sexta-feira, 13 de julho de 2012

Promener la méthode: premier bon jour


Só se ao dizer arquitetônica eu puder dizer urbanismo. E ao invés de comida, culinária. Porque está, antes de mais nada, no método. A raiz está no método. Como a relação de corte, em que o íntimo é evitado a cada sorriso, a cada bon jour, monsieur. Ça vas sem nada acontecer, sem nada estar acontecendo. Mas segue. Na arte de não precisar ser pessoa alguma senão aquela que consegue, pouco a pouco trafegar no circuito, ser um elemento do sistema, ser uma pessoa pode ser antes de mais nada uma marca, um nódulo, a presentificação da impessoalidade. Só assim é possível elogiar dizendo que, por fim, c’est pas mal

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Pelo ladrão, e saiu


Dois dedos, e parece ser uma dose. A sete palmos seria o fim. Em nove meses se trata de  um começo; conturbado, desabrido e equivocado. Em quatro tempos, resolvido. Noves fora, nada.



Ao fundo, na mesma sala há quem grite ser uma imposição, um sistema de regras, um modelo imposto, uma chave repressiva. Sigo com giz no rosto e nos cueiros dizendo algo sobre a arte combinatória, sobre a dificuldade de lembrar e digo que, assim como insistiu Johnathan Franzen, a memória é a forma do esquecimento e, por isso, é o que resta. O bigode roça nos lábios e narina, vívido e teimoso, corroendo a fala, como que por um filtro. Há insistência, ao fundo, de que é uma regra, a numeração imposta, o jogo de medidas. Pelo visto, não combinamos desde o começo das aulas. A coisa não anda, ele não vem, eu não prossigo. Cansado de magistério, azedume do tempo, nove anos. Nada.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Hiléia:Altamira; Yuto Sotozaki vai à Cotijuba I


Há um momento em que não há mais o que fazer, e pode-se lacrar o tempo com esta frase tanto por causa de seu término quanto pela exaustão das forças. Forte é o tempo em que um e outro coincidem. O dia começava a se encerrar em definitivo. Contava as horas passadas após um almoço já tardio enquanto as tiras de couro das sandálias sulcavam a pele dos calos do pé, vermelha e irritadiça, ao mesmo tempo em que o suor imposto pelo calor das ruas loteadas por mangueiras tratava minhas roupas com impiedade. Recebi, ainda assim no meio do caminho onde reencontrava o hostel, uma longa indicação daquilo que se espera de um turista, acrescendo à informação uma dose de otimismo indisfarçável – sugerindo que eu faria a pé o trajeto desde onde estava até o Mangal das Garças que, confesso, até hoje não sei como é. O que sei é que é possível encontrar uma rua cuja altura do asfalto há muito já ultrapassou as medidas da calçada. As margens da rua são valas, e a topografia pouco usual.

“É pra correr melhor a chuva” – poderiam ter dito. “É uma questão de respeito. O povo daqui não entende disso, porque já tá sufocado com os ares da cidade, mas aqui deixamos a rua correr a chuva. É melhor. Deixamos os valões em Terra Firme e Guamá, e aqui conseguimos salvar esta rua aqui. Queríamos que não jogassem lixo, é fato. Mas é melhor deixar a chuva correr em profundidade”.

O deserto em que havia me envolvido na caminhada, e que cumpria um regime solitário desde minha partida do hostel nunca me abandonou. A ausência serviu de companhia, a cidade começou a ser desenhada, e os pontos de encontro reatavam linhas outras dando luz e som às histórias de outrora, de quando dancei carimbó pela primeira vez na Casa das Onze Janelas. Festa de fim de congresso, recheada de conversas perdidas sobre a obra de Gilberto Freyre, o futuro da universidade, a cultura popular, a eleição da presidente da associação, o gosto ruim da cerveja, a comida cara, as roupas dos demais, descendo o nível de interesse até o ralo, por onde corre a água da chuva, as outras águas, e o tema das águas começa a afogar o verbo, a ponto de se eu não escrever o suficiente e exagerar na tinta, a frase borra, o texto escoa, e fim. Diluído, o texto corres sempre o risco homeopático de, apesar do efeito seguir na inexistência. E então, recomeça dissolvido num infinito d´água.

Infinito é como eu chamo o que não sei contar, ou o que não dá pra contar, ou que me afogaria pelo cansaço. Mas eu nunca havia visto as onze janelas à luz do dia, sozinho, sem a proteção dos vidros de um táxi. Se à noite a fronteira marcada pelo cenário suntuoso parecia intransponível, sob a luz do sol me pergunto quem é que invade esta fortaleza todos os dias e humilha sua imponência, que tem o tamanho de sua vulnerabilidade sensível, a mesma sensibilidade ao toque que senti só de olhar o tom ranzinza do chumbo que se comprimia num lado do céu, que desaguou. Meia hora sob marquise, o mais próximo e íntimo que me fiz do Museu de Artes, voltando para o hostel com a única finalidade de não ter mais o que fazer senão me render. Não havia mais o que fazer. Cansado no fim do dia.

Com a chuva, e a iminência da noite os percursos dentro do casarão se tornaram sensivelmente povoados. As filas de pessoas que vi na Av. Nazaré, que faziam um exame de seleção do SUS, ou coisa que o valha, também estavam por ali. Da Bahia ao rio Grande do Norte, pude cumprimentar com um só “boa noite” cada um de seus representantes quase sem saber que, sem distorção alguma são todos infalivelmente paraenses. E assim, e felizmente, e a televisão, a sala com sofás e o futebol e a conversa efêmera de todos os domingos, quando todos temos uma história em comum que, num corte seco se acaba num sem mais.

A cena se compôs muito rapidamente, com os candidatos ao redor da TV, esperando mais alguns confrades para uma refeição de rua. Todos queimados de sol, embolando os odores do abafado indisfarçável da cidade, da casa e da sala, do suor, suores antigos e os da pele, sob o signo da mesma água agressiva que oprime e nos faz resignar. Melhor não, melhor deixar correr, e corramos nós, os jogadores de futebol. Minados todos, e mais um se aproxima, o que me fez recorrer a um do you wanna sit? imediatamente. Seguido do assentimento, apertei as mãos de Yuto Sotozaki, que me disse estar no Brasil pela segunda vez, e que, apontou para o monitor de televisão, tinha jogado a Taça São Paulo de Futebol Júnior pelo Palmeiras, mas abandonou o futebol, no futebol teria que fazer só uma coisa na vida e queria fazer outras coisas, como estudar inglês. Veio a se transformar em professor que, foi como começamos uma jornada ao inferno local, precisava de um tradutor. Do inglês ao português – e uma cena para filmar. Yuto me apresentou um roteiro minúsculo que traduzi pouco depois, com o compromisso de levá-lo a uma praia extraordinária que veio a ser em Cotijuba. Por aqui o diabo não bate à porta, mas Yuto sim. Às 6:30 da manhã de uma segunda-feira.



Uma segunda-feira não me é há muitos anos. Os dias também se tornaram uma zona de repetição, um exercício entre o tédio e a paciência, um aquecimento das articulações que nunca passa do mesmo desenho. Acordar de manhã é um jogo enfadonho em que a sensação de repetição, ou pior, de um movimento sem atrito produz por fim, movimento algum, ou mesmo um movimento que não se converte em movimento. Inútil. O sabor espesso da saliva guardada entre os dentes cerrados e a língua semimorta reforça a tese, o sabor, e o tormento do ar parado ao redor. A tese, já anunciada da inutilidade marca o amargo da saliva dormida e o odor de coisas velhas traduzidas em repetição por via dos sonhos que nada mais fazem senão me situaram no absolutamente banal de uma fila de banco, por exemplo. Os dedos, os braços, os pescoço, cada uma das articulações começa o dia sem fé, recusando-se aos primeiros movimentos, servindo de uma ampulheta preguiçosa que trava a cada novo grão revelando que as dimensões não se comportam entre si, arrastando e suspendendo cada novo momento, até que finalmente abro os olhos pela primeira vez, pela segunda, pela terceira, devagar e sem saber o dia, como todo o resto, o que não sei. O futuro dura muito tempo, exatamente como deixou registrado um dos principais perturbados da história do marxismo, e esta sina tem muitos desdobramentos, todos eles movidos pela desesperança, ignorância e, com alguma felicidade, pela resignação ao tempo inflexível que insiste em não passar, ao menos não segundo a dose de obediência que se demanda de um cão. O tempo não é um cão.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Hiléia:Altamira, Gimpel, o bobo


Dentro dos meus poderes. Soa à clausura, ainda que eu estivesse em plena viagem, solto por aí, sendo que para onde eu apontasse fosse Belém eu estaria preso. Mas não é clausura. É o corpo. As ruas vazias do caminho de volta, desde o almoço com Alípio mostraram a quantidade desmedida de mangueiras, todas igualmente enormes que ornam a região central da cidade. Não por acaso, ao tentar contar uma história qualquer para um ou outro conhecido que já esteve nesta paisagem, uma história que exija reconhecer um endereço mais preciso, o chiste demanda saber se “é perto de uma mangueira”. Para todos os lados.

Tricotar entre ruas, em especial entre a avenida Nazaré e a rua José Malcher, com ambas simplesmente evacuadas surtiu o efeito de me mostrar raízes, tendo as travessas o efeito de me espalharem pela cidade possível, pondo algo de mim em circulação viva. Caso morto com estocadas descuidadas, escorreria em sangue pela corrente sangüínea logo na primeira chuva, coisa que não demoraria a acontecer; uma das duas, eu imaginei, ou ambas. O terreno da violência de Belém cultivado nos meus ouvidos desde muito antes, desde um certo atraso em vir, desde tudo o que li, e as cautelas que tanto preparam meus passeios, por fim não serviram de outra coisa senão para criar impulsos diferentes, futuros diferentes permeando as rotas e os encontros, raríssimos, que vieram a acontecer. Afinal, lá estava eu, lá estavam as ruas, lá estava o deserto de mangueiras e rotas ornamentadas por edifícios postos para pregar peças, assustar e esconderem-se de todos. Mais ninguém, e eu, com a mente vazia, e a casa do diabo. E lá estava, fantasiando minhas mortes possíveis; e começando a gostar da vida paraense e a morte que ela trazia engarrafada como um gênio maligno.



            Como cheguei até Belém de avião, e como tenho medo de voar ainda que tenha certa delícia por altitude, carreguei comigo minha vasta coleção de livros imperfeitos. Uma mochila deles que, não tardou, deixei numa casa delicadamente erguida no final do arco-íris. Nesta mochila arquivei meu estoque de leituras que teriam efeito profilático em momentos de crise – que foram vários. Assim, meus livros de René Girard, Juan Rulfo, Stanley Cavell, Eduardo Galvão e Alasdair MaCyntire me pesavam nos ombros a cada chamada de um portão de embarque lembrando ser esta uma viagem repleta de tarefas, algumas delas pouco confessáveis. Parte destas tarefas estava devidamente sinalizada pela presença, sempre heterodoxa de A morte de Matusalém de Isaac Bashvis Singer, escritor iídiche novayorkino com quem passei a travar longas jornadas de conversa e simpatia, jornadas também divididas com Amós Oz e Elias Canetti. Por toda uma zona que preza o artifício das línguas secretas, gosto de imaginar, à moda da imaginação adoentada, que ando meio judeu e, por não sê-lo sei, nos apertos de mão e símbolos dispostos na lapela, que não estou sozinho.
            A leitura dos contos de Bashevis Singer cumpria a função de toda leitura trágica ou teologicamente informada que sempre ponho no colo a cada vôo em que me sento. Uma vez dentro de um avião desejo, para fins de refreio de um ou outro faniquito, que a viagem seja a última e que ela termine na queda e na explosão que antevejo a cada vez que lembro ser minha hora de voar. Entendo que o medo seja em grande parte carregado pela antecipação de algo que, por ser contingente não pode ser antecipado. Este hiato me arremessa em uma zona infinitesimal em que o adiamento do infortúnio, do fim tantas vezes temido, transforma-se num castigo eterno, as tripas devoradas por abutres, corvos e urubus. Para sempre; a eternidade na antecipação de uma mente pobre. O mal que se busca evitar não chega jamais, até porque vir pode não ser de seu domínio. O que entendi é que para evitar o abismo, para contorná-lo me é imperativo desejá-lo enquanto for o momento de sua irrupção. Não esperar que venha, mas desejar que venha. A fenda na terra me fará saltar, diria aqui se fosse um profeta pregando no deserto.



            Voltei ao hostel na eminência de chuva forte (diria iminência, mas eminência talvez faça mais sentido) que, por força do hábito me faria parar. Não parei. Travei conferência longa sobre destinos possíveis, novos rumos cujo passeio me levou ao que acontece em crônicas ruins: detalhes pitorescos do aparelho urbano e chuva. Muita chuva. Domingo interrompido.



Alguém bate à porta. Por alguma razão, todos os contos de Bashevis Singer parecem começar assim. É assim que os ordeno, é assim que me lembro deles, é assim que eles não são. Alguém bate à porta. Porque está escuro, porque é noite, porque é inverno, porque há um incêndio, porque se está a amar. E então, alguém bate à porta – em geral é o diabo. No quarto sem janelas que já trazia marcas de acolhimento, comecei a pensar na porta. Sem janelas, uma porta. Ninguém jamais bateria àquela porta. Fechei o volume que lia, um conto em que alguém chegava até uma outra pessoa, batendo à porta mais uma vez. Não sei, na verdade. É como me lembro. Choveu de novo, mas com ímpeto e energia que só vi se repetir duas ou três vezes no percurso que viria a fazer. Dois dias depois, fiz o mesmo caminho, do quarto, subindo a escada apertada até a recepção, de forma a me espalhar na sala de TV. Choveu a mesma chuva que, impetuosa e indiscreta fez parar tudo. Na verdade, é difícil descrever um momento como esse. Uma tempestade amazônica tem uma marca indiscutível. Não é que não chova forte, de forma definitiva na cidade de Campinas. Perdem-se muros, árvores e calçamentos a cada vez que o céu pratica sua violência. Mas, ao exemplo dos passarinhos, a chuva, lá e cá, não são as mesmas. Em casa, gotas finas, de voz aguda, em meio a trovões esganiçados e repetitivos. Histeria destrutiva, pressa. Enquanto subia para ouvir a chuva no salão, e esta sensação se repetiu em cada oportunidade, o grave predominava como tom, e os golpes de vento eram feitos a punho cerrado, encerrando a questão. Os trovões não vinham em berro, mas em rumor. Tudo sob controle da chuva, enquanto o resto de nós, ou escondidos, ou escorrendo pelas travessas encarnadas.
            Obviamente que me peguei pensando. O momento patético do viajante literário que, pensativo e atrapalhado, olha para o teto, reflete e disserta. Ridículo. Escrevi em meu caderno verde:

            Tem que ver. Há uma leitura de que gosto muito – e escrevo sobre esta leitura debaixo da pior tempestade que já vi em território amazônico. E por isso mesmo que me veio à memória. Afinal, aqui, nada mais improvável do que qualquer coisa que Isaac Bashevis Singer tenha escrito. Gimpel, o bobo seria devorado e morto, ou simplesmente apodrecido. O velho manco aficcionado pela prosa do narrador, e que condena com frieza toda a poesia do mundo por causa da amizade não-contraditória que pôde nutrir com o nazismo; bom, ninguém pediria autógrafos tendo que atravessar uma chuva dessas, os livros ficariam molhados e se entregariam ao bolor da umidade posta ao sol abafado; seria um velhinho assaltado, como temia Alípio em nosso almoço; não seria. O que quero dizer é que Bashevis Singer faria suas personagens desistirem, lesos e inchados  pelo calor, desesperados ou sonolentos para aventarem qualquer cotejo ao Torah. E com isto não quero dizer que Belém é uma cidade particularmente cruel em um corte patológico. O que digo é que não há nada para uma personagem de Bashevis Singer fazer por aqui e que, talvez o melhor que fizessem fosse retornar à Val-de-Cães e, então, para a enorme casa internacional da geopolítica judia. Nesta chuva, uma coisa é certa. Nesta chuva, ninguém lê. Nesta chuva  o diabo não bate à porta.
           

terça-feira, 13 de março de 2012

Filosofia numa cacetada só, ou duas, vai, vol. 09


René Descartes
Fragmentação. Self dividido. Pessoa Fractal. Santíssima Trindade. Divíduo. Self Múltiplo. Menos que um. Todas operações de divisão desta kabbalah pitagórica que demanda como resultado qualquer número inteiro e racional que não seja 2, para prejuízo de René Descartes.

Hiléia:Altamira, ambos os três


Não creio que eu tenha conseguido esconder minha decepção um minuto sequer. Obviamente que Codorna fez o esforço gentil em dissimular, vindo a reconhecer alguma mesmice nos dias somente no fim da jornada, quando ainda estava doente. Sabendo que posso compreender perfeitamente tudo o que se passou, como pude, aqui mesmo dizer todas as coisas que competiram para o entrave, os dias repetidos de caminhada solitária não poderiam esconder outra coisa senão a impaciência de esperar. No afã de repetir no entusiasmo patético a máxima de uma viagem com fins de “dar uma força para um amigo da FUNAI”, o tempo conta num regressivo de segundos divididos ao meio em progressão aritmética em que, sabendo ter cada vez menos tempo, os segundos que passam são cada vez menores sendo ainda sim um segundo, e só. Saber que o andamento dos dias não respeita nenhum sentido métrico justo e regular não permite que da abdicação dos planos advenha necessariamente a alegria. Antecipação do malogro, é bom saber, não é malogro algum. Se por acaso fui até Altamira respondendo ao apelo de um amigo não é por ser nominalmente convocado, ainda que possa ou tenha dito que sim.

 Não o lançou sequer aos amigos que tem. Nos convocou a todos, na margem aberta de qualquer folheto de anúncio jogado ao chão. escreveu para qualquer um, pedindo aos amigos que, à moda antiga espalhassem a notícia. O que fez foi, no limite, assinar um cheque e eu, tolo vi na fortuna numerada um bilhete de amor assinado. Não tenho qualquer autoridade para demandar condecorações e festividades pelo simples fato de me mover, como faço com minhas caminhadas, e não poderia esperar uma ação militar de combate pelo simples fato de me condoer da situação de Cordorna, meu amigo que trabalha na FUNAI. A responsabilidade de viver esta viagem na clave da tragédia é minha. A grandiloqüência fez de mim um pregador de rua, um pastor sem fiéis num comício nu; o jogo de cena então, digno de pena. Desde que cheguei em Altamira vi o ponteiro da trama me acelerar, dizendo que os 50 anos futuros, a próxima geração inteira, seriam vividos em 2 ou 3 horas e, lamentavelmente, não havia contracena. Não poderia conversar com alguém aqui ao lado em meio à simulação da voz que, sussurrada deveria ser ouvida na última fileira de cadeiras. Definitivamente, uma personagem em busca de uma peça que, como que por conspiração, não será escrita.

No caso de eu acusar alguém de ser meu amigo, e por causa disso me comprometo com isso – por ter chamado de amigo, significa que me considero seu amigo também -, nada permite dizer que se trata de uma situação simétrica, ou mesmo harmônica, e certamente não é exclusiva. Entenda-se a trajetória de três estudantes de piano clássico, brilhantes o suficiente para se recluirem no Sitftung Mozarteum de Salzburg, que narra uma relação em degraus: um segue a sina de ser um gênio do piano que, no auge de sua carreira, abdica das apresentações em público e em estúdio, isolado grava suas performances mais brilhantes; um segundo admite a mediocridade e, medíocre, contenta-se em redigir uma novela de fôlego curto sobre ter parado ao meio do caminho entre o gênio e o fim; um terceiro entra em desespero porque, imune à resignação recorre a um suicídio abrupto e narcisista atingindo aquilo que, aparentemente seria um naufrágio. As coisas não são feitas à dois porque, quando enfim sós, versa-se sobre o esconderijo. Há sempre mais alguém na espreita.

Saí do apartamento de Codorna. Só. Nesta altura, Altamira não era exatamente um mistério. O apanhado aleatório de ruas que definem uma cidade que não conhecia tinha mais do que pontos cardeais, alguma história devidamente guardada. No bolso, anotada num caderno verde.

Minha impaciência por deixarmos o tempo passar lentamente por grande parte do dia já estava relativamente amortecida pela compreensão forçosa de reconhecer na enfermidade e numa paixão igualmente repentina a recomposição do triângulo obrigatório de uma relação,  de qualquer relação, o que afirma que, obrigatoriamente, um casamento é um triângulo amoroso.  À repetição dos dias anteriores fui passear. Por mais que eu tente sugerir algo mais atento do que um passeio, não fiz senão isto. Atento, indignado, grandiloqüente. Passeio. Saí com a mochila nas costas repetindo o mesmo trajeto que leva à orla de Altamira, de onde se assiste à eterna passagem do Xingu lembrando que os trens são muito curtos. Da rua sem nome de onde parti, onde Codorna mora, dobrava à esquerda na travessa Pedro Gomes. Acenava aos proprietários, tanto da loja de ferragens quanto do prédio onde estava abrigado, de uma só vez. São as mesmas pessoas, o mesmo casal. Segui para o cruzamento com a avenida Djalma Dutra, sempre atento a cada cruzamento para o que Codorna chamou de “mão chinesa”, cujo sentido não é difícil de abstrair porque não há regras para se atravessar a rua senão seguir aos poucos, um passo por vez, ocupando espaço e cedendo a extensão anterior até que, com a devida agilidade se possa atingir um novo território protegido contra bicicletas, motos e caminhonetes 4x4, a fauna do tráfego regional. Não há como dizer que o enxame de ferro articulado com gente dentro e ao redor é alguma novidade. De inédito somente a fluidez da prática constituída como costume, tradição de não obedecer ou, melhor, de não haver o que ser obedecido. Não há contradição nisso. Aqui, nenhuma. É como a vida e a morte.

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Não posso deixar de transparecer o medo infantil que toma conta de cada uma das frases que narro. Tudo, absolutamente tudo parece errado, ao ponto em que as palavras, redigidas no mais rigoroso silêncio soam erradas. Não é nada disso, sussurram, é um engodo, chegando por fim ao veredicto, traidor. Não sinto mais a febre da viagem, e os sinais da doença que me liquefez na volta já não acometem nenhum dos episódios anotados no caderno verde. Ainda que a continuação desta redação seja imperativa não vejo nela nenhuma razão de ser senão o mero prosseguimento. Mero prosseguimento. Mero prosseguimento. Aqui, mera interrupção porque chove, sem contradição.

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Espaço Cultural Francisco Melo. Porque Altamira tem o que jamais conheci, ainda que saiba ser uma marca dos solos regionais. Altamira tem um artista da cidade. Este responde pelo nome de Francisco Melo. Melo é uma figura. E como todas as figuras, obriga a quem lhe vê a decidir por detalhes e recompor o conjunto. Apontei pára a Bíblia sobre sua mesa, encadernada em verde. Sugeri ser boa leitura.

“Eu não sou filósofo, entende? Não sou estudado, não entendo muito essas coisas. Leio porque... porque tá aqui. Leio, faço minhas notas, entendo, dou um jeito. Mas não sou filósofo. Eu sento e penso. Mas o que eu queria dizer é que acho que fazemos as coisas de um jeito meio parecido... do jeito que um vulcão acontece. Porque, no centro da terra, não é bem no centro... você sabe. Mas tem ferro derretido, incandescente, que passa por onde der até chegar à superfície. Ele passa entre as fendas das placas tectônicas, passa por onde é mais fraco. Acho que agimos assim, e fazemos por onde somos mais fracos.”

sexta-feira, 9 de março de 2012

Hiléa:Altamira, no Pomme D´Or II


Tudo o que eu posso dizer a esta altura é que não é difícil antecipar, tendo em vista as grossas camadas de acontecimentos futuros sob os quais nos abrigamos quando nos sujeitamos a uma viagem. A antecipação pode ser tão precisa que eu, a esta altura da vida, ainda me permito escrever sobre isto na primeira pessoa do plural, imaginando poder implicar você, leitor em cada uma das possibilidades que eu poderia aventar. A viagem não é, se assim posso dizer o território do desconhecido para aonde saltamos com vistas no simplesmente irreconhecível. A viagem parece se justificar enquanto tal porque dela antecipamos alguma coisa, nos adiantamos de alguma forma e a felicidade está em termos nos tornado recipientes adequados para um dado contínuo de experiências. O destino e os meios empregados para viajar, o que se dispõe a fazer, a forma como se deixa guiar pelas pessoas que trava contato parecem desenhar aquilo que é o próprio sistema de crédito da viagem. Assim, voltar doente de uma viagem que contou com um período de imersão em condições mais inóspitas, mas não se adoecer em nenhuma situação de risco real durante a viagem pode ser, e no caso é uma das condições de sucesso e felicidade. Ir a um hospital após o retorno à casa e tomar algo de intravenoso pode ser aquilo que se espera, um dos objetivos para se ter viajado. E não se trata de nenhuma sorte de masoquismo, pois o mal-estar e a dor podem ser decididamente desagradáveis, mas é uma questão de lucidez, antecipação. Há coisas para as quais não estamos preparados e, ao nos prepararmos para tal acabamos nos sujeitando aos custos de viajar e, aceitando o preço que se paga admitimos que antecipar não significa ter como lidar com tudo como se fosse rotina. Antecipação não é, em hipótese alguma normalização. É assim que viajar pode ser, ao mesmo tempo previsível e extraordinário.

“Sabe, rapaz, que este plebiscito é um equívoco. Dividir o estado do Pará deste jeito, criando os estados do Tapajós e do Carajás, é um equívoco. O rio Amazonas não pode servir de fronteira. O Amazonas não é uma fronteira. É um rio que é um mar. Não se atravessa o Amazonas. Se atravessa no Amazonas. Espero que entenda isso. Ouvi muitos rapazes que, assim de sua idade jogaram no rosto das autoridades toda uma série de equívocos a respeito deste plebiscito, de como favoreceria mineradoras e usinas hidroelétricas. Entenda, rapaz, que qualquer processo decisório que entenda o Amazonas como fronteira está fadado ao fracasso. Porque, entenda, e você que está viajando irá perceber como as coisas são por aqui. Te disseram para ir a Cotijuba. Eu nunca vou a Cotijuba. Recomendo que vá mais adiante, conheça Mosqueiro. É lindo, uma delícia, com casas de veraneio maravilhosas. Não tem essa coisa toda daqui... porque eu não posso andar a pé por Belém. Velho, você sabe como é. Posso precisar andar um quarteirão que seja, coisa pouca que logo vem alguém e, bem... Mas vá a Mosqueiro. Uma beleza. Porque tem muita coisa nova acontecendo, lugares novos surgindo. Finalmente parece que o Pará está se movendo para alguma direção. Dinheiro está aparecendo depois de muito tempo, e sempre que o tivemos... nossos políticos são muito ruins. Não houve jeito. Políticos muito ruins e quando se extrai alguma coisa daqui, não fica nada. Leva-se tudo. O Pará nunca ficou com nada. Parece que estão revendo isso, mas desde a história coma borracha, a mineração, o Pará nunca fica com nada. Tivesse ficado com alguma coisa, estaria em outra situação. Mas tem coisas novas aí, com essa mudança de rumos, com os pobres comprando mais, com essas hidroelétricas. Se você vai à Altamira, pegue a estrada. Mas não vá dirigindo, porque é uma estrada muito traiçoeira. Muita gente fica presa sem ter como sair, por dias porque vai dirigir, segue apressado e mesmo na seca, é pega de surpresa pela poeira. Quando chove, é o atoleiro. Mas se faz sol, é a poeira. O carro atola do mesmo jeito. Meu filho, que é médico em Tucuruí vai dirigindo, mas até Tucuruí a estrada está boa. E a cidade está uma maravilha, depois da usina, que nem parece uma cidade amazônica. O mesmo vai acontecer com Altamira.”

No que Alípio cuspiu, discretamente meu último osso, dizendo que tinha que partir, pois conduziria o gerente do restaurante onde estávamos para um outro restaurante, o que se abrigava sob o teto de um dos inúmeros redutos da família Yamada.

Dormi com a possibilidade de que Altamira não seria mais uma cidade amazônica. Aquilo calou fundo, a idéia de que, tal como me disse Alípio, o sul do Pará eliminavaa, feliz e lentamente as cidades amazônicas. Entenda-se que não tinha idéia do que aquilo significava, mas imaginar uma situação como essa não é muito diferente da de imaginar uma cidade japonesa em plena floresta. Vale dizer que Alípio não disse nada semelhante a respeito de Tomé-Açu não ser uma cidade característica das bandas de cá. Pelo contrário, a cidade parece assentar muito bem na forma histórica de acomodação de espaços da região. Ainda assim, tudo o que pude fazer para me orientar na imagem que eu teria de Tucuruí constituía a imagem de uma cidade com ruas bem desenhadas, limpas, com ônibus seguindo seu itinerário com calam e regularidade, enquanto pessoas seguiam suas vidas em relativo silêncio e resignação, adequadas a um princípio austero de prosperidade. A negação de uma cidade amazônica, na minha cabeça e na de Yuto era, na verdade uma cidade japonesa. Para ser o que ouvi, Tucuruí precisaria ser Tomé-Açu. E isso, obviamente não poderia ser. Minha cartografia estava tomada por completo por um grande sistema de erros minuciosamente elaborado.

Alípio se levantou com dificuldade, após a longa introdução ao estado do Pará que motivou muita de sua conversa, sua forma de me fazer companhia. Tucuruí vinha bem porque se destacava das demais cidades. Menos amazônica. Quando de pé, Alípio me estendeu a mão direita, no que respondi pondo-me de pé e cumprimentando-o, grato pela conversa. Disse que partiria também, porque estava tarde e deveria voltar até o hostel a pé. Foi quando nos separamos. Alípio ficou sem reação, seu rosto se manifestava incrédulo, sua boca se contorceu em reprovação. Tinha falado com a pessoa errada, o tempo todo. Tudo o que disse depois não pode ser descrito de outra forma senão como uma linha cruzada, uma conversa confidencial entre agentes que trabalham em casos diferentes e que se encontram, por engano na mesma mesa. Toda a conversa, cifrada parece indicar que seu interlocutor é quem deveria ser, um informante ou um contato. Nada durante toda a conversação entrega o que só é revelado por um ato falho na última frase dita. Um não era quem o outro pensava. Alípio fora traído.

Eu? Eu não. Belém sequer existia para mim senão como uma memória desagradável. Ninguém existia, até então, senão uma cortina de fumaça enorme e persistente. Caminhei lentamente, dando voltas entre quarteirões, costurando ruas, obedecendo a recomendação que meu amigo de angola, Eduardo Lourenço tinha me dado: nunca voltar pelo caminho que veio. Há sempre um inimigo lhe esperando por onde você partiu.