terça-feira, 11 de setembro de 2012

Lições claras sobre política e ideologia

Tenho amigos e conhecidos em dois lados de uma contenda que se dedicam a se proteger, um do outro, porque sabem que o outro lado conspira. Dedicaram toda a sua vida em desvelar de uma vez por todas a conspiração que é tramada do outro lado e vivem em cada um dos lados como a melhor vista do rio Reno praticando por fim, a contra-conspiração.

Enquanto isso, em Gothan City...




segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Promener pour la méthode: hoje li uma revista e pensei no Ricardo Lísias


Foi então que criei coragem. Há tempos que nem quero mais, e que prefiro evitar mesmo quando é algum conhecido que escreve uma passagem, um artigo, desenha alguma coisa. Não quero sequer comentar. Deixei isso de lado há algum tempo, não sei quando, o que me deixou sem assunto epara praticar o maula de conversação em uma vernissage ou lançamento quaisquer. Nisso, tudo segue indiferente com a exceção de que não sou mais vendedor de livros, o que não me obriga a mais nada. Mas, por alguma razão, me vejo obrigado. Fila de supermercado, uma quantidade enorme de revistas e periódicos, jornais e hebdomadários compondo um cenário gigantesco de opções que iam da fofoca diária a última edição da Esprit sobre Simone Weil, a mesma tuberculosa que, judia convertida ao cristianismo, queria participar do esquadrão de paraquedistas no intuito de participar da reconquista de Paris na Segunda Guerra Mundial.

Comprei. Transfuge. Sobre a rentrée litteraire, isto é, quando todo o mundo volta das férias. Percebam que utilizei o artigo antes de "mundo", pois é o mundo que partiu e deixou Paris sem mundo, entre parênteses, reduzida durante todo o verão à sua mera edificação. Fácil movimentar, dizer bonjour, o que já perdeu o gosto para as moças então descabeladas atendendo nas boulangeries ouvindo reprimendas inúteis de patrões desiludidos, inexistentes quando era verão. Rentrée, volta, retorno, entrada. A revista de literatura de banca de jornal, gênero que havia abandonado como leitor me coçou os dedos e me arranhou 6,90 euros dos bolsos. Une retrée litteraire politique. Com nova fórmula, e então sigo nas informações de capa, pois oferece 16 páginas a mais de cultura. E logo vi que o mundo é grande, como tanto insiste a fórmula de Perec segundo Vila Matas. Não reconheço nenhum nome, salvo um. Sugestivamente, o nome de Vila Matas. Logo imagino o trabalho infernal que seria voltar a vender livros. Aqui. Tudo a fazer de novo, como chegar ao Rio, como voltar aos 24. A idéia seduz mais do que poderia imaginar, chegando a me iludir com os tempos de um romance por dia.

Ademais, mais do mesmo. Demais. Já em casa, leio os mesmos artigos grandiloquentes sintetizando toda a contemporaneidade a cada uma das páginas num desfile de prosa poética incessante e uma frequente demonstração de erudição jornalística que não me ajudou a entender muito além dos estereótipos que eu já carregava sobre a vida das letras na terra que há muito tempo imprimiu o Dicionário das idéias prontas – e esta citação repete em ato a marca de toda a piada que se faz só, cuja cereja do bolo é a seção de crítica cultural chamada de mauvaise humeur. Ri sozinho.

A capa traz as fotos de Julie Otsuka e Mathias Enard. Nunca ouvi falar. Até agora consegui ler somente a entrevista com o primeiro que, por alguma razão me deu vontade de indicar a Ricardo Lísias. Espero que algum dia, não somente Lísias leia esta passagem, como aguardo o dia, num ano distante em que me ele escreverá algo sobre Mathias Enard e ele mesmo. Que ficaram amigos, que esta mensagem propiciou a tradução de Enard para o português, que viajaram juntos ao Marrocos e que iniciaram uma publicação literária em formato fanzine com distribuição internacional. Mas ainda não imagino porque fiz a conexão, se há no éter alguma forma de afinidade eletiva. A entrevista de Julie Otsaka me aguarda, ela e os campos de concetração japoneses em pleno Estados Unidos da América durante a Segunda Guerra Mundial, terreno fértil para o romance que acaba de publicar. É o que diz a introdução da matéria que abandonei para folhear o resto da revista que, para além da lista enorme de livros que comentam no mesmo tom definitivo do progresso das ciências e das artes, permite a surpresa do dia. Les disqulifiés. A seção tem por manchete o termo moeda falsa e diz aquilo que, ao traduzir agora, encerra este artigo:


Fazer a crítica literária é fazer hierarquia. Assim, quando não nos agrada, dizemos. Está aí, a lista dos romances a evitar. Alguns assinados por escritores renomados, outros não. Desconfie, leitor, pois a contrafação segue presente nesta rentrée litteraire  de 2012.

Acabou o verão. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Longo demais, não é haiku.


Não, já quase não, digo, não creio haver,
não muito mais. Houve de termos
sombras soltas por aí, mas lembro saber
que o sol se põe grosseiro ao sair aos
cotovelos. As folhas que se escorrem
aos montes não hão de fazer a falta que
o sol fará. O sol não há de me fazer
falta quando tudo for sombra e a cor
ausente. Será imperativo, sei obedecer,
e enrugar as peles dos dedos, mofar as
solas dos pés, deixar rasgar as dobras,
e seguir indiferente para enormidade
das galerias lotadas aonde circula a
polvorosa inchada. Os odores se calam
e o esgoto convida para entrar apagando
os rastros, criando crocodilos que
devoram a carne dos mais afoitos e
roubam o céu da boca de quem, por
descuido paterno, nunca aprendeu
a gritar. Sim, se chove, mas não é de
temperar a vida, mas de amolecer
o humor que se deixa cair no salto
suave, lento e sincronizado da
última folha. Perdido até que, e um novo
encontro nos sabores dos outros. As folhas
varridas, os carros de limpeza, os sacos
revolvendo as coisas de poeira e nojo,
embaralham o que, de fato nunca foi
de alguém, mas o grande mercado
das cores que são trocadas verão a verão.
E então, não. 

domingo, 26 de agosto de 2012

Promener pour la méthode: mode d'emploi et le cas de l'aventure


(este não é um texto apologético)

Jovem. O mundo é grande. E houve o dia em que falou sobre a vida, a mesma que, à forma dos metrôs distribuídos pela cidade e que serviram de mote para o diagnóstico de que a população havia perdido seu lugar para o trânsito avassalador de coisas grandes feito trens, todos, com seu mode d’emploi. Pode não ser à toa, pode ser peculiar que a forma de entrar na vida seja o paraquedas que tem um sistema de anti-falhas que pode, todavia, falhar. Mas é significativo que Georges Perec tenha escolhido o anteparo de uma coisa para dizer que para entrar na vida é preciso saltar. Quando abrem-se as portas para o salto, é preciso fazer a escolha com relação à qual não há nenhuma razão para definir se é melhor ir ou não, e que a única coisa que discrimina o salto à paraquedas e o suicídio é a confiança numa coisa. E é preciso se lançar.
            No final das contas, Perec se assemelha a Claude Lévi-Strauss que, em uma entrevista a Bernard Pivot discrimina dois momentos da vida de antropólogo. Primeiro, como a paixão por aventuras participa, ainda que de forma subsidiária, de sua decisão de abandonar o ensino e o estudo da filosofia. Obviamente que tudo o que veio depois, em especial sua relação com a mitologia dos povos americanos terem se convertido em uma filosofia ameríndia, desmente um tanto a afirmação do abandono. Logo em seguida vemos que o que Lévi-Strauss tinha em mente com aventura se resumia, no mais, às atividades de camping postos num jogo delicado com sua imaginação ativada por um ou outro diário de exploração que, de uma forma geral já viviam no sistema da administração e do relato posto sob alguma forma de controle que os aproximaria da prosa etnográfica que o próprio Claude Lévi-Strauss viria a estabelecer, à forma dos exercícios de filologia. E então descobrimos que Lévi-Strauss, entre a aventura e a rotina, havia definido seus movimentos relativos a sentar e ler tudo o que fosse possível. A aventura da razão, diriam, e a qual, por maior que seja, me obrigo a colocar entre aspas. “L’aventure", cher professeur.
            Obviamente que entrar na vida é coisa diferente do suicídio, posto que no organograma das operações de trânsito no edifício enorme que parece ser o mundo, sua marca se encontra nas vias impróprias para a fuga. Suicídio é um método de entrada, e não de saída. Mas ao mesmo tempo, o paraquedas com relação ao qual Perec, em uma conversa com Jean Duvignaud, se diz diminuído. Não que o paraquedas o diminua em si, mas a situação que reclama a presença do paraquedas o diminui a saltar ou não. É no momento em que simplesmente il faut se lancer que precipita aquilo que se dá como intransferível. Il faut que je. É preciso que Eu, quando o impessoal desaparece e que, na decisão de saltar, tudo se resume na mera confiança posta em uma coisa posta às costas pesando grosseiros 15 quilos.
            Em Les choses, Perec mostra ser um tanto mais aventuroso quanto mais afeito ao tédio é. É neste romance em que ele mantém a regra de contar a vida de um casal típico dos anées 60 - cuja semelhança com o casal que logo sou me assusta um outro tanto. Reside no 14e Arrondissement, vive a vida sem salários, uma pequena fortuna experimental por vez reduzidas a jantares, passeios e viagens, o tipo de aventura com data e hora para acabar cuja descrição não se permite exceder o organograma da rotina. O cenário é exaustivo, descrito com a meticulosidade que um etnógrafo deveria ter, o mesmo etnógrafo cuja tarefa infinita Lévi-Strauss declara na mesma entrevista a Bernard Pivot, não ter qualquer vocação. Mostra-se que a aventura é outra coisa. Aos poucos, os objetos multiplicados ao indeterminado são restritos a conjuntos específicos, postos em séries, como as refeições feitas na capital ou no interior do país, os livros lidos, as lojas mais caras que fazem as vezes de museus de tudo aquilo que não se poderia possuir. Listas e mais listas de coisas que compõem a vida, de mais à mais, sutilmente decepcionante. Há mesmo que dizer, alienada. Mas o lance de dados que faz do salto um destempero controlado jogado às costas feito um paraquedas  que o próprio Perec comparou ao fascismo – il faut se lancer - faz do mesmo, aos poucos como todas as coisas colecionadas em uma biografia sem saltos quaisquer, alguma outra coisa. Trata-se, afinal de uma vida cujos sacrifícios está em adquirir coisas, esta a do casal. Coisas que lhe oferecem coisas e, por vezes, algo mais – e que isto pode crescer à forma francesa que aprendi, na animation. Obviamente que tudo depende de um parágrafo, ou menos.

            Ils continuaient leurs vie cahotante: elle correspondait à leur pente naturelle. Dans un monde plein d’imperfections, elle n’etait pas, ils s’en assuraient sans mal, las plus imparfaite. Ils vivaient au jour le jour; ils dépensaient en six heures ce qu’ils avaient mis trois jour à gagner; ils empruntaient souvent; ils mangeaient de frits infâmes, fumaient ensemble leur dernière cigarette, cherchaient parfois pendant deux heures un ticket de métro, portaient des chemises reformées, écoutaient des disques usés, voyageaient en stop, et restaient, encore assez fréquemment, cinq ou six semaines sans changer de draps. Ils n’étaient pas loin de penser que, somme toute, cette vie avait son charme.

            É quando, ao invés de Eu saltar de paraquedas,  salta-Se nos paraquedas, no prazer do sofá. E tudo isso me lembra um poema de Charles Beaudelaire - um dos dois que não me saem da cabeça. 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Nous, les européenes.

Tantas histórias,
e viragens
mais o que tenho contado, caso pensado,
sobre a França
está nos livros. Mesmo quando alguém me diz.
O que é engraçado, porque, pelo visto,
e pelo lido,
mal saí de casa.
Leitura cara, essa.

O resto é muito interessante.

domingo, 22 de julho de 2012

Promener pour la méthode: OULIPO



1-

            Não há roteiro. A história toda fora um arroubo dramático para reduzir o plano e o caminho a uma sequência de ações. Poderia colocar tudo na conta do bardo inglês ou dos bastardos do século de ouro espanhol. A vida é sonho e o sonho se sonha nos palcos. A vida é regida por marcas delicadas sobre as quais é necessário saber preencher com som e fúria. Com isso não digo que o movimento seja, ou precise se dar ao acaso. Leis não respeitam este panorama, e não desenham alguém como centro necessário de algo, e nisso reside a beleza e o perigo dos modelos, das constantes e das Constituições. Põem e depõem, ainda que sempre a um custo muito alto, ou mediante formas aberrantes de sacrifício em geral auto-consciente. E é neste momento que eu gostaria de exemplificar tudo com estudos e anotações sobre Poincaré, Ampère, Leibniz ou Newton. Mas eu não sei voar. 
            Há duas semanas que tudo o que sei fazer é caminhar. Saio pela porta pesada do 53, Rue du Moulin Vert e decido, não somente se à direita ou à esquerda. Decido aos poucos quais formas de tout à droit comporão o pequeno mapa da cidade que disponho, ou que sei reconhecer em tempo real. É pouca coisa, mas para deduzir um modelo formal não é necessário um conteúdo de experiência fartíssimo. É preciso entender poucas coisas, as que são indispensáveis. É como a vida, é como eu posso evocar algo como cultura; modos de usar, talvez. Assim, Paris permite que a distância entre dois pontos, mesmo que por uma diferença pequena de grau, seja muito perto ou muito longe, ao mesmo tempo, ainda que pegue de alguma forma uma reta. Tudo depende, como já disse, a forma de tout à droit que você desenha e escolhe - porque, e aí está a marca, só se pode ir à tout droit. Basta imaginar, por exemplo, dois pontos de onde se espraiam radiais; 10, 20 cortando em fatias um desenho circular fechado em seus 360 graus, compondo em sua extensão uma malha de linhas cujos cruzamentos que são interrompidos por construções estratégicas, como um presídio, uma escola militar, um cemitério ou um complexo hospitalar. As grandes linhas retas se separam em caminhos alternativos, ângulos de 10º para pontos que, no começo da divergência radial estavam a 30 metros de distância e, por causa da interrupção feita por um hospital do tamanho de Cochin estarão logo mais a 500, 700 metros de distância, se tão pouco.

2-

            Quero me comportar com mais cautela exatamente como deveria agir  um ávido comprador de livros. Estou em meio a uma mini-Meca de bibliófilos, se é que bibliófilos preferem uma Meca a um mezanino que desaparece no dia seguinte. Na verdade, cheguei à fonte de muitos delírios secretos e ressequidos de um tempo que insisto em abandonar e que, ainda assim volta com a língua de fora e ares de abanar a cauda. Meu caso fica um pouco mais grave devido à força que a publicação da arte de ser intelectual  francesa exerceu em minha vida que teve sua gênese na francofilia que meus pais nutriram no percurso de minha infância, e no final da deles. Recebi a mesma francofilia traduzida em revistas automobilística impressas em Paris e de uma mãe franco-falante orgulhosa do feito que traduzia em alta voz os manuais de instrução de duas ou três caixas de Lego que transformaram meu irmão num futuro engenheiro brilhante, o mesmo engenheiro frustrado pelas carreiras nas letras clássicas, magistério e na vida de polímata esportivo.

          Mais adiante, vim a me tornar antropólogo num país marcado profundamente por uma antropologia completamente debitária da herança cultural francesa ou, melhor, de uma certa aliança francesa. Lévi-Strauss, Paul Ricoeur, Albert Camus, Jean-Paul Sartre, Pierre Clastres (surpreendentemente, o primeiro sobre quem ouvi falar) fazem parte de um panteão de leituras graves que fiz ainda aos 18 anos, em grande parte impulsionadas pela companhia de Celso Azzan Jr. e Mark Julian Cass. Ambos professores de primeira hora, o segundo o que me ofereceu minha primeira leitura de The Rebel, ou L'homme revolté, livro que insisto em prometer retornar sem qualquer efeito prático. Mas foi com a leitura de O estrangeiro que recuperei o fôlego literário que eu havia abandonado quando ainda era moleque e leitor das investigações severíssimas conduzidas por Sherlock Holmes. Camus foi um forte calor nas têmporas, sua dilatação mesmo. Mas um só Camus não faz Panteão e claramente fugi do tema, ainda que não tivesse algum.
            A marca franco-amiga seguiu potente porque, pouco tempo depois vim a me tornar livreiro naquela que, até então era somente a loja que mais sonhava em conhecer, livraria que já se fazia presente em boa parte dos livros que eu tinha. O sebo que existia na cidade de São Carlos, o casarão demolido tão claramente quanto o desejo de estudar na França, tinha fornecimento da Livraria Berinjela. Por causa de uma teimosia forte que me degenera os rins, fui parar na mesmo Rio de Janeiro que preenchia minha estantes, que fornecia livros ao outrora grandioso Outros Contos. A carne do esqueleto de meus estudos viria a ficar obesa, como de fato se deu. Toda a gordura proveniente do acesso fácil ao tempero literário foi afetada pela predileção local pelo lúdico, pelo jogo, e pelas regras.
            Convém, obviamente definir o que eu chamo de "predileção local". Jogos de todas as formas, de todos os lugares. O jogo de cartas em Da mão para a boca, de Paul Auster; as contratações sempre adiadas para o Botafogo; as apostas feitas nas campanhas vice-gloriosas do Fluminense na Libertadores da América; o apogeu e glória de Roger Federer; OULIPO. É este o tipo de predileção local que culminou na publicação de uma revista de poesia, da qual nunca participei ou li, chamada Modo de Usar, alusão ao romance de Georges Perec sobre a vida pelo ponto de vista do método, pelas regras do jogo. É este mesmo Perec o protagonista da cena que, até onde entendo das coisas, marca de forma indelével Paris não tem fim de Enrique Vila-Matas.
            Narrador abismado. Caminha por um café movido à Georges Perec. Chega muito perto do mesmo, como que para atestar sua existência em carne e osso. Uma polegada de distância, se tanto. A reposta vem à forma de Liceu:

Jovem, o mundo é grande”.

            Afaste-se, narrador. 

domingo, 15 de julho de 2012

Promener pour la méthode: Afrique Phantôme


Do Pará à Paris o trajeto é, ainda que em linha reta uma encruzilhada constante. Obviamente que é uma forma trágica de desenhar algo muito simples de entender: Paris é uma cidade muito fácil. Com fácil é preciso que se entenda, é fácil desde que se seja minimamente iniciado em suas artes de fazer viver. A língua, os hábitos comensais e a distância entre partículas em trânsito definem um jogo muito preciso e por vezes enfadonho característicos de um universo que jorrou sobre o planeta a diversidade crônica da physique sociale. Não é preciso saber francês, bastando mostrar interesse na língua e esforço em pronuncia-la. Não é preciso saber daquilo que se come desse que se saiba manifestar admiração discreta. Não é preciso acolher os olhares alheios desde que se fassa soar os alarmes de merci, pardon, bon jour, bonne journée e sua versão soir.

É complicado perceber que em meio tudo o que mais poderia trazer alguma forma de sofrimento é me recolher à dimensão particular da experiência. Mais difícil ainda é aceitar que  reconhecer o papel de partícula não habilita a ninguém fornecer a forma do modelo nas bases do comportamento particular. No entanto é na disposição paralela destes dois mundos que a Paris que testemunho é uma espécie de mundo bizarro de si-mesma. A admiração subserviente por tudo o que veio a subjugar; o acolhimento atento por tudo aquilo que despreza; ainda ontem um sujeito peculiar chamado Laurent me disse, para resumir a ópera que a África hoje, é Paris. E Paris é África. Isso significa que temos 4 termos de relação que não se coincidem.

Era nosso terceiro dia na cidade. Minha esposa e eu fomos fazer o que comunidades fazem quando expatriadas. Reunimo-nos com convivas da terra natal, pessoas que já conhecemos e que toleramos, amamos ou, na pior das hipóteses, não odiamos. O ódio pelo irmão é acirrado quando se é estrangeiro, vale dizer. Fomos até Belleville guiados pela família nuclear de meu orientador até nos encontrarmos com uma segunda família no Parque de Belleville. Ruas estreitas alongadas na vertical num gráfico estatístico de altos e baixos abruptos, Belleville é uma parte alta de Paris. Vê-se tudo. É onde há cartões postais sucessivos num mero torcer de pescoço. De lá nos dirigimos a Belleviloise, casa de eventos em que há um por andar. O que não se cobra na entrada é assaltado num mero chopp.

Circulamos num lounge, aonde Laurent nos encontrou. E então, um restaurante a rez-de-chaussé. Vinho, dourado assado na brasa, arroz, molhos balsâmico, vinagrete e de espinafre acompanhados por um bourgogne. Tudo desenhado como uma tarde descolada e suave em um bairro de trabalhadores parisienses. Parisienses? Por isso que Paris é África. Paris é a África em geral, aquela que não existe a não ser que se invente uma série de dispositivos de distanciamento e, mais do que qualquer outra coisa, um jogo de lentes. Não é que não exista, mas para existir é preciso muita coisa, especialmente deslocamento de pessoas. Para a África seja Paris é preciso desalojar a África daquilo que ela nunca foi. E então, um show de artistas congoleses que desaloja da boca de Laurent um diagnóstico sobre a França dos trabalhadores, dos bairros operários, que não são franceses porque são árabes, africanos e até asiáticos, portanto Paris é a África.






Creio que talvez eu tenha me enganado. Talvez a partir do que me disse Laurent, Paris seja exatamente como a África. Fronteira desenhada feito um cotovelo, um nódulo, uma indigestão, e não como uma linha no mapa, justamente como faço no papel o desenho do mapa do estado do Pará, mas que não é, absolutamente Paris.