante da lei, alguém que age em nome da lei. E assim, paramos. Ao
pararmos nem nos damos conta de que tomamos uma decisão, de que interrompemos
um movimento, que cortamos uma frase que dizíamos, que paramos coma zoada; simplesmente paramos. E ao pararmos,
agimos. Em nome da lei. E isso nos faz, imediatamente, também representantes da
mesma lei em nome da qual alguém vociferava um segundo antes. E, no entanto,
agir em nome da lei não diminui o risco da desobediência.