domingo, 29 de janeiro de 2012

Hjman

Há coisas das quais não é possível, mesmo com esforço tamanho, se desfazer. A vergonha, para mim, é o momento da repetição do equívoco, do qual quem se lembra, sempre, são meus intestinos e quaisquer que sejam os órgãos que controlam os frios na espinha. Da infância, nem tanto, a menos se tiver a arrogância cavalar de considerar primeira fase dos tropeços como encerrada. Nada seria mais tolo e, sugestivamente menos infantil.

Quando o portão da casa de meus pais ainda se pintava em verde, e havia uma barra diagonal para trancá-lo com alguma estabilidade contra o vento, vivi uma nesga com minha mãe. Daquelas que revoltam um garoto de sete anos. O assunto da querela se remetia, certamente a assunto dos mais graves ao redor do qual nunca mais circundei. Demasiado polêmico para o tempo, devo tê-lo jogado ao porão do trauma. Dali, do debate acalorado, segui para o meu quarto e arrumei uma trouxa na ponta da vara para simplesmente seguir meu caminho, para fora de casa. Desejava, antes de mais nada partir. Nunca consegui me impor ao íngreme portão verde, chapado e sem frestas, ainda que a barra diagonal estivesse lá. Nem um triângulo de apoio me permitiu sobrepujar aquele obstáculo boçal.

Sempre que minha mãe ou algum de meus irmãos mais velhos, fazem qualquer esforço para fazer pouco caso com alguma história de minha infância, esta é decerto das mais repetidas. De como ela reflete meu ímpeto, de como mostra como sou dado a coisas bobas, e de como arrumei minha bagagem na ponta de uma vara, tal qual o Pica-Pau, ou Woody Woodpecker, o fizera nos episódios em que errava pelo Mississipi. No meu caso, naquele momento, nunca me perdoei por não ter conseguido ultrapassar o portão. Tinha na cabeça que teria que voltar para casa mais cedo ou mais tarde, de que eu não daria conta, de que passaria fome – porque não consegui roubar chocolates, ou coisa que o valha. Não teria problema em fazer o que fosse necessário para dormir quentinho e confortável. Mesmo pedir desculpas fazia parte do repertório das ações futuras. Mas nada se comparou ao momento em que voltava sem jamais ter ido, impedido por um portão fechado. Hoje, gosto de lembrar, não somente ultrapasso o portão em dois ou três movimentos de pernas como eu tenho a chave do portão, e não há qualquer desculpa para não partir, ainda que eu tenha que voltar, ainda que eu queira voltar. Até porque, até onde consigo entender em tudo o que me aconteceu por aí, esta tem sido a minha melhor maneira de ficar.

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